Os Miseráveis
XII — A guarda
— Vejo lá ao longe uma nuvem que me parece tropa. — Depois perguntou ao duque de Dalmácia: — Soult, que é o que se vê para o lado da capela de S. Lambert?
O marechal apontou o óculo naquela direcção e respondeu:
— Quatro ou cinco mil homens, sire. É decerto Grouchy.
O que era, porém, permanecia imóvel na neblina. Após isto, todos os óculos do estado-maior estudaram a «nuvem» que o imperador apontara e uns disseram: «São colunas que fizeram alto», outros, e foi a maior parte, disseram: «Aquilo são árvores».
A verdade era que a nuvem não se movia. Napoleão destacou portanto a divisão de cavalaria ligeira de Domon para reconhecer aquele ponto escuro.
Efec vamente, Bulow nha feito alto. Como a sua vanguarda era pequena e fraca,
teve de esperar o corpo do exército, porque nha ordem de se concentrar antes de entrar em linha; às cinco horas, porém, vendo Blucher o perigo em que estava Wellington, ordenou a Bulow que atacasse, proferindo esta notável frase: «É preciso dar ar ao exército inglês».
Daí a pouco, formavam-se as divisões de Losthin, de Híller, Hacke e Ryssel, em frente do corpo de Lobau, a cavalaria do príncipe Guilherme da Prussia desembocava do bosque de Paris, Plancenoit ardia em chamas e as balas prussianas principiavam de chover até às fileiras da guarda de reserva colocada por trás de Napoleão.
XII — A guarda
O resto sabe-se; a irrupção de um terceiro exército, a deslocação da batalha, oitenta e seis bocas de fogo troando de repente, a chegada súbita de Pirch 1.º com Bulow, a cavalaria de Zieten comandada por Blucher em pessoa, os franceses rechaçados, Marcognet varrido da azinhaga de Ohain, Duru e desalojado de Papelo e, re rada de Donzelot e Quiot, Lobau apanhado de lado, nova batalha travada com os nossos desmantelados regimentos ao cair da noite, a linha inglesa tomando toda outra vez a ofensiva e impelida para a frente, a rotura gigantesca feita no exército francês, a metralha inglesa e a metralha prussiana auxiliando-se mutuamente, o extermínio, a destruição pela frente e pelo lado, e a guarda a entrar em linha no meio deste destroço formidável.
Ao conhecer que ia morrer, a guarda gritou: «Viva o imperador!» Não se encontra na história coisa mais patética do que esta agonia, rompendo em aclamações.
O céu, que todo o dia es vera encoberto, ficou limpo de súbito, exactamente naquela ocasião (eram oito horas da tarde), afastando-se as nuvens do horizonte para darem passagem à sinistra vermelhidão do sol poente por entre os olmos da estrada de Nivelles. Em Austerlitz viram-no os combatentes nascer.
Naquele desenlace, cada batalhão era comandado por um general. Ali se acharam Friant, Michel, Roguet, Harllet, Mallet, Poret de Morvan. Quando as barre nas dos granadeiros da guarda com a sua larga chapa da águia apareceram no meio da neblina da refrega, simétricos, alinhados, tranquilos, o inimigo sen u-se dominado de respeito pela França, julgando ver entrar no campo da batalha vinte vitórias de asas abertas, e os que eram vencedores recuaram, julgando-se vencidos.
Wellington, porém, gritou-lhes:
— A pé, guardas, e pontaria certa!
O regimento vermelho dos guardas ingleses, deitado por trás das sebes, levantou-se, a bandeira tricolor, que tremulava em volta das nossas águias, foi crivada por uma nuvem de metralha, e os combatentes arrojaram-se uns contra os outros principiando então a suprema carnificina.