Os Miseráveis
II — Escuridão que pode encerrar uma revelação
— Enfim, senhor barão, se mo permi r voltarei a vê-la. Asseguro-lhe que o desejo muito. Se eu não vesse interesse em ver Cose e não lhe teria feito a confissão que lhe fiz, teria par do para longe; mas, querendo ficar onde está Cose e e con nuar a vê-la, ve de lhe dizer honradamente tudo. O senhor acompanha o meu raciocínio, não é verdade? É uma coisa que se compreende o que acabei de lhe dizer. O que quer o senhor? Tive-a junto de mim durante nove anos. Morámos primeiro naquele casebre do boulevard, depois no convento, e em seguida próximo do Luxemburgo. Foi ali que o senhor a viu pela primeira vez; deve lembrar-se do seu chapéu de pelúcia branca.
Es vemos no bairro dos Inválidos, onde havia um jardim com grade, na rua Plumet. O
meu quarto era num pá o das traseiras, de onde ouvia o piano dela. Aqui está a minha vida. Não nos separávamos nunca; e isto durante nove anos e alguns meses. Eu era como se fora seu pai, e ela era minha filha. Não sei se compreende isto, senhor Pontmercy; mas ir-me agora embora, não tornar a vê-la nem a falar-lhe, não ter mais nada, seria uma coisa di cil. Se o senhor não o achasse inconveniente, viria de tempos a tempos ver Cose e. Viria poucas vezes, não me demoraria muito. O senhor mandaria que me recebessem no ves bulo; entraria pela porta das traseiras, por onde entram os criados; mas isso talvez causasse admiração. Parece-me que é melhor entrar pela porta por onde
entra toda a gente. Com toda a verdade, desejava ver Cose e ainda algumas vezes; as vezes que o senhor quisesse. Coloque-se no meu lugar, não tenho mais nada. E depois, é necessário cautela: não voltar eu aqui deve causar mau efeito, todos acharão isso singular. O que posso fazer é vir no fim da tarde, quando começar a anoitecer.
— Poderá vir todas as tardes, Cosette esperá-lo-á.
— O senhor tem muito bom coração — disse Jean Valjean.
Mário cumprimentou Jean Valjean; a felicidade acompanhou até à porta o desespero; os dois homens separaram-se.
II — Escuridão que pode encerrar uma revelação
Mário estava transtornado.
A espécie de repugnância que sempre lhe inspirara o homem junto de quem via Cose e, acabava de lhe ser explicada. Vira sempre naquele personagem um não sei quê de enigmático, de que o seu instinto o advertia.
Este enigma era a mais hedionda das vergonhas, a galé.
Aquele senhor Fauchelevent era o forçado Jean Valjean.
Achar-se inopinadamente um tal segredo no meio da felicidade, assemelha-se à descoberta de um escorpião num ninho de rolas.
A felicidade de Mário e de Cose e ficaria condenada a uma tal vizinhança? Era porventura um facto realizado? A aceitação daquele homem fazia parte do casamento consumado? Não havia, a semelhante respeito, mais nada a fazer?
Mário desposara também o forçado?
Embora se esteja coroado de luz e de alegria, embora se saboreie a grande hora purpurina da vida, o amor feliz, semelhantes repelões obrigariam a estremecer o próprio arcanjo no seu êxtase, o próprio semideus na sua glória.
Como sucede sempre neste género de mutações à vista, Mário perguntou a si mesmo se não nha de que se acusar. Faltara-lhe o dom de adivinhar? Faltara-lhe prudência?
Tinha-se atordoado voluntariamente?
Um tanto, talvez.
Tinha-se arriscado sem a suficiente precaução para esclarecer os contornos, àquela aventura, que terminara pelo seu casamento com Cosette?
