Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 222 de 359

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Os Miseráveis

VI — Enjolras e os seus ajudantes

Proclamavam como furiosos o direito; queriam, ainda mesmo por meio do terror e do susto, forçar o género humano a entrar no paraíso. Pareciam bárbaros e eram salvadores. Reclamavam luz com a máscara da noite.

Em face destes homens, ferozes, convimos, e medonhos pelo bem, há ali outros homens, risonhos, cobertos de bordados, de oiro, de fitas, de meias de seda, de plumas brancas, de luvas amarelas e de sapatos de polimento, que encostados a uma mesa coberta de veludo e junto de um fogão de mármore, insistem vagarosamente pela manutenção e conservação do passado, da Idade Média, do direito divino, da pena de morte, da guerra, glorificando a meia voz e mui civilmente o sabre, a fogueira e ocadafalso. Quanto a nós, se fôssemos obrigados à opção, entre os bárbaros da civilização e os civilizados da barbárie, pronunciar-nos-íamos pelos bárbaros.

Mas, graças ao céu, é possível optar ainda por outra coisa. Não há necessidade de nenhuma queda a prumo, nem para diante nem para trás. Nem despo smo nem terrorismo. Queremos o progresso em declive suave. Deus provê a isto. Suavizar os declives, é ao que se reduz toda a política de Deus.

VI — Enjolras e os seus ajudantes

Enjolras, pouco mais ou menos por esta época, em vista do acontecimento possível, fez uma espécie de recenseamento misterioso.

Estavam todos em conciliábulos no café Musain.

Misturando com as suas palavras algumas metáforas meio enigmá cas, mas significativas, Enjolras disse:

— Convém saber em que altura se está e com quem se pode contar. Se acaso se querem combatentes, é preciso fazê-los. Ter com que ferir. Isto não pode ser prejudicial.

Os que passam têm mais probabilidades de levar marradas quando encontram bois no caminho, do que quando ali os não há. Assim, tratemos de conter o rebanho. Quantos somos nós? Nada de deixar esse trabalho para amanhã. Os revolucionários devem ser sempre apressados; o progresso não tem tempo a perder. Desconfiemos do inesperado.

Não nos deixemos surpreender desprevenidos. Trata-se de assentar todas as costuras que temos feito e de ver Se estão seguras. Isto é assunto que deve ser decidido hoje.

Courfeyrac, tu irás ter com os politécnicos, que é o seu dia de saída. Hoje é quarta-feira.

Fenilly vai falar com os da Glacière, não é verdade? Combeferre prometeu-me que iria a Picpus: há lá um completo e excelente formigueiro. Bahorel visitará a Estrapade.

Provaire, os maçãos esfriam: dar-nos-ás no cias da loja da rua de Santo Honorato de Grenelle. Joly irá à clínica de Dupuytren e tomará o pulso à escola de medicina. Bossuet dará um passeio pelo Palácio da Jus ça e. conversará com os pra cantes. Eu encarrego-me de Cougourde.

— Está tudo determinado? — inquiriu Courfeyrac.

— Ainda não.

— O que falta?

— Uma coisa importantíssima.

— O que é? — perguntou Combefarre.

— A barreira do Maine — respondeu Enjolras.

Enjolras conservou-se um momento como absorvido pelas suas reflexões e depois continuou:

— Na barreira do Maine há canteiros e pintores pra cantes das oficinas de escultura.

É uma família entusiasta, mas sujeita a resfriamentos. Não sei o que têm há certo tempo.

Creio que pensam noutra coisa. Vão esmorecendo de todo. Passam o tempo de que podem dispor a jogar o dominó. Era urgente ir dizer-lhe alguma coisa, mas com finura. É

em casa de Richefeu que eles se reúnem. Encontram-se ali entre o meio-dia e a uma hora. Será necessário soprar aquelas cinzas. Tinha contado para isso com aquele abstracto Mário, que apesar de tudo é excelente, mas já não aparece. Precisava de alguém que fosse à barreira do Maine, mas não tenho ninguém

— Aqui estou eu — disse Grantaire.

— Tu?

— Eu, sim!

— Tu, doutrinares republicanos! Tu, aqueceres, em nome dos princípios, corações frios!

— Porque não?

— Pois tu podes servir para alguma coisa?

— Tenho essa vaga ambição — disse Grantaire.

— Tu não crês em nada

— Creio em ti.

— Queres prestar-me um serviço, Grantaire?

— Todos. Até engraxar-te as botas.

— Não te envolvas com os nossos trabalhos. Coze o teu absinto

— És um ingrato, Enjolras.

— Tu serias homem capazde ir à barreira do Maine? Serias capaz disso?

