Os Miseráveis
X — A planura do Mont-Saint-Jean
Foi medonho aquele momento, quando repen na, inesperadamente, lhes surgiu diante aquele barranco, que se abria a prumo a uma profundidade de duas toesas debaixo dos pés dos cavalos; estes empinavam-se, a ravam-se para trás, levantavam as patas no ar e caíam de costas, pisando e ferindo os cavaleiros, que não nham meio de recuar, porque a primeira fileira impelia a segunda, a segunda a terceira. A coluna tornou-se um projéc l; a força adquirida para esmagar os ingleses esmagou os franceses.
Cavalos e cavaleiros, tudo caiu de roldão naquele barranco inexorável, que para se transpor era necessário que es vesse entulhado, esmagando-se uns aos outros, fazendo uma só carne, naquele sorvedouro. Cheia a cova, o resto passou, caminhando por cima dos que nham caído. Ali ficou quase um terço da brigada de Dubois, e este desastre foi o princípio da perda da batalha.
Diz uma tradição local, evidentemente exagerada, que dois mil cavalos e mil e quinhentos homens ficaram sepultados na azinhaga de Ohain. Esta cifra, porém, a que se faz subir o número dos mortos, compreende, provavelmente, todos os outros cadáveres
que no dia do combate foram lançados àquele barranco.
Napoleão observara o terreno antes de ordenar a carga dos couraceiros de Milhaud, porém, não pôde ver a azinhaga, que não formava sequer uma ruga na super cie do terreno. Avisado, porém, e como que despertado pela capelinha branca que marca a volta da estrada de Nivelles, fez, talvez receoso da eventualidade de qualquer obstáculo, alguma pergunta ao guia Lacoste. O guia respondeu que não.
Quase diríamos, pois, que desse aceno de cabeça de um aldeão é que brotou a catástrofe de Napoleão.
Outras fatalidades, porém, nham de surgir. Era possível que Napoleão ganhasse esta batalha? Respondemos que não. Porquê? Por causa de Wellington? Por causa de Blucher? Não. Por causa de Deus.
A lei do século XIX não concedia a Bonaparte a vitória de Waterloo. Preparava-se outra série de factos, em que Napoleão já não nha lugar. Havia muito que a má vontade dos acontecimentos se tinha declarado.
Era chegado o tempo de tão grande homem cair.
A sua excessiva gravidade nos des nos humanos perturbava o equilíbrio. Este indivíduo, só por si, pesava mais do que o grupo universal. Seriam mortais para a civilização, se durassem, estas pletoras da vitalidade humana concentrada toda numa só cabeça, o mundo junto no cérebro de um só homem. Chegara o momento em que a incorrup vel equidade suprema reconsiderava. Naturalmente nham feito ouvir as suas queixas os princípios e elementos, de que dependem as gravitações regulares, tanto na ordem moral como na ordem material. O sangue ainda fumegante, o atulhamento dos cemitérios, as lágrimas das mães, são arrazoados temíveis. Quando a terra sofre com a demasia do peso que a sobrecarrega, há gemidos misteriosos na sombra, que são ouvidos pelo abismo.
Napoleão fora denunciado no infinito, e a sua queda estava decidida.
Incomodava Deus.
Waterloo não é uma batalha; é a mudança de aspecto do Universo.
X — A planura do Mont-Saint-Jean
Ao mesmo tempo que os couraceiros deram com o barranco, depararam diante de si com a bateria oculta, que os fulminava à queima-roupa com as suas sessenta peças, e à qual o intrépido general Delord fez a saudação militar. Ao fogo da bateria juntava-se o dos quadrados.
A ar lharia volante inglesa entrara toda a galope para dentro dos quadrados, sem que os couraceiros vessem um momento de espera. O desastre da azinhaga dizimara-os, mas não lhes fizera perder o ânimo. Eram desses homens que crescem no coração, diminuindo no número.
Só a coluna Wathier é que nha sofrido acidente; a de Delord chegara inteira por Ney a ter feito ladear à esquerda, como se pressentisse a emboscada.
Os couraceiros arrojaram-se contra os quadrados ingleses, galopando à rédea solta, de sabre traçado nos dentes e pistolas nas mãos. Tal foi o ataque.
Ocasiões há nas batalhas em que a alma endurece o homem, a ponto de o mudar de
soldado em estátua e de massa de carne em massa de granito. Os batalhões ingleses, assaltados desvairadamente, não se moveram.
Deu-se então uma coisa horrorosa.
