Os Miseráveis
I — A superfície da questão
Pelo meio da tarde principiaram a ouvir-se extraordinários sussurros para o lado de Paris. Pareciam tiros de espingarda e gritos clamorosos de uma multidão em desordem.
O pobre velho levantou a cabeça e perguntou a um hortelão que ia a passar:
— Que barulho é aquele?
O hortelão parou, com a sua enxada às costas, e respondeu no mais fleumá co tom de voz:
— É o povo em desordem.
— Como? O povo em desordem?
— Sim, senhor. Já não faltam tiros nem espadeiradas!
— E porque é?
— Quem sabe lá! — respondeu o hortelão.
— Para que lado é? — tornou o senhor Mabeuf.
— Para a banda do Arsenal.
Mabeuf recolheu-se a casa, pegou no chapéu, procurou maquinalmente um livro para o meter debaixo do braço, porém, como o não achasse, exclamou:
— Ai, é verdade! — e saiu com ar desvairado.
LIVRO DÉCIMO — O DIA 5 DE JUNHO DE 1832
I — A superfície da questão De que se compõe uma revolta? De tudo e de nada. De uma electricidade lentamente desenvolvida, de uma chama subitamente produzida, de uma força vacilante, de uma rajada que passa. Esta rajada, porém, encontra no seu caminho cabeças que falam, cérebros que meditam, almas que sofrem, paixões que queimam, misérias que rugem, e leva-as consigo.
Para onde?
Ao acaso. De encontro ao Estado, de encontro às leis, de encontro ao bem-estar e à insolência dos outros. Convicções irritadas, entusiasmos exasperados, indignações agitadas, compressão dos ins ntos de guerra, exaltação de valor entre os mancebos, cegueiras generosas; a curiosidade, o gosto das inovações, o desejo de coisas extraordinárias, o sen mento que nos leva a ler com prazer o cartaz de um novo espectáculo e a ouvir gostosos no teatro o apito do maquinista para as transmutações cénicas; os ódios vagos, os rancores, os desapontamentos, as vaidades que se julgam ví mas de uma bancarrota do des no; a falta de meios, os sonhos ocos, as ambições di ceis de saciar, os que esperam que o desabamento lhes abra uma saída; finalmente, mais em baixo, a multidão, essa lama que se incendeia; eis os elementos da revolta.
As coisas maiores e as mais pequenas; os entes que giram por fora de tudo, à espera de ensejo, boémios, gente sem ocupação, vagabundos das encruzilhadas, os que à noite dormem num deserto povoado de casas, sem mais tecto que as nuvens frias que passam pelo espaço, os que pedem cada dia o pão, de que se hão-de alimentar, ao acaso e não ao trabalho, os aventureiros da miséria e do nada, os braços nus, os pés descalços, tudo isto pertence à revolta.
Todo o que abriga no peito um oculto sen mento de rebelião contra qualquer facto do Estado, da vida ou da sorte, confina com a revolta, e, apenas esta rebenta, principia a agitar-se e a sentir-se impelido pelo turbilhão.
A revolta é uma espécie de tromba da atmosfera social, que repentinamente se forma, mediante certas condições de temperatura, e que, no seu redemoinhar, sobe, corre, detona, arranca, arrasa, esmaga, derruba, arrastando consigo as grandes naturezas e as que o não são, o homem forte e o espírito fraco, o tronco de árvore e o fragmento de palha.
Desgraçado tanto do que é arrebatado como do que lhe sofre o choque, porque ambos ficam esmagados.
Não sei que extraordinário poder ela comunica àqueles que absorve. Enche o primeiro que topa da força dos acontecimentos; de tudo faz projécteis. De um seixo faz uma bala, de um carrejão um general.
A darmos crédito a certos oráculos da polí ca hipócrita, as revoltas, com relação ao poder, não deixam de ser mais ou menos proveitosas. Para assim o afirmar fundam-se neste sistema: As revoltas consolidam um governo, todas as vezes que o não derrubam.
Servem de prova para o exército; concentram a burguesia; distendam os músculos da polícia; servem, enfim, para verificar a força da ossada social. É uma ginás ca e quase
uma higiene. Quase sempre o poder passa melhor depois de um tumulto, como acontece ao homem depois de uma fricção.
Há trinta anos, as revoltas eram ainda consideradas sob outros pontos de vista.
Há uma teoria universal que serve para, tudo e que a si mesma se proclama o «bom-senso»; Filinto contra Alcestes, mediação oferecida entre a verdade e a falsidade; explicação, advertência, atenuação com ressaibo de sobranceria, que, por ser entremeada de censura e desculpa, passa por sabedoria, e, de ordinário, não é mais do que pedan smo. Isto, porém, deu origem a uma escola polí ca, a que se pôs o nome de par do moderado, isto é, par do da água morna, porque fica entre a água fria e a água quente. Esta escola, apesar da sua falsa profundidade, toda superficial, que disseca os efeitos sem remontar às causas, repreende do alto de uma meia ciência, as agitações da praça pública.
Segundo esta escola: «As revoltas que complicaram o facto de 1830 raram a este grande acontecimento parte da sua pureza. A revolução de Julho nha sido uma bela rajada de vento popular, repen namente seguida do mais belo céu azul. As revoltas fizeram reaparecer o céu nebuloso. Fizeram degenerar em disputa aquela revolução em começo tão notável pela unanimidade. Na revolução de Julho, como em todo o progresso de repelão, houvera fracturas secretas; a revolta tornou-as sensíveis. Puderam dizer: Eis aqui isto que está quebrado. Depois da revolução de Julho não se sen u senão a alforria; depois das revoltas sentiu-se a catástrofe.
«Toda a revolta fecha as lojas, deprime os fundos, consterna a praça; suspende o comércio, paralisa os negócios, precipita as quebras; o numerário desaparece, as fortunas par culares inquietam-se, o crédito público é abalado, a indústria perde o equilíbrio, os capitais recuam, o trabalho falta, o medo é geral; tudo isto se repercute em todas as cidades. Daqui os pegos. Calculou-se que o primeiro dia de revolta custou à França vinte milhões, o segundo quarenta, e o terceiro sessenta. Uma revolta de três dias custa cento e vinte milhões, isto é, atendendo-se só ao resultado financeiro é equivalente a um desastre, naufrágio ou batalha perdida, que aniquilasse uma esquadra de sessenta naus de linha.
«Historicamente, não há dúvida que as revoltas veram sua beleza; a guerra das ruas não é menos grandiosa nem menos paté ca do que a guerra das moitas; numa reside a alma das florestas, na outra o coração das cidades; uma tem Jean Chouam, a outra tem Joana. As revoltas iluminaram de vermelho, mas esplendidamente, todas as saliências mais originais do carácter parisiense, a generosidade, a dedicação, a alegria tempestuosa, os estudantes provando a aliança da bravura com a inteligência, a guarda nacional inabalável, os acampamentos dos legistas, as fortalezas de gaiatos, o desprezo da morte nos que passavam Escolas e legiões embatiam-se.