Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 155 de 359

Páginas do PDF

Os Miseráveis

XIII — Gavroche

XII — O futuro latente no povo

Quanto ao povo parisiense, é sempre gaiato, ainda quando homem feito; fazer o retrato da criança é fazer o da cidade, e eis aí a razão porque nós estudamos esta água nesse pardalzinho. É sobretudo nos arrabaldes, repe mos, que aparece a raça parisiense, a raça puro-sangue, a verdadeira fisionomia o povo que trabalha e sofre, pois são as duas figuras do homem, o sofrimento e o trabalho. Existe neles um sem número de entes desconhecidos, entre os quais abundam os mais estranhos pos, desde o carrejão da Rapée até ao esfolador de Mon aucon. «Fex urbis!» exclama Cícero.

«Mofe!» acrescenta Burke indignado; turba, mul dão, gentalha. Estas palavras depressa se dizem. Mas seja. Que importa? Que se me dá a mim de que eles andem descalços?

Não sabem ler; mau é. Por isso haveis de abandoná-los? Convertereis a sua miséria em maldição? Não pode a luz penetrar essas massas? Repitamos este grito de luz! e insistamos nele. Luz!

Luz! Quem sabe se essas opacidades se não tornarão transparentes? Pois não são transfigurações as revoluções? Ide, filósofos, ensinai, esclarecei, iluminai, deixai voejar livre o pensamento, falai de modo que todos vos ouçam, correi alegres para onde o sol mais atesta, fraternizai com as praças públicas, anunciai as boas-novas, derramai com profusão os alfabetos, proclamai os direitos, cantai as Marselhesas, semeai os entusiasmos, arrancai ramos verdes dos carvalhos. Fazei da ideia um turbilhão. Essa mul dão pode vir a ser sublimada. Saibamos servir-nos desse vasto incêndio dos princípios e das virtudes, que crepita, estala e tremula, em certas horas. Esses pés descalços, esses braços nus, esses andrajos, essas ignorâncias, essas abjecções, essas trevas, podem ser empregadas na conquista do ideal.

Olhai por entre o povo e avistareis a verdade. Essa areia vil que aos pés calcais, lançai-a no cadinho, deixai-a fundir-se e ferver e tornar-se-á cristal esplêndido, com o qual Galileu e Newton descobriram os astros.

XIII — Gavroche

Oito ou nove anos, pouco mais ou menos, depois dos acontecimentos que narramos na segunda parte desta história, notava-se no boulevard do Templo e nas vizinhanças do Chateau-d’Eau um rapazinho de onze a doze anos, que seria a perfeita realização do ideal do gaiato atrás esboçado, se com o riso da sua idade nos lábios não possuísse um coração completamente escuro e vazio. Ves a, efec vamente, o rapazinho de que falamos, umas calças de homem, mas que não nham sido do uso de seu pai, e uma camisola de mulher, mas que não pertencera a sua mãe. Alguma alma caridosa lhe dera esses andrajos para com eles se cobrir. Todavia, o rapazinho nha ainda pai e mãe. Mas o pai não queria saber dele e a mãe não lhe nha amizade. Era uma dessas crianças dignas de lástima entre todas as que têm pai e mãe e são órfãs.

Em parte nenhuma o rapazinho se sen a tão bem como na rua. Eram-lhe menos duras as pedras da calçada do que o coração de sua mãe.

Os pais arremessaram-no à vida com um pontapé.

E ele não fez mais do que desferir o seu voo.

Era uma criança ruidosa, pálida, lesta, viva, cheia de malícia, de aspecto doen o e modos expeditos. Girava, cantava, jogava a bilharda, esgaravatava nos monturos, roubava o seu bocado, porém, alegremente como os gatos e os passarinhos, ria-se quando lhe chamavam galopim, agastava-se quando lhe davam o nome de tunante. Não nha um asilo onde se abrigasse, um bocado de pão que comesse, uma fogueira a que se aquecesse, uma só pessoa que lhe tivesse afeição, mas era livre e por isso vivia alegre.

