Os Miseráveis
XIII — Quais eram as crenças do bispo
proporção que eles avançam, adiantam-se também os seus satélites; é um completo sistema solar em movimento. Com o seu próprio esplendor purpureiam os que lhe ficam atrás. A sua prosperidade traduz-se, para os que os rodeiam, em proporções de pequeno vulto, porém ainda importantes. Quanto mais rendosa for a diocese para o patrono, tanto melhor será a abadia para o valido. E, depois, lá está Roma. Um bispo que sabe fazer-se arcebispo, um arcebispo que sabe chegar a cardeal, leva consigo o valido como conclavista, mete-o a caminho, e em pouco tempo ei-lo auditor, ei-lo camareiro, ei-lo monsenhor; da Grandeza à Eminência dista apenas um passo e entre a Eminência e a San dade há somente o fumo de um escru nio. Não há solidéu que não sonhe com a tiara.
Hoje em dia o padre é o único homem que regularmente pode chegar a rei; e que rei!, rei supremo. Por isso, que viveiro de aspirações não é um seminário! Quantos meninos de coro, quantos seminaristas não trazem à cabeça a bilha de leite de Perre e! com que facilidade a ambição se in tula vocação! E quem sabe? Talvez por ser tão beata se intitule assim de boa fé, enganando-se a si própria!
Humilde, pobre, pouco conhecido, Monsenhor Bemvindo não pertencia ao número dos bispos influentes, o que se notava pela completa ausência de pretendentes à sua volta. Como se viu, fora mal recebido em Paris e, por consequência, longe andara sempre do pensamento de qualquer futuro pensar em consolidar-se junto do solitário ancião, uma só nascente ambição que tivesse a loucura de pretender medrar à sua sombra.
Os seus cónegos e vigários gerais eram em geral pobres criaturas, tão do povo como
ele, como ele entaipados naquela diocese sem saída para o cardinalato e muito parecidos com o seu bispo.
Tão geralmente reconhecida era a impossibilidade de medrar à sombra de Monsenhor Bemvindo, que os ordenandos apenas saíam do seminário, tratavam de arranjar recomendação para os arcebispos de Aix ou de Auch, re rando-se logo, porque, enfim, cada qual o que deseja é adiantar-se, e um santo que vive no meio de uma excessiva abnegação é perigosa vizinhança, pode tornar-se contagiosa a sua pobreza incurável, paralisar as ar culações do adiantamento aos que se lhe aproximam, exigir-lhes, em suma, maior desapego de si mesmos, do que aquele para que se acham dispostos. Por conseguinte, todos fogem de tão incomoda va virtude, e por isso se encontrava Monsenhor Bemvindo no maior isolamento. Vivemos numa sociedade extremamente sombria. Conseguir obter bom êxito, é o único título valioso no seio da corrupção.
Abominável coisa é o bom êxito, seja dito de passagem. A sua falsa parecença com o merecimento ilude os homens. Para o vulgo, o bom êxito equivale a supremacia. O bom êxito ilude a história. Só Tácito e Juvenal se lhe não submetem. Existe na época presente uma filosofia quase oficial, que envergou a libré do bom êxito e lhe faz o serviço da antecâmara. Fazei por serdes bem sucedidos, é a teoria. A prosperidade supre a capacidade. Ganhai na lotaria e sereis um homem hábil. A veneração é para quem triunfa. Nascei bem fadado, não queirais mais nada. Tende fortuna que o resto virá por si; sede feliz e julgar-vos-ão grande. Se pusermos de parte as cinco ou seis excepções imensas que fazem o esplendor de um século, a admiração contemporânea é apenas miopia. A doiradura também é oiro. Pouco importa que não sejais ninguém, contanto que consigais alguma coisa. O vulgo é um Narciso velho, que se idolatra a si próprio e aplaude o vulgar. A faculdade sublime de ser Moisés, Esquilo, Dante, Miguel Angelo ou Napoleão, concede-a a multidão indistintamente e por unanimidade a quem atinge o fim a que se propôs, seja no que for. Transforme-se um tabelião em deputado, escreva um suposto Corneille Tiridates, possua qualquer eunuco um harém, ganhe um Prudhomme militar acidentalmente a batalha decisiva de uma época, invente um bo cário solas de papelão para o exército do Sambre-et-Meuse e, vendendo-as por coiro, consiga arranjar um rendimento de quatrocentos mil francos, despose qualquer pobretão a usura e obtenha desse consórcio sete ou oito milhões, torne-se bispo um pregador fazendo citações que não percebe, seja o mordomo de uma casa opulenta tão rico ao deixar o seu lugar que o façam ministro das finanças, a tudo isto os homens chamarão expressões de génio, do mesmo modo que denominam belo o rosto de Mousqueton e majestoso o aspecto de Cláudio, confundindo com as constelações do abismo as estrelas que os gansos imprimem com as patas na superfície mole do lodaçal.
XIII — Quais eram as crenças do bispo
Debaixo do ponto de vista da ortodoxia, é inú l sondar o bispo de Digne Almas como a dele inspiram-nos todo o respeito. Deve acreditar-se na consciência do justo pelo que ela própria afirma. Ainda quando não fora senão porque nós, a respeito de certas naturezas, admi mos o desenvolvimento possível de todas as belezas da virtude humana numa crença diferente da nossa.