As faces dos quadrados ingleses foram atacadas todas ao mesmo tempo e envolvidas num como rodopio frené co. Aquela fria infantaria ficou impassível. A primeira fileira recebia-os de joelho em terra nas pontas das baionetas, a segunda espingardeava-os, e por trás desta os ar lheiros carregavam as peças, abria-se a frente do quadrado para deixar passar uma erupção de metralha e tornava a fechar-se. Os couraceiros respondiam esmagando. Os seus grandes cavalos empinavam-se, saltavam as fileiras, pulavam por cima das baionetas e caíam como gigantes no meio daquelas quatro paredes vivas. As balas faziam abertas nos couraceiros, os couraceiros abriam brechas nos quadrados. Desapareciam filas de homens esmigalhadas pelos pés dos cavalos, enterravam-se as baionetas no ventre daqueles centauros. Era uma deformidade de feridas, que talvez nunca se visse em parte nenhuma. Os quadrados dizimados por aquela cavalaria enfurecida estreitavam-se sem demora e con nuavam a fazer explosão no meio dos assaltantes, com inesgotável metralha. Era monstruoso o aspecto daquele combate. Os quadrados não eram batalhões, eram crateras; os couraceiros uma tempestade, não uma cavalaria. Era cada quadrado um vulcão atacado por uma nuvem; a lava a combater com o raio.
O quadrado extremo da direita, formado pelo 75.º regimento de «highlanders», que era o mais exposto, por estar em movimento, ficou quase aniquilado aos primeiros choques. Enquanto em redor tudo era extermínio, o tocador de gaita de fole, sentado num tambor,
com o seu pibroch 7 debaixo do braço, tocava as modas das montanhas, descaído em profunda abstracção com o olhar melancólico, cheio do reflexo das florestas e dos lagos. Os escoceses morriam a pensar em Ben Lothian, como morriam os gregos no meio das recordações de Argos. Porém, o sabre de um couraceiro fez cessar o canto, cortando o pibroch e o braço que o sustentava e matando o cantor.
Os couraceiros, rela vamente pouco numerosos, porque haviam minguado com o desastre do barranco,
nham contra si quase todo o exército inglês, porém,
mul plicavam-se, porque cada homem valia dez. Todavia, alguns batalhões hanoverianos sucumbiam. Wellington, que o viu, lembrou-se da sua cavalaria, e se Napoleão se lembrasse também naquela ocasião da sua infantaria, teria ganho a batalha. Este esquecimento foi uma falta fatal para ele.
De súbito, os couraceiros, que eram os que assaltavam, sen ram-se assaltados; nham pela retaguarda a cavalaria inglesa. Na frente os quadrados, na retaguarda Somerset, isto é, os mil e quatrocentos dragões-guardas, com a cavalaria ligeira alemã, comandada por Domberg, à direita e à esquerda Trip, com os carabineiros belgas. Os couraceiros, pois, atacados de lado, por diante e por trás, pela infantaria e pela cavalaria, veram de fazer frente por todos os lados. Que lhes importava aquele turbilhão? A sua bravura tornou-se inexprimível.
Além disto, nham ainda pela retaguarda a bateria troando sempre. Só assim é que aqueles homens podiam ser feridos nas costas. Entre a colecção do museu de Waterloo
acha-se uma couraça, com um buraco na omoplata esquerda, feito por uma bala de biscainho.
Para franceses assim, só ingleses como aqueles.
Aquilo não foi uma refrega, foi uma sombra, uma fúria, um arrebatamento ver ginoso de armas e coragens, um furacão de espadas-relâmpagos. Dentro de um instante, os mil e quatrocentos dragões-guardas ficaram reduzidos a oitocentos e o seu tenente Fuller caiu morto. Acudiu Ney com os lanceiros e os caçadores de Lefebvre-Desnoue es, e a planura do Mont-Saint-Jean foi tomada, retomada e tornada a tomar; os couraceiros deixando a cavalaria para se voltarem contra a infantaria, os quadrados resis ndo sempre; era uma barafunda formidável, melhor diremos assim, junta num só grupo, sem que uns se desenvencilhassem dos outros. Nesta refrega, que durou duas horas, durante as quais se deram doze assaltos, mataram quatro cavalos a Ney e metade dos couraceiros ficou na planura.
Esta luta, porém, abalou profundamente o exército inglês. Para nós é fora de dúvida que, se o desastre da azinhaga não lhe vesse enfraquecido o primeiro ímpeto, os couraceiros teriam destruído o centro e assim decidido a vitória. Wellington, quase vencido, admirava como herói aquela cavalaria extraordinária que petrificara Clinton, Clinton que vira Talavera e Badajoz, e dizia a meia voz:
— Sublime!
Sete quadrados aniquilaram os couraceiros de treze que eram; tomaram ou encravaram sessenta peças de ar lharia, e arrebataram aos regimentos ingleses seis bandeiras, que três couraceiros e três caçadores foram levar ao imperador, o qual se achava em frente da herdade da Belle Alliance.
A situação de Wellington piorara. Aquela estranha batalha era um como encarniçado duelo entre dois feridos, que, ao passo que iam combatendo e resis ndo, iam cada qual, pela sua parte, perdendo o sangue que lhe restava. Qual será o que há-de cair primeiro?
Na planície continuava a luta.
Até onde chegaram os couraceiros é coisa que ninguém poderá dizer. O que é certo, porém, é que no dia seguinte ao da batalha foi encontrado morto um couraceiro com o seu cavalo no Mont-Saint-Jean, junto ao madeiramento da balança onde são pesadas as carruagens, mesmo no sí o em que se cruzam as quatro estradas de Nivelles, Genappe, La Hulpe e Bruxelas.
O cavaleiro nha atravessado as linhas inglesas. Ainda vive no Mont-Saint-Jean um dos homens que levantaram aquele cadáver. Chama-se Dehaze e nha então dezoito anos.
Estava próxima a crise. Wellington sentia-se enfraquecer.
Os couraceiros não nham rado resultado do seu esforço, por que o centro conservava-se firme. Sendo a planície de todos, não era de ninguém, mas em suma, a maior parte pertencia aos ingleses. Wellington apossara-se da aldeia e da planície dominante; Ney estava senhor do alto e da encosta. Parecia cada qual arraigado àquele solo fúnebre.
O enfraquecimento dos ingleses tornava-se, porém, irremediável. Era horrível a
hemorragia daquele exército. Kempt, na ala esquerda, reclamava reforço.
— Não o há! — respondia Wellington. — Que se deixe matar!
E quase ao mesmo tempo, singular paralelo que pinta a prostração dos dois exércitos, Ney pedia infantaria a Napoleão e Napoleão exclamava:
— Infantaria? Onde a tenho para lha mandar? Quer que me desfaça nela?
O exército inglês, todavia, era o que estava mais enfermo. Os ímpetos furiosos daqueles grandes esquadrões de couraças de ferro e peitos de aço haviam esmagado a infantaria. O lugar de um regimento era denotado apenas por alguns homens em volta de uma bandeira; batalhões havia que eram comandados por um capitão ou tenente; a divisão de Alten, já tão maltratada em Haie-Sainte, estava quase destruída; os intrépidos belgas da brigada de Van-Kluze juncavam os campos de centeio, ao longo da estrada de Nivelles; dos granadeiros holandeses, que em 1811, na Espanha, comba am contra Wellington, ao nosso lado, e que em 1815 comba am contra Napoleão, ao lado dos ingleses, quase nada restava. A isto devemos acrescentar a perda dos oficiais, que era considerável. Lord Uxbridge, que no dia seguinte mandou enterrar a perna, nha o joelho quebrado. Se nesta luta dos couraceiros, da parte dos franceses estavam fora de combate Delord, Lhêri er, Colbert, Dnop, Travers e Blancard, da parte dos ingleses Alten e Barne nham sido feridos, Delancey, Van Merlen e Ompteda mortos, o estado-maior de Wellington dizimado, de modo que a Inglaterra era a de pior par do naquele sanguinolento equilíbrio. O segundo regimento dos guardas a pé perdera cinco tenentes-coronéis, quatro capitães e três alferes; o primeiro batalhão do 30.º de infantaria perdera vinte e quatro oficiais e mil e duzentos soldados, o 79.º de montanheses nha vinte e quatro oficiais feridos, dezoito mortos e cento e cinquenta soldados mortos. Os hussardos hanoverianos de Cumberland, isto é, um regimento inteiro, comandado pelo coronel Hacke, que mais tarde nha de ser julgado e condenado, re raram à vista do combate e refugiaram-se na floresta de Soignes, semeando a derrota até Bruxelas. As carretas, os cabos de puxar as peças, as bagagens, os carros cheios de feridos, ao ver ganhar terreno aos franceses, que se aproximavam da floresta, fugiam diante deles, e os holandeses, acutilados pela cavalaria francesa, soltavam gritos de terror!
Segundo dizem testemunhas que ainda existem, desde Vert-Coucou até Groenendael, numa extensão de perto de duas léguas na direcção de Bruxelas, os fugi vos eram tantos, que atulhavam a estrada. Tal foi o pânico que nem o príncipe de Conde em Malines, nem Luís XVIII em Gand lhe escaparam. À excepção da ténue reserva formada por trás da ambulância estabelecida na herdade do Mont-Saint-Jean, e das brigadas de Vivian e Vandeleur, que flanqueavam a ala esquerda, Wellington já não nha cavalaria.