Os Miseráveis
II — Derradeiro bruxulear da lâmpada
Entre ela e Mário estabelecera-se uma espécie de magne smo irresis vel, que a forçava a fazer ins n va e quase maquinalmente quanto ele queria. Conhecia que era vontade de Mário que ela assim procedesse para com «o senhor Jean», e, portanto, resignava-se. Seu marido entendera que não lhe devia dizer coisa nenhuma; ela sofria a influência vaga, mas evidente, de suas tácitas intenções e obedecia-lhe cegamente. A sua obediência, neste ponto, consis a em não se lembrar que Mário esquecia. Para chegar, porém, a este resultado, não empregava o mínimo esforço. Sem ela mesma poder dizer porquê nem haver neste facto mo vo para acusá-la, a alma da jovem consubstanciava-se a tal ponto com a de seu marido, que aquilo que se entenebrecia no pensamento de Mário obscurecia-se no dela.
Cumpre, porém, não avançar temeridades; na parte que diz respeito a Jean Valjean, este esquecimento e escuridão eram meramente superficiais. O que ela experimentava era mais embriaguez do que olvido. No fundo, consagrava entranhado afecto aquele a quem por tanto tempo dera o nome de pai. Porém ainda maior era o afecto que consagrava a seu marido. Por isso era que a balança do seu coração faltava ao peso.
Como assim não havia de ser, se quase toda estava pendida para um lado?
Às vezes, Cose e trazia à conversa Jean Valjean e mostrava-se admirada de o não ver aparecer. Quando tal caso se dava, acudia logo Mário, tranquilizando-a:
— Creio que está fora da terra. Não estás certa de ele dizer que nha de fazer uma digressão?
— É verdade — dizia Cosette a sós consigo.
E acrescentava ainda mentalmente:
— Efec vamente, ele costumava fazer destas desaparições, mas nunca as prolongava por tanto tempo.
Por duas ou três vezes mandou Nicole e à rua do Homem Armado perguntar se o senhor Jean já nha recolhido da sua digressão. De ambas mandou Jean Valjean, por intermédio do porteiro, responder que não.
Depois disto, Cosette não tornara a mandar saber notícias dele.
A sua única necessidade na terra era Mário.
Devemos ainda acrescentar, rela vamente aos dois esposos, que Mário e Cose e também es veram algum tempo ausentes de Paris. Tinham ido a Vernon, onde Mário quisera que Cosette o acompanhasse para lhe mostrar o túmulo de seu pai.
Assim fora Mário subtraindo a jovem, pouco a pouco, a Jean Valjean, sem que ela pensasse em fazer a menor resistência.
Para bem dizer, aquilo a que, com demasiada severidade em certos casos, se dá o nome de ingra dão dos filhos, nem sempre é uma coisa tão digna de censura como o fazem. Chamam-lhe ingra dão da natureza. A natureza, como já dissemos, «olha para diante». Divide as criaturas animadas em entes que chegam e entes que partem. Os que partem têm a frente voltada para a sombra, os que chegam têm-na voltada para a luz.
Daqui um afastamento, que, pelo que pertence aos velhos, é fatal, e, pelo que diz respeito aos jovens, é involuntário. Esse afastamento, a princípio insensível, vai gradualmente aumentando, como uma bifurcação qualquer de dois ramos. Como ninguém ignora, estes desviam-se do tronco, sem, contudo, dele se desprenderem. Nisso não têm eles culpa. A mocidade caminha para a mansão da alegria, dos esplendores, das festas, dos amores. A velhice caminha para o seu fim. Não chegam a perder-se de vista, mas deixam de se conservar unidos. Os jovens sentem o resfriamento da vida, os velhos o do túmulo.
Porque razão havemos nós de acusar a mocidade?
II — Derradeiro bruxulear da lâmpada
Um dia, Jean Valjean desceu a escada, transpôs o limiar da porta, sentou-se na soleira, naquela mesma pedra onde Gavroche, na noite de 5 para 6 de Junho, o viera encontrar absorto em profunda cogitação, e, decorridos apenas alguns minutos, tornou a subir.
Foi a derradeira oscilação da pêndula.
No dia seguinte, não saiu de casa. No outro, não saiu da cama.
À hora costumada, entrou-lhe no quarto a porteira que era também cozinheira.
Cozinheira de um frugal repasto, que quase sempre consis a numas couves ou em algumas batatas, guisadas com toucinho. Ao ver o prato de barro escuro em que, no dia
antecedente, lhe trouxera uma das habituais iguarias, a boa mulher exclamou com gesto de admirada e, ao mesmo tempo, compadecida:
— Olhem que senhor este, que não comeu nada ontem!
— Qual não comi! — respondeu Jean Valjean.
— Como é que comeu, se o prato ainda está conforme eu o trouxe?
— Ora vá ao cântaro da água. Não tem nem gota!
— Isso o mais que prova é que bebeu, mas não que comesse!
— Então que quer? — respondeu Jean Valjean. — Se eu não tenho fome senão de água!
— Isso chama-se sede, e, quando, ao mesmo tempo, se não come, chama-se a isso febre.
— Pois amanhã comerei!
— Ou para o ano que vem! Ora sempre tem cada coisa!... Porque não há-de ser hoje?
Isso tem lá jeito algum dizer que amanhã comerá? Nem sequer provar estas bata nhas que lhe arranjei e que estavam tão boas!
— Prometo-lhe comê-las, que mais quer? — disse Jean Valjean com voz afectuosa, travando da mão da pobre velha.
— Não estou nada satisfeita consigo! — respondeu a porteira.
Esta boa mulher era a única criatura humana com quem Jean Valjean falava.
Em Paris há ruas por onde ninguém passa e casas aonde ninguém vai. Jean Valjean morava numa dessas ruas e em uma dessas casas. No tempo em que ele ainda saía, comprara a um caldeireiro, por diminuta quan a, um crucifixo pequeno de cobre, que pendurara num prego, fronteiro à cama. É um patíbulo que não deixa de ser conveniente ter-se sempre ao alcance da vista.
Assim decorreu uma semana, sem que Jean Valjean desse um só passo no quarto.
Deixava-se ficar sempre na cama.
Um dia, a porteira disse para o marido:
— O velhito lá de cima já se não levanta nem come... Não sei, mas aquilo não vai longe!... É paixão que se lhe meteu, pobre homem! A mim ninguém me ra da cabeça que a filha fez mau arranjo com o tal casamento!
A isto replicou o porteiro com o tom da soberania marital:
— Se é rico, que mande chamar um médico. Se o não é, que passe sem ele! Mas, se não mandar chamar algum, não escapa!
— E se o mandar chamar?