Examinava — é sempre por uma série sucessiva de exames sobre nós mesmos, que a vida, a pouco e pouco, nos corrige — examinava, dizíamos, o lado quimérico e visionário da sua natureza, espécie de nuvem interior, natural em muitas organizações, e que nos paroxismos da paixão e da dor se dilata, pela alteração da temperatura da alma, e invade o homem todo inteiro, a ponto de não produzir nele senão uma consciência imersa em nevoeiro. Temos indicado mais duma vez este elemento caracterís co da individualidade de Mário. Recordava-se de que na embriaguez do seu amor, na rua Plumet, no decorrer daquelas seis ou sete semanas extá cas, nem de leve falara a Cose e daquele drama do covil Gorbeau, onde a ví ma tomara tão estranha resolução de silêncio durante a luta, evadindo-se depois. Como fora que não nha falado a Cose e em tal assunto? Contudo era uma coisa tão recente e medonha! Como fora que nem sequer lhe nomeara os Thenardier, e, par cularmente, no dia em que encontrara
Eponina! Achava quase di cil explicar o seu silêncio de então. Entretanto notava-o agora. Recordava-se do seu atordoamento, da sua embriaguez por Cose e, do amor absorvendo tudo, daquele enlevo de um pelo outro no ideal, e talvez também, como sendo a quan dade impercep vel de razão aliada a esse estado violento e encantador da alma, de vago e surdo ins nto de ocultar e abolir na memória aquela temível aventura de que temia o contacto, em que não queria desempenhar o menor papel, à qual fugia, e de que não podia ser narrador nem testemunha, sem que fosse acusador.
Além disto, aquelas poucas semanas nham sido um relâmpago; não houvera tempo para nada senão para se amarem. Enfim, bem considerado, bem pesado, e examinado tudo, quando mesmo vesse contado a Cose e a cilada do pardieiro Gorbeau, quando mesmo lhe vesse falado nos Thenardier, quaisquer que fossem as consequências, quando vesse descoberto que Jean Valjean era um forçado, teria isto tudo produzido nele ou em Cose e alguma mudança? Teria ele recuado? Tê-la-ia adorado menos? Teria deixado de a desposar? Não. Não nha nada a las mar, nada de que se arrepender.
Tudo fora pelo melhor.
Há com certeza um Deus para os ébrios a que chamam namorados.
Cego, seguira Mário o caminho que seguiria tendo vista. O amor vendara-lhe os olhos para o conduzir; mas aonde?
Ao paraíso.
Esse paraíso porém estava sombreado por uma vizinhança infernal.
A an ga repugnância de Mário por aquele homem, por aquele Fauchelevent tornado Jean Valjean, achava-se agora envolta de horror.
Neste horror, digamo-lo, havia alguma compaixão e até mesmo certa surpresa.
Aquele ladrão, ladrão reincidente, res tuíra um depósito. E que depósito! Seiscentos mil francos. Só ele tinha o segredo de tal depósito; podia guardar tudo, e entregou tudo.
Além disto revelara voluntariamente a sua situação.
Não havia nada que a isso o obrigasse. Sabia-se quem era, por ele mesmo. Naquela confissão aceitara mais do que a humilhação, aceitara o perigo. Para um condenado, uma máscara não é uma máscara, é um abrigo. Tinha renunciado a esse abrigo. Um nome suposto é a segurança; rejeitara esse nome. Podia, sendo forçado, ocultar-se para sempre no seio duma família honesta; resis ra a essa tentação. E porque mo vo? Por escrúpulo de consciência. Explicara-o ele próprio com o atento da realidade. Em suma, fosse o que fosse, aquele Jean Valjean era incontestavelmente uma consciência que despertava. Havia ali não sei que misteriosa reabilitação começada; e segundo todas as aparências, havia já muito tempo que o escrúpulo se apoderara daquele homem.
Semelhantes acessos do justo e do bem, não são próprios das naturezas vulgares. O
despertar da consciência denota grandeza de alma.
Jean Valjean era sincero. Esta sinceridade, visível, palpável, irrefragável, mesmo até evidente pela dor que lhe causava, tornava inúteis quaisquer informações, e dava autoridade a tudo que aquele homem dissera.
Aqui dava-se para Mário estranha inversão de situações. O que era que se destacava do senhor Fauchelevent? A desconfiança. O que se destacava de Jean Valjean? A
confiança.