Quando estas pobres criaturas chegam à virilidade, quase sempre a mó da ordem social as encontra e as esmaga, mas enquanto são crianças, a sua pequenez as faz escapar. Qualquer pequeno buraco as salva.

Não obstante, por maior que fosse o abandono desta criança, sucedia às vezes, de três em três meses ou de dois em dois, ele dizer: «Valeu! Vou visitar minha mãezinha!»

Deixava então o boulevard, o Circo, a porta de S. Mar nho, encaminhava-se para os cais, atravessava as pontes, tomava o caminho dos arrabaldes, chegava à Salpêtrière e aonde parava? Exactamente à porta da casa com os números 50 e 52, no casebre de Gorbeau.

Naquela época, este casebre, de ordinário deserto e perpetuamente decorado com o letreiro: «Quartos para alugar», achava-se, coisa rara, habitado por muitos indivíduos, que todavia, como em Paris sempre sucede, não nham relações nenhumas uns com os outros, nem se achavam ligados por laços de qualidade nenhuma. Pertenciam todos à classe indigente, que principia no pobre envergonhado e se prolonga de miséria em miséria pelas classes ínfimas da sociedade até aos dois entes em quem terminam todas as coisas materiais da civilização o varredor do lixo e o trapeiro.

A «principal locatária» do tempo de Jean Valjean nha morrido, deixando por sucessora outra, em tudo semelhante a ela. Não sei qual foi o filósofo que disse que não há falta de mulheres velhas. A nova velha, pois, chamava-se Burgon, e na sua vida não

havia nada de notável, a não ser uma dinas a de três papagaios, que sucessivamente tinham reinado na alma dela.

Os mais miseráveis entre os que habitavam o casebre eram uma família de quatro pessoas, composta de pai, mãe e duas filhas, já bastante crescidas, os quais moravam juntos na mesma mansarda, que era uma das celas de que já falámos. Ao primeiro relance, esta família nada oferecia de singular mais do que a sua extrema miséria; quando o pai alugara o quarto, dissera chamar-se Jondre e. Logo depois da sua mudança para o casebre, a qual, para nos servirmos da memorável expressão da

«principal locatária», se parecera mui ssimo com «a entrada de coisa nenhuma», Jondre e dissera à velha, que como a sua antecessora varria a escada e acumulava as funções de porteira: «Tia fulana, se por aí vier alguém procurar algum polaco ou italiano, ou mesmo espanhol, sou eu».

Era esta a família do jovial gaiato que chegava, encontrava a miséria, e, o que ainda é mais triste, nem sequer um sorriso: o frio no lar e o frio nos corações. Quando ele chegava, perguntavam-lhe: «De onde vens?» E ele respondia: «Da rua». Quando ele par a, perguntavam-lhe: «Para onde vais?» E ele respondia: «Para a rua». Dizia-lhe a mãe: «Que vens tu cá fazer?»

Assim vivia esta criança nesta ausência de afeições, como as ervas enfezadas que nascem pelas covas. Isto, porém, não era para ele mo vo de sofrimento, nem tão-pouco por isso queria mal a ninguém. Verdadeiramente, nem ele sabia como era um pai e uma mãe.

A mãe, porém, amava as irmãs.

Esquecemo-nos de dizer que no boulevard do Templo lhe chamavam o Gavroche.

Porque razão lhe chamavam Gavroche? Provavelmente, porque o pai dele se chamava Jondrette.

Parece ser o ins nto de certas famílias que vivem na miséria quebrar os laços que as prendem.

O quarto em que a família de Jondre e morava no casebre era o úl mo ao fim do corredor. A cela imediatamente pegada era ocupada por um mancebo pobríssimo, a quem tratavam por senhor Mário.

Digamos quem era este senhor Mário.