Quais eram os seus sen mentos a respeito de tal ou tal dogma, a respeito de tal ou tal mistério? Esses segredos do foro ín mo apenas o túmulo os conhece. Do que estamos certos é de que nunca as dificuldades da fé foram para ele transformadas em hipocrisia. Não há coisa alguma que faça apodrecer o diamante. « Credo in Patrem», costumava ele repe r. Afora isto, as suas boas obras davam-lhe a sa sfação que basta à consciência e que nos segreda: «Deus é contigo».
O que julgamos dever notar é que afora e, por assim dizer, acima da sua fé, o bispo possuía um excesso de amor. Era por isso, quia multum amavit, que o julgavam vulnerável os «homens sérios», as «pessoas sisudas», a «gente sensata», locuções predilectas do nosso mesquinho mundo em que o egoísmo recebe o santo e a senha do pedantismo. Que excesso de amor era esse?
Era uma benevolência serena, que abarcava todos os homens e às vezes chegava a estender-se até às coisas. Era afável para com todos e indulgente com as criaturas de Deus. Todo o homem, mesmo o mais bondoso, é dotado de uma dureza irreflec da, que se expande contra os animais. O bispo de Digne não era dotado dessa dureza, aliás, peculiar a muitos sacerdotes. Não a ngia o exagero do brâmane, mas parecia ter meditado naquelas palavras do Eclesiastes: «Quem sabe para onde vão as almas dos animais?».
As fealdades do aspecto, as disformidades do ins nto, não o perturbavam nem indigitavam; pelo contrário, comoviam-no e quase o enterneciam. Parecia que, pensa vo, procurava nelas, além da vida aparente, a causa, a explicação ou a desculpa; havia momentos em que parecia pedir a Deus comutações. Examinava sem cólera e com a atenção do linguista que decifra um palimpsesto, o caos que ainda existe na natureza.
Este profundo meditar dava lugar a que ele às vezes proferisse ditos singulares. Uma manhã, andando a passear no jardim e supondo-se a sós, por isso que não via a irmã, que caminhava atrás dele, parou de súbito e, fitando um objecto que jazia no chão, o qual era nada menos que uma enorme aranha, negra, peluda, horrenda, murmurou, de modo que a irmã ouviu:
— Pobre animal! Que culpa tem ele de ser assim?
Porque razão havíamos de ocultar estas quase divinais criancices da bondade? São talvez puerilidades, mas puerilidades sublimes como as de S. Francisco de Assis e Marco Aurélio. Uma ocasião, torceu um pé só para não pisar uma formiga.
Assim vivia aquele homem justo. As vezes adormecia no jardim, e então nada mais venerando do que a figura do bom bispo.
Se dermos crédito às no cias que temos dos precedentes da sua vida, Monsenhor Bemvindo, na sua juventude e ainda mesmo no tempo da sua virilidade, foi homem de génio áspero e até violento.
A sua mansidão universal era mais resultado de uma grande convicção, que por entre os sucessos da vida se lhe fora lentamente infiltrando no coração e caindo na alma pensamento por pensamento, do que ins nto da natureza A índole do homem pode como o rochedo, ser cavada por gotas de água, e essas concavidades nunca mais se desfazem, nunca mais se destroem. Em 1815, como nos parece já ter dito, contava ele
setenta e cinco anos, mas parecia não ter mais de sessenta. Era baixo e um tanto gordo, gordura que comba a dando longos passeios a pé: nha o andar firme e pouco se curvava, pormenor do qual nada pretendemos inferir; Gregório XVI, era desempenado e risonho aos oitenta anos, o que não obstava que fosse um mau bispo Monsenhor Bemvindo possuía o que o povo chama «um bonito rosto», porém, tão amável que fazia esquecer a beleza.
Quando conversava com aquela infan l alegria que cons tuía uma das suas graças, parecia que a sua jovialidade se comunicava a quem se encontrava com ele e que todo ele respirava alegria. A frescura e rosado da tez, a alvura dos dentes, que ainda conservava todos e que mostrava quando ria, davam-lhe esse aspecto de franqueza e afabilidade, que faz com que se diga de um homem: «É um bom rapaz», e de um velho:
«É um bom homem».
Foi essa a impressão que ele produziu em Napoleão. No primeiro momento e para quem o via pela primeira vez, não passava, efec vamente, de um bom homem, porém, decorridas algumas horas de permanência junto dele, por pouco expansivo que es vesse, via-o transfigurar-se lentamente, assumindo uma expressão veneranda; a sua fronte elevada e séria, que as cãs tornavam augusta, era também augusta pela meditação; a majestade sobressaía-lhe da bondade sem que a bondade cessasse de resplandecer: a sua vista produzia aimpressão que se sen ria ao ver um anjo, sorrindo, abrir lentamente as asas, sem deixar de sorrir. Um inexplicável respeito se apossava gradualmente do coração de quem o contemplava. Parecia a quem o via que nha diante dos olhos uma dessas almas fortes, indulgentes e ricas de provações em que o pensamento é tão sublime, que não pode deixar de ser suave.
A oração, a celebração dos o cios religiosos, a esmola, a consolação dos aflitos, a cultura de um canteiro, a fraternidade, a frugalidade, a hospitalidade, o desapego, a confiança, o estudo, o trabalho, ocupavam-lhe todos os momentos da existência