Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 225 de 359

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Os Miseráveis

III — Aparição ao tio Mabeuf

Eponina dirigiu-se, portanto, à rua de Plumet, reconheceu a grade e o jardim, observou a casa, espionou, espreitou e, passados poucos dias, levou a Magnon, que morava na rua de Cloche-Perce, um biscoito, que Magnon transmi u à amásia de Babet, encarcerada na Salpêtrière.

No tenebroso simbolismo das prisões, um biscoito quer dizer: «nada feito».

De modo que, poucos dias depois, encontrando-se Babet com Brujon no caminho de ronda da Force, a caminho do tribunal, para onde um deles ia «a perguntas» e o outro voltava, Brujon perguntou:

— Então a rua P.?

— Biscoito! — respondeu Babet.

Assim abortou este feito de crime gerado por Brujon na Force.

Como se verá, porém, este aborto teve consequências de todo o ponto estranhas ao programa de Brujon.

Não raro acontece que quem cuida atar um fio ata outro.

III — Aparição ao tio Mabeuf

Mário não frequentava casa nenhuma, encontrando-se apenas às vezes com o o Mabeuf.

Ao mesmo tempo que Mário lentamente ia descendo os lúgubres degraus, a que podemos dar o nome de escada das caves, escada que conduz a mansões sem luz, onde por cima se ouvem os passos dos felizes, descia também Mabeuf pela mesma escada.

D a Flora de Cauferefz nem um único exemplar se vendia já. Do mesmo modo, as experiências sobre o anil no jardinzinho de Austerlitz nham falhado pelas más condições do terreno em que eram feitas. O senhor Mabeuf apenas podia cul var nele algumas plantas raras que querem sombra e humidade. Contudo, longe de desanimar com o mau resultado das suas experiências, obteve um bocado de terra, bem situada, no Jardim das Plantas, para nela fazer «à sua custa» os seus ensaios sobre o anil.

Para levar a cabo este projecto, empenhou as chapas da sua Flora no Monte de Piedade e reduzira o seu almoço a dois ovos, deixando um para a velha que o servia, a quem devia já quinze meses de soldadas E não poucas vezes o almoço era a sua única comida. Fora-se-lhe aquele riso infan l que dantes nha, fizera-se trôpego e já não recebia visitas Bem fazia Mário em não se lembrar de o ir visitar. Às vezes, quando Mabeuf se dirigia para o Jardim das Plantas, encontrava-se com o rapaz no boulevard do Hospital, porém não se falavam. Apenas acenavam tristemente um ao outro com a cabeça. Dolorosa verdade. Que sobrevenha um dia em que a miséria até os laços das contraídas afeições dissolva. Ontem dois amigos, hoje dois indiferentes!

Depois do livreiro Royol, que nha morrido, o senhor Mabeuf só conhecia os seus livros, o seu jardim e o seu anil, três formas dis ntas que para ele haviam tomado a felicidade, o prazer e a esperança. Era-lhe o bastante à vida, vida que com pouco se sa sfazia, como se vê. «Logo que o anil dê o resultado que espero», dizia ele às vezes nos seus solilóquios, «fico rico, e então hei-de desempenhar as chapas que tenho no Monte de Piedade, fazer-me charlatão, publicando anúncios nos jornais e pregando cartazes pelas esquinas, para a minha Flora tornar a ter voga e comprar, eu bem sei onde, um exemplar da Arte de Navegar, com estampas, de Pedro de Melina, da edição de 1559».

Enquanto, porém, não chegava a realizaçãodos seus sonhos dourados, todo o dia labutava no seu canteiro semeado de anil, recolhendo-se a casa só quase à noite para regar o jardim ou ler algum livro predilecto. Nessa época, o senhor Mabeuf não andava muito longe dos oitenta anos.

Uma tarde o bom velho teve uma aparição singular.

Tinha voltado para casa ainda muito de dia. A a Plutarco, cuja saúde começava a

alterar-se, estava doente e encontrava-se deitada O senhor Mabeuf jantara um resto de carne que havia ainda num osso e um pedaço de pão que achara sobre a mesa da cozinha e sentara-se depois num marco de pedra quebrado, que no quintal lhe servia de banco.

Próximo do improvisado banco elevava-se, como nos pomares ajardinados de outro tempo, uma casinhola de madeira, já meia arruinada em partes, que servia de coelheira em baixo e de fruteiro em cima. A primeira estava desabitada daqueles para cuja morada era des nada, porém o segundo con nha ainda algumas maçãs, restos da provisão de Inverno.

O senhor Mabeuf sentara-se, pois, de óculos no nariz, folheando e lendo atentamente dois livros, objecto de sumo interesse, e, o que é mais na sua idade, de graves preocupações para ele. A natural midez do seu carácter o fazia até certo ponto supers cioso. Esses dois livros eram um o célebre tratado do presidente Delancre Sobre a inconstância dos demónios, o outro o pesado alfarrábio de Mutor de la Rubaudière Sobre os diabos de Vaubert e os duendes de Biebre, livro a que ele ainda maior interesse ligava, por isso que o seu jardim fora noutro tempo um dos lugares frequentados por duendes.

Naquela ocasião o crepúsculo principiava a clarear as partes mais elevadas dos edi cios, deixando imersos em sombras os objectos inferiormente situados. De vez em quando, o venerável ancião interrompia a sua leitura e deitava os olhos por cima do livro que sus nha na mão, a contemplar as suas plantas, e entre elas um magnífico rododendro, a que consagrava mais especial predilecção. Quatro dias de calma, de vento e sol se nham sucedido, sem o refrigério de uma gota de chuva para os pobres arbustos. Os caules curvavam-se para o chão sem força, os botões pendiam para o lado sem viço, as folhas vinham a terra, murchas e descoradas, e entre todos os arbustos o mais triste parecia o predilecto rododendro. Mabeuf pertencia ao número daqueles para quem as plantas também têm alma. Por isso, apesar de extenuado de cansaço pelo muito que labutara no seu canteiro do Jardim das Plantas, levantou-se, pousou os livros em cima do banco e dirigiu-se para o poço, alquebrado e cambaleando.

Chegado aí, deitou a mão à corrente de ferro que segurava o balde, tentando puxá-lo para cima. Ao ver, porém, que nem sequer conseguia abalá-lo, voltou-se, fitando um olhar de angústia no céu, que se cobria de estrelas.

A noite «respirava essa serenidade tépida que abafa no coração do homem que sofre as dores sob uma lúgubre e eterna alegria, e augurava-se tão árida como o dia o nha sido.

— Tudo cheio de estrelas! Nem a mais pequena nuvem! Nem uma gota de orvalho! —

pensava o ancião, deixando pender para o peito a cabeça, que um instante vera levantada.

Após alguns momentos de afli va concentração, murmurou, fitando outra vez os olhos no céu:

— Oh, uma gota de orvalho, ao menos, por piedade!.

E tornou a voltar-se para o poço.

No momento, porém, em que baldadamente tentava levantar a corrente do balde, ouviu uma voz por trás dele, dizendo-lhe:

— Quer que eu lhe regue o jardim, tio Mabeuf?

Apenas a voz soltara esta exclamação, ouviu-se entre a sebe um como ramalhar de veado fugi vo, após o qual o assustado ancião viu sair de entre as moitas floridas uma rapariga excessivamente magra e esguia, que se lhe atravessou adiante, fitando-o atrevidamente. Mais parecia um fantasma gerado à baça luz do crepúsculo do que um ser humano.

Mulher ou fantasma, sem esperar que o apavorado velho lhe respondesse uma só palavra, deitou a mão à corrente do poço, mergulhou o balde, puxou-o a si e encheu o borrifador com uma ligeireza de movimentos que a escuridão tornava ainda mais fantás cos. Mabeuf, que ainda com menos extraordinário caso facilmente se amedrontara, contemplava assustado e cheio de pasmo aquela aparição sobrenatural, discorrendo, descalça e mal coberta com uma andrajosa saia, pelos alegretes, a distribuir a vida em torno de si. Apesar do seu susto, porém, extasiava-lhe a alma o sussurro da água caindo por entre as folhas. Afigurava-se-lhe que via estremecer de prazer o rododendro ao contacto daquela suave frescura.

A aparição, esgotado o primeiro balde, voltou ao poço, rou segundo e assim con nuou até regar o jardim todo. Ao ver assim discorrer por entre os arbustos do jardim aquele vulto negro, agitando as pontas do lenço esfarrapado que lhe cobria os magros ombros, dir-se-ia um morcego esvoaçando aos úl mos lampejos da luz crepuscular.

Concluída a tarefa a que a rapariga voluntariamente se oferecera, o venerável ancião com as lágrimas nos olhos acercou-se dela e disse-lhe, passando-lhe a mão pelo rosto:

— Deus lhe pague, menina, que quem assim se compadece das flores não pode ser senão um anjo!

— Não! — respondeu ela. — Eu sou mas é um diabo! Porém, isso, tanto faz

— Valha-me Deus! — atalhou o ancião sem esperar nem prestar atenção à resposta da rapariga. — Não me permi rem as minhas tristes circunstâncias poder recompensar-lhe este serviço com alguma coisa!

— Pode — atalhou ela.

— Com quê?