— Sou capaz de descer a rua dos Grès, de atravessar a praça S. Miguel, de obliquar pela rua do Senhor Príncipe, de tomar pela rua de Assas, de chegar àrua de Cherche-Midi, de deixar atrás de mim o conselho de guerra, seguir depois pelas Tulherias Velhas, de percorrer o boulevard, de seguir pela calçada do Maine, de passar a Barreira e de entrar em casa de Richefeu. Sou capaz disto. Os meus sapatos são capazes de tudo.

— Tens algum conhecimento com aqueles companheiros da casa Richeifeu?

— Pouco. Apenas nos tratamos por tu.

— Então que lhes dirás?

— Ora essa? Falar-lhes-ei de Robespierre, de Danton! Falar-lhes-ei dos princípios.

— Tu!

— Eu, sim! Mas vocês não me fazem jus ça. Quando me meto nisso sou terrível!

Tenho lido Prudhomme, conheço o Contrato Social e sei de cor a cons tuição do ano segundo. «A liberdade do cidadão termina onde a liberdade de outro cidadão começa».

Julgas que sou algum bruto? Olha que tenho um velho assinado na minha gaveta. Os direitos do homem, a soberania do povo, com mil demónios! Sou até um tanto hebertista. Durante seis horas de relógio na mão, posso repisar coisas soberbas.

— Sê sério disse Enjolras.

— Sou feroz — respondeu Grantaire.

Enjolras, após alguns segundos, fez o gesto de um homem que adopta uma resolução.

— Grantaire — disse ele gravemente — consinto em experimentar-te. Irás à barreira

do Maine.

Grantaire morava numa estalagem próxima do café Musain. Saiu e voltou cinco minutos depois; tinha ido a casa vestir um colete à Robespierre.

— Vermelho — anunciou ele, entrando e fitando Enjolras.

Depois, com um gesto enérgico, apoiou sobre o coração as duas bandas escarlates do colete. E, aproximando-se de Enjolras, disse-lhe ao ouvido:

— Fica descansado.

Pôs em seguida o chapéu resolutamente na cabeça e saiu.

Um quarto de hora depois estava deserta a sala interior do café Musain. Todos os Amigos do A B C nham saído, indo cada um cumprir a sua missão. Enjolras, que reservara para si a Cougourde, foi o último que saiu.

Os da Cougourde de Aix, que estavam em Paris, reuniam-se então na planície de Issy, numa das pedreiras abandonadas, tão numerosas naquele ponto de Paris.

Enjolras durante o caminho que seguia para aquele ponto de reunião, ia consigo mesmo passando em revista a situação. A gravidade dos acontecimentos era visível.

Quando os factos, pródromos de uma espécie de doença social latente, movem surdamente, basta a menor complicação para os fazer deter e parar. Fenómeno, de onde saem os desabamentos e as renascenças. Enjolras entrevia um bulício luminoso sob os véus tenebrosos do futuro. Quem sabe? O momento aproxima-se talvez. O povo reconquistando o direito. Que belo espectáculo! A revolução retomando majestosamente a França e dizendo ao mundo: «Amanhã se continuará!» Enjolras estava contente. A fornalha aquecia. Naquele mesmo instante havia um ras lho de amigos espalhado por Paris. Compunha no pensamento com a eloquência filosófica e penetrante de Combeferre, o entusiasmo cosmopolita de Feully, a loquacidade de Courfeyrac, o riso de Bahorel, a melancolia de Jean Prourvaire, a ciência de Joly e os sarcasmos de Bossuet, uma espécie de cin lação eléctrica, produzindo fogo ao mesmo tempo em toda a parte. Tudo ia bem. Isto fê-lo pensar em Grantaire. «É verdade», disse ele para consigo, «a barreira do Maine fica próxima do meu caminho. Se eu desse um pulo à casa de Richefeu? Vejamos sempre o que faz Graintaire e em que alturas está».

Dava uma hora no relógio de Vaugirard quando Enjolras chegava à loja de bebidas de Richefeu. Empurrou a porta, entrou, cruzou os braços, deixando fechar por si a porta, que lhe bateu nas costas, e percorreu com avista a sala, cheia de mesas, de homens e de fumo.

No meio de todo aquelenevoeiro ressoava uma voz vivamente cortada por outra. Era Grantaire dialogando com um adversário. Grantaire estava sentado em frente de outro indivíduo, a uma mesa de mármore Sant’Ana, coberta de dominós, e dava socos na mesa; eis o que Enjolras ouviu:

— Senas.

— Quatro.

— Porco! Já não tenho.

— Estás morto. Dois.

— Seis.

— Três.

— Ás.

— Agora jogo eu.

— Quatro pontos.

— Custosamente.

— Agora, tu.

— Cometi um grande erro.

— Vais bem.

— Quinze.

— Sete de mais.

— Isso faz-me vinte e dois. (Com ar pensativo): Vinte e dois!

— Não esperavas as senas. Se as houvesse posto no princípio nha mudado todo o jogo.

— Duques.

— Às.

— O ás! Bem; e cinco.

— Não tenho.

— Parece-me que foste tu que puseste?