No misterioso balanço a que Mário, no meio das suas cogitações, procedia, com relação a esse Jean Valjean, examinava o ac vo e passivo, e tentava conseguir o equilíbrio entre um e Outro.
Tudo isto, porém, parecia achar-se na mais tempestuosa confusão.
Mário, esforçando-se por adquirir uma ideia clara acerca de semelhante homem, e perseguindo Jean Valjean, para assim dizer, no fundo do seu pensamento, perdia-o de vista e tornava a encontrá-lo no meio de uma névoa fatal.
Quanto à honrada res tuição do depósito, à probidade da revelação, bem estava. Era uma como claridade no meio da névoa, porém esta depois tornava a fechar-se escura, como dantes.
Apesar da confusão das suas reminiscências, Mário entrevia nelas uma escuridão inexplicável.
Que significava aquela aventura passada no miserável albergue de Jondre e? Porque motivo se tinha aquele homem evadido à chegada da polícia, em vez de se queixar?
A isto achava Mário a resposta. Porque esse homem era um criminoso reincidente, um forçado fugido das galés.
Outra pergunta:
— Que fora aquele homem fazer à barricada?
Mário não podia deixar de fazer a si mesmo esta pergunta, agora que à memória lhe acudia dis ntamente essa recordação, reaparecendo-lhe no meio dessas emoções como a tinta simpática que é exposta ao fogo.
Esse homem es vera na barricada, conquanto não combatesse. Que fora ele lá fazer?
A esta pergunta respondia o espectro de Javert, surgindo das trevas em que estava envolto. Naquela ocasião, a memória de Mário reproduzia-lhe perfeitamente a fúnebre visão de Jean Valjean, puxando para fora da barricada Javert atado de pés e mãos, e ele ouvia ainda por trás da esquina da viela de Mondétour o estrondo horrível daquele ro de pistola. Era verosímil que o espião e o forçado mutuamente se odiavam.
Incomodavam-se um ao outro. Jean Valjean, portanto, nha ido à barricada com o intuito de se vingar, por isso que, provavelmente, sabia que Javert ali se achava prisioneiro, porém chegara tarde. A vende a corsa acha-se derramada entre algumas das classes inferiores da sociedade, para as quais tem força de lei; é tão natural entre elas, que a não estranham as almas quase conver das para o bem; e de tal modo são conformados aqueles corações, que um criminoso em caminho da sua reabilitação chega a ter escrúpulos em relação ao roubo e a não os ter com relação à vingança. Jean Valjean matara Javert. Ao menos, era o que parecia, segundo todas as probabilidades.
A derradeira pergunta, finalmente, era a seguinte, que oprimia Mário como uma tenaz, mas a que ele não conseguia encontrar resposta:
Que série de acontecimentos nha dado lugar à prolongada convivência de Cose e com Jean Valjean? Que sombrio capricho fora o da Providência, pondo aquela jovem em contacto com semelhante homem? Pois também no céu há correntes como as que na terra prendem os criminosos aos pares, e gostará Deus de acorrentar juntos o anjo e o
demónio? Pois o crime e a inocência podem ser camaradas de rancho nas misteriosas galés da miséria? Pois nesse desfilar de condenados chamado des no humano podem passar a par duas frontes, uma cândida, outra medonha, uma inundada dos divinos clarões da alvorada, outra para sempre ungida pelo lívido clarão de um relâmpago eterno? Quem seria que determinara tão inexplicável associação? De que modo, em virtude de que prodígio, fora possível estabelecer-se uma existência comum entre aquela celeste jovem e aquele velho condenado? Quem havia conseguido ligar o cordeiro ao lobo, e — coisa ainda mais extraordinária! — ligar o lobo ao cordeiro?
Pois, no caso presente, o lobo amava ao cordeiro, o ente feroz adorava o ente frágil, durante o espaço de nove anos, o monstro fora o amparo do anjo. A infância e a adolescência de Cose e, os seus primeiros passos no mundo, o seu virginal crescimento para a vida e para a luz, tudo isto fora abrigado pela abjecta dedicação daquele homem.
