Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 248 de 359

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Os Miseráveis

III — Calão que chora e calão que ri

o Mal, e a entrever, cada vez mais perto de si, sob a água hedionda, essa cabeça draconiana, essa guela vomitando escuma, e a ondulação de garras e de ascorosas corcovas? Terá de permanecer ali, sem um clarão, sem esperança, exposta a essa aproximação formidável, vagamente farejada pelo monstro, trémula, desgrenhada, estorcendo os braços, para sempre agrilhoada ao rochedo da noite, sombria Andrómeda branca e nua no meio das trevas!

III — Calão que chora e calão que ri

Como se vê, todo o calão, tanto o de há quatrocentos anos como o de hoje, é penetrado pelo sombrio espírito simbólico quê dá a todas as palavras ora um aspecto queixoso, ora um ar ameaçador. Sente-se nele a velha tristeza feroz daqueles vadios do Pá o dos Milagres, que jogavam com baralhos de cartas que lhes eram priva vos, e dos quais nos foram conservados alguns. O oito de paus, por exemplo, representava uma grande árvore com oito enormes folhas de trevo, espécie de personificação fantás ca da floresta. Ao pé desta árvore via-se uma fogueira em que três lebres assavam um caçador no espeto, e pela parte de trás, noutro lume, uma caldeira fumegante da qual saía a cabeça do cão. Nada mais lúgubre do que estas represálias, em pintura, num baralho de cartas, na presença das fogueiras de snar os contrabandistas e da caldeira de cozer os moedeiros falsos. As diversas formas que o pensamento assumia no reino do calão, mesmo a can ga, o motejo e a ameaça, apresentavam todas este carácter impotente e acabrunhado. Todas as can gas das quais foram conservadas algumas melodias, eram tão humildes e lamentosas que provocavam as lágrimas. O pègre chama-se pobre pègre, e é sempre a lebre que se oculta, o rato que foge, o pássaro que voa. Reclama apenas; limita-se a suspirar; um dos seus gemidos chegou até nós: Je n'entrave que le dail comment meck, le daron des orgues, peut a ger ses mômes et ses

momignards et les locher criblant sans être a gé lui-même. 43 O miserável, todas as vezes que tem tempo de pensar, faz-se pequeno perante a lei e mesquinho perante a sociedade; deita-se de bruços, suplica, volta-se para o lado da piedade; vê-se que conhece o seu erro.

Pelos meados do século passado operou-se uma mudança. As can gas de prisões, os estribilhos de ladrões, assumiram, para assim dizer, um gesto insolente e jovial. O

queixoso maluré, foi subs tuído por larifla. Acha-se, no século XVIII, em quase todas as canções das galés e das enxovias uma alegria diabólica e enigmá ca. Ouve-se ali o estribilho estridente e sal tante, que se diria iluminado por um clarão fosfórico; e que parece lançado na floresta por um fogo fátuo tocando pífaro:

Mirlababi, surlababo,

Mirliton ribon ribette,

Surlababi, mirlababo,

Mirliton ribon ribo.

Isto cantava-se degolando um homem num subterrâneo ou no meio de um bosque.

Sintoma sério. No século XVIII dissipa-se a an ga melancolia destas classes tristes.

Riem-se. Escarnecem o grande meg e o grande dab. A Luís XV, rei de França, chamavam marquês de Pan n. Ei-los quase alegres. Destes miseráveis destaca-se uma espécie de luz ligeira como se a consciência já lhes não pesasse. Estas lamentáveis tribos da sombra, não têm já somente a audácia desesperada das acções, têm a audácia desleixada do espírito. Indício este de que perdem o sen mento da sua criminalidade e que pressentem até no seio dos pensadores e dos sonhadores, não sei que apoios que se desconhecem a si mesmos. Indício de que o roubo e a pilhagem começam a infiltrar-se até às doutrinas e sofismas, de modo que perdem um tanto da sua fealdade e tornam feiíssimos doutrinas e sofismas. Indício, enfim, se não surge uma diversão, de algum parto prodigioso e próximo.

Detenhamo-nos por um momento. Quem acusamos nós aqui? É o século XVIII? É a sua filosofia? Não, decerto. A obra do século XVIII é sã e boa. Os enciclopedistas, tendo à sua frente Diderot; os fisiocratas, Turgot; os filósofos, Voltaire; os utopistas, Rousseau, são quatro legiões sagradas. O imenso passo da humanidade para a luz, é-lhes devido São estas as quatro vanguardas do género humano marchando para os quatro pontos cardeais do progresso. Diderot para o belo, Turgot para o ú l, Voltaire para o verdadeiro, Rousseau para o justo. Mas ao lado e abaixo dos filósofos havia os sofistas, vegetação venenosa misturada com o crescimento salubre, cicuta na floresta virgem.

Enquanto o carrasco queimava na escada principal do palácio da jus ça os grandes livros libertadores do século, alguns escritores, esquecidos hoje, publicavam, com privilégio do rei, não sei que escritos estranhamente desorganizadores, avidamente lidos pelos miseráveis. Algumas destas publicações, extravagante pormenor, patrocinadas por um príncipe, acham-se na «Biblioteca secreta» Estes factos, profundos mais ignorados, não eram percebidos na super cie. Por vezes é a própria obscuridade de um facto que cons tui o seu perigo É obscuro porque é subterrâneo De todos os escritores, quem talvez aprofundou nas turbas a galeria mais insalubre foi Restif de la Bretonhe.

Este trabalho natural de toda a Europa, fez maior devastação na Alemanha do que em qualquer outra parte. Na Alemanha, durante um certo período, resumido por Schiller, no seu famoso drama Os bandidos, o roubo e a pilhagem erigiam-se em protesto contra a propriedade e o trabalho, imitavam certas ideias elementares, capciosas e falsas, justas na aparência, absurdas na realidade; envolvidas nestas ideias, desapareciam de certo modo nelas, tomavam um nome abstracto e passavam ao estado de teoria; e deste modo circulavam nas mul dões laboriosas, sofredoras e honestas, às escondidas mesmo das massas que aceitavam. Um facto destes é sempre grave. O sofrimento gera a cólera; e enquanto as classes prósperas se cegam ou adormecem, o que é sempre fechar os olhos, o ódio das classes infelizes acende o seu facho nalgum espírito enfadado ou mal cons tuído, que sonha a um canto e começa a examinar a sociedade. É terrível coisa o exame passado pelo ódio!