Os Miseráveis
VII — O gaiato podia ocupar um lugar nas classificações da Índia
Seja porém dito de passagem: este abandono de crianças não era de todo desanimado pela antiga monarquia.
Um tanto ou quanto de Egipto e de Boémia nas baixas regiões, equilibrava as altas esferas e era ú l aos desígnios dos poderosos. O antagonismo ao ensino dos filhos do povo, era dogma. Para que servem as «meias luzes?» Tal era a senha. Ora, a criança errante é corolário da criança ignorante.
Além disto, quando a monarquia carecia de rapazes, fazia uma colheita pelas ruas e ficava servida.
No tempo de Luís XVI, para não remontarmos a mais longe, queria o rei, e com razão, criar uma esquadra. A ideia era boa; mas vejamos os meios de a realizar. Não há esquadra possível, se, ao lado do navio de vela, ludibrio do vento, e para o rebocar sempre que seja necessário, não há o navio que vai onde quer, ou seja pelo remo ou pelo vapor; as galés eram naquele tempo para a marinha o que são hoje os vapores.
Necessitavam-se, pois, galés; mas a galé não se move sem o forçado; por consequência
era preciso que houvesse forçados. Colbert fazia apurar pelos intendentes de província e pelos parlamentos, o maior número possível de forçados. A magistratura empregava neste empenho a maior complacência. Se um homem qualquer conservava o chapéu na cabeça ao passar uma procissão, mostrava costumes de huguenote! Galés com ele.
Encontrava-se na rua um rapaz, nha quinze anos, e não sabia onde pernoitar; mandavam-no para as galés.
Grande reinado, grande século.
No reinado de Luís XV desapareciam de Paris as crianças; a polícia arrebatava-as, não se sabe para que misterioso emprego. Segredavam-se então com espanto, monstruosas conjecturas acerca dos banhos de púrpura do rei. Barbier fala ingenuamente destas coisas. Sucedia, às vezes, que os esbirros caçadores de crianças, se apoderavam de algumas que nham pais. Estes, desesperados, corriam sobre os esbirros. Em tais casos, intervinha o parlamento e mandava prender... Quem? Os esbirros? Não, os pais das crianças.
VII — O gaiato podia ocupar um lugar nas classificações da Índia O ser gaiato em Paris ainda não é para todos, por isso que esta espécie de entes ali quase constituem uma raça.
A palavra gaiato foi impressa pela primeira vez, passando pela linguagem popular para a linguagem literária, em 1834. A sua aparição teve lugar num opúsculo in tulado Cláudio Gueux e produziu grande escândalo, mas a palavra ficou adoptada.
São variadíssimos os elementos que cons tuem a consideração dos gaiatos entre eles.
Um conhecemos nós e com ele falámos muitas vezes, que era em extremo respeitado e admirado por ter visto cair um homem das torres de Notre-Dame; outro, por ter conseguido penetrar no pá o onde estavam inteiramente guardadas as estátuas do zimbório dos Inválidos e ter-lhes «surripiado» um pouco de chumbo! Um terceiro, por ter visto tombar uma diligência; e ainda outro, por «conhecer» um soldado que esteve quase a tirar um olho a um sujeito bem trajado.
É isto o que explica a seguinte exclamação de um gaiato parisiense, epifonema profundo de que o vulgo ri sem o compreender: Deus do céu, não querem lá ver!
Dizerem que ainda não vi cair ninguém dum quinto andar!