Neste ponto, as perguntas ramificavam-se, para assim dizer, num sem número de enigmas, abriam-se abismos sobre abismos, e Mário não podia debruçar-se sobre a voragem em que via sumir-se-lhe Jean Valjean, sem se sen r acome do de uma ver gem, tentando, por consequência, inu lmente devassar o mistério daquele homem-precipício.
Os símbolos genésicos são eternos: no estado actual da sociedade humana, há e haverá sempre dois homens, um superior, outro inferior, enquanto uma luz mais intensa não vier operar nela uma mudança; o que existe para o bem chama-se Abel, o que existe para o mal chama-se Caim.
Que vinha a ser esse terno Caim? Que vinha a ser aquele ladrão religiosamente absorto na adoração de uma virgem, desvelando-a, educando-a, preservando-a, dignificando-a e circundando-a de pureza, ele, criatura impura? Que cloaca vinha a ser aquele que venerara aquela pureza, a ponto de não lhe deixar uma mancha. Que qualidade de homem era esse Jean Valjean, que tomara sobre si a educação de Cose e?
Que vinha a ser esse vulto de trevas, cujo cuidado todo era preservar da menor sombra, da menor nuvem, o despontar de um astro?
Nisso consis a o segredo de Jean Valjean, se é que o seu segredo não era também o de Deus.
Ante este duplo segredo, Mário recuava, Um tranquilizava-o, para assim o dizer, a respeito do outro. Naquela aventura manifestava-se tão visível a presença de Deus como a de Jean Valjean. Deus tem seus instrumentos e lança mão do utensílio que mais lhe apraz, sem que tenha por isso de dar contas ao homem nem de fazer-lhe saber os seus desígnios. Cose e era, até certo ponto, um artefacto saído das mãos de Jean Valjean.
Fora ele, para assim dizer, o lapidário daquela alma. Isto é que não admi a dúvida nenhuma. Não admi ria; e então que nha isso? Se o ar sta era horrível, a obra era admirável. Deus produz os seus milagres da maneira que lhe apraz. Produziu aquela jovem graciosa e empregou Jean Valjean para o ajudar. Aprouve-lhe tomar esse singular colaborador. Por isto temos algumas contas a pedir-lhe? Pois será acaso a primeira vez que o estético ajuda a Primavera na produção da rosa?
Mário respondia deste modo a si mesmo e tentava convencer-se de que as suas respostas não admi am réplica. Tivera desejo de interrogar Jean Valjean e sen ra que lhe minguavam as forças para o fazer. Adorava Cose e, possuía Cose e, Cose e era pura como o sol: que lhe importava o mais? Que esclarecimento lhe faltava?
Cosette era uma luz e a luz precisa de ser esclarecida.
Tinha tudo, que mais queria? Que mais podia desejar? Não era bastante tudo?
Os negócios pessoais de Jean Valjean, com esses nada nha. O esgalho a que Mário se apegava ao debruçar-se sobre o abismo de trevas em que desaparecia o vulto desse homem era esta solene declaração do Miserável: «Não sou nada a Cose e. Há dez anos nem sequer sabia que ela existia».
Jean Valjean, portanto, era apenas um estranho, como ele próprio dissera. Um estranho que passou, deteve-se e seguiu avante. Fosse ele quem quer que fosse, o seu papel findara. Agora a Mário é que tocava ser a Providência de Cose e, que Viera buscar ao espaço o seu igual, o seu amante, o seu esposo, o seu varão celeste. Remontara-se ao ar, e, ao par r da terra, transfigurada e alada, deixava vazia após si a sua medonha crisálida — Jean Valjean.
Qualquer que fosse a série de ideias que Mário passasse em revista, a lembrança de Jean Valjean nunca lhe voltava ao espírito inteiramente desacompanhada de um sen mento de horror. Horror talvez sagrado, pois que, Mário entrevia um quid divinum naquele homem. Por mais que ele fizesse, porém, por mais que procurasse fazer valer as circunstâncias atenuantes, via-se sempre apertado pelo círculo de ferro desta conclusão: é um forçado, quer dizer, uma criatura que nem lugar tem na escala social, por isso que fica abaixo do úl mo degrau. Após o úl mo dos homens, segue-se o forçado. O forçado já não pode, para assim dizer, ser equiparado aos vivos. A lei des tui-o da maior porção de humanidade que pode tirar a um homem.
Apesar dos seus sen mentos democrá cos, Mário, com relação a questões penais, seguia ainda o sistema inexorável, nutrindo a respeito daqueles sobre quem recai a acção da lei as mesmas ideias que ela. O jovem, devemos declará-lo, não nha ainda tocado a meta de todos os progressos. Ainda não sabia descriminar entre o que é escrito pelo homem ,e o que é escrito por Deus, entre a lei e o direito. Ainda não havia examinado e ponderado o direito que o homem se arroga de dispor do irrevogável e do irremediável. Não lhe causava indignação a palavra vindicta. Afigurava-se-lhe uma coisa natural que certas infracções da lei escrita fossem seguidas de penas eternas e aceitava como meio de civilização o inferno social.
Eis aqui qual o estado em que ainda se achava, a não se dar caso que viessem algum dia a sair dele, como o fazia esperar a bondade da sua índole essencialmente propensa a abraçar gostosamente qualquer ideia de progresso.
Já se vê que, dominado por estas ideias, Jean Valjean afigurava-se-lhe uma criatura disforme e repelente. Era o réprobo, o forçado.
Esta palavra soava-lhe aos ouvidos como a trombeta do juízo final, e o seu úl mo gesto, depois de largo espaço haver contemplado Jean Valjean, era voltar a cabeça para o lado. Vade retro.
Mário, é necessário reconhecer e ainda insis r nisto, apesar de interrogar Jean
Valjean, a ponto deste lhe dizer: «O senhor quer saber tudo», não lhe nha contudo dirigido duas ou três perguntas decisivas, Não fora porque se lhe não apresentassem ao espírito, mas porque tivera medo.
O covil dos Jondre e? A barricada? Javert? Quem sabe onde parariam as revelações?
Jean Valjean não parecia homem que recuasse; e quem sabe se Mário, depois de o ter impelido, não desejaria fazê-lo parar?
Em certas conjunturas supremas, não nos tem sucedido a todos, depois de feita uma pergunta, taparmos os ouvidos para não ouvirmos a resposta?
É sobretudo quando se ama, que se têm destas cobardias.
Não é prudente interrogar a todo o transe as situações sinistras, sobretudo quando a eles está fatalmente ligado o lado indissolúvel da nossa vida. Das explicações desesperadas de Jean Valjean, podia brotar alguma espantosa luz; e quem sabe se essa hedionda claridade não teria chegado até Cose e? Quem sabe se ficaria uma espécie de clarão infernal na fronte daquele anjo!
O salpico de um relâmpago é ainda raio.
A fatalidade tem destas solidariedades, onde a própria inocência fica impregnada de crime pela sombria lei dos reflexos colorantes. Os vultos mais puros podem conservar para sempre a reverberação de uma vizinhança horrível. Mário, com razão ou sem ela, nha medo. Já sabia demais. Desejava antes atordoar-se do que esclarecer-se.
Desorientado, arrebatava Cosette nos braços, fechando os olhos sobre Jean Valjean.
Um tal homem era a noite: noite vivente e terrível.
Como poderia ousar sondar-lhe o futuro? É espantoso o interrogar a sombra. Quem sabe o que ele responderá; a aurora poderá ficar enegrecida para sempre.
Numa tal disposição de espírito, era para Mário pungente perplexidade pensar em que aquele homem teria de então em diante o mínimo contacto com Cose e. Então quase se repreendia de não ter feito aquelas perguntas temíveis, diante das quais recuara e de onde teria podido sair uma decisão implacável e defini va. Achava-se demasiadamente dócil, digamos o termo, demasiadamente fraco. Esta fraqueza nha-o arrastado a uma concessão imprudente. Deixara-se comover; fizera muito mal. Deveria ter, pura e simplesmente, repelido Jean Valjean. Jean Valjean era o quinhão do fogo, deveria tê-lo apartado e desembaraçado a sua casa de semelhante homem.