Os Miseráveis
III — Babet, Gueulemer, Claquesous e Montparnasse
complexo do trabalho que aí se opera chama-se Progresso.
Chegou porém o momento de se entrever outras profundidades, as profundidades hediondas.
Por baixo da saciedade, insistamos neste ponto, exis rá sempre a grande caverna do mal, enquanto não chegar o dia da dissipação da ignorância.
Esta cova fica por baixo de todas e é a inimiga de todas. É o ódio sem excepção. Esta não conhece filósofos; o seu punhal nunca aparou penas. A sua negrura não tem nenhuma relação com a sublime negrura da escrita. Nunca os negros dedos que se crispam debaixo desse tecto asfixiante folhearam um livro ou abriram um jornal. Para Cartucho, Babeuf é um especulador para Schinderhannes, Marat é um aristocrata. O alvo desta cova é abismar tudo,
Tudo. Inclusive as covas superiores que esta aborrece de morte. No seu medonho formigar, não mina somente a ordem social: mina a filosofia, mina a ciência, mina o direito, mina o pensamento humano, mina a civilização, a revolução, o progresso. Tem simplesmente o nome de roubo, pros tuição, homicídio e assassínio. É trevas, quer o caos. A sua abóbada é formada da ignorância.
Todas as outras, as de cima, têm por único alvo suprimi-la, alvo para o qual tendem a filosofia e o progresso, por todos os seus órgãos, juntamente, tanto pelo melhoramento do real, como pela contemplação do absoluto. Destruí a cova Ignorância, e tereis destruído a toupeira do Crime.
Condensemos em poucas palavras uma parte do que acabamos de escrever. O único perigo social é a Treva.
Humanidade, quer dizer iden dade. Os homens são todos do mesmo barro. Na predes nação não há diferença nenhuma, ao menos neste mundo. A mesma sombra antes, a mesma carne agora, a mesma cinza depois. Mas a ignorância misturada com a massa humana enegrece-a. Essa negrura comunica-se ao interior do homem e converte-se no Mal.
III — Babet, Gueulemer, Claquesous e Montparnasse
Quatro bandidos, Claquesous, Gueulemer, Babet e Montparnasse, governavam o entressolo de Paris, pelos anos de 1830 a 1835. Gueulemer era um Hércules em disponibilidade. O seu antro era o esgoto do Arche-Mariom. Tinha seis pés de altura, peito de mármore, músculos de bronze, uma respiração de caverna, cintura e ombros de colosso, crânio de pássaro. Dir-se-ia o Hércules Farnésio ves do com calças de co m e jaqueta de veludinho. Construído desse modo escultural, Gueulemer seria capaz de domar monstros; achara, porém, mais simples ser ele mesmo um. Testa curta, fontes amplas, quarenta anos incompletos, e pés de pato, cabelo áspero e curto, faces salientes, barba como pêlos de porco-espinho; eis o esboço deste homem. Os seus músculos solicitavam o trabalho, a sua estupidez rejeitava-o. Era uma grande força preguiçosa, um assassino por indolência. Dizia-se que este Gueulemer era crioulo. Como em 1815 fora carrejão em Avinhão, talvez vesse convivido com o marechal Brune.
Acabado este tempo de prática, passara a ser bandido.
A transparência de Babet contrastava com a corpulência de Gueulemer. Babet era magro e instruído e, apesar de transparente, impenetrável. Via-se-lhe a luz através dos
ossos, mas através das pupilas, nada. Declarava-se químico. Havia sido licorista no estabelecimento de Bobeche, palhaço com Bobino, e além disto actor de farsas em Saint-Mihiel. Era um homem de propósito, bem falante, que sublinhava os seus sorrisos e punha comas nos seus gestos. Consis a o seu modo de «vida em andar a vender pelas ruas bustos de gesso e retratos do chefe do Estado. Além disto também rava dentes.
Em tempos andara mostrando fenómenos pelas feiras, nas quais levantava barraca, chamando os espectadores com trombetas e este cartaz: «Babet, ar sta den sta, membro das academias, faz experiências sicas sobre metais e metalóides, ex rpa dentes, ra as arnelas abandonadas pelos seus colegas. Preços: um dente, um franco e cinquenta cên mos: dois, dois francos; três, dois francos e cinquenta cên mos.
Aproveitar da ocasião». Este «aproveitar da ocasião» queria dizer: quanto maior número de dentes rardes, melhor. Babet nha casado e do filhas, porém não sabia o que era feito nem da mulher nem dos filhos. Perdera-os como quem perde o lenço. Por uma excepção, raríssima no obscuro mundo a que ele pertencia, Babet lia jornais. Uma ocasião, no tempo em que ele ainda trazia consigo a família na sua barraca ambulante, lera no Mensageiro que uma mulher nha dado à luz uma vivedoura criança com focinho de touro, e exclamara: «Isto é que é ser feliz! Não é minha mulher capaz de me arranjar assim um pequeno!»
Depois abandonara tudo para «tentar Paris», para nos servirmos da sua expressão.
Quem vinha a ser Claquesous? Era a escuridão. Para se mostrar esperava que o céu se enfarruscasse de negro. À noite saía de um buraco, em que tornava a entrar antes de ser dia. Onde ficava essa cova? Ninguém o sabia No meio da mais completa escuridão, aos seus cúmplices só falava de costas voltadas. Chamava-se Claquesous? Não. O meu nome, dizia ele, é Nada. Se aparecia alguma vela, punha logo uma máscara. Era ventríloquo.
Claquesous é um nocturno a duas vozes, dizia Babet Claquesous eravago, errante, terrível.
Não se sabia se ele nha nome, visto que Claquesous era uma alcunha; não se sabia se nha voz, visto que falava mais com o ventre do que com a boca; nem se nha rosto, visto que nunca ninguém lhe Vira mais do que a máscara. Este homem desaparecia como uma visão e aparecia como quem irrompe das entranhas da terra.
Criatura lúgubre, Montparnasse. Montparnasse era uma criança de vinte anos incompletos, bonito rosto, lábios rubros, lindos cabelos pretos, olhos resplandecentes do brilho da Primavera; Montparnasse nha todos os vícios e aspirava a todos os crimes.
Era o gaiato conver do em voyou e o voyou conver do em escarpa. Era gen l, efeminado, gracioso, robusto, lânguido feroz. Trazia a aba do chapéu revirada para dar lugar ao tufo dos cabelos, como era moda em 1829. Montparnasse vivia de roubar com violência. O casacão que trazia era bem feito, mas já usado Montparnasse era uma gravura de modas, cheia de miséria e cometendo homicídios. A causa de todos os atentados deste adolescente era o desejo de andar bem trajado. A primeira costureira que lhe disse:
— És belo! — impusera-lhe uma missão de trevas ao coração e fizera deste Abel um Caim.
Achou-se bonito, quis ser elegante; ora a principal elegância é a ociosidade e a ociosidade do pobre é o crime. Poucos vadios havia mais temidos do que Montparnasse.