Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 351 de 359

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Os Miseráveis

III — Recordações do jardim da rua Plumet

A princípio, demorava-se apenas alguns minutos com a jovem e retirava-se logo.

Pouco a pouco, porém, foi-se acostumando a prolongar as suas visitas. Dir-se-ia que

queria aproveitar-se da autorização dos dias, que também iam crescendo, vinha mais cedo e retirava-se mais tarde.

Um dia, Cose e, no decorrer da conversação, inadver damente proferiu a frase «meu pai». Ao ouvi-la, o enrugado e sombrio rosto de Jean Valjean iluminou-se de um súbito clarão de alegria, após o qual imediatamente atalhou:

— Jean é o meu nome!

— Ah, é verdade! Senhor Jean! — respondeu ela, soltando uma risada.

— Assim mesmo! — tornou ele.

E voltou o rosto para que Cose e o não visse limpar as lágrimas que lhe nham acudido de repente aos olhos.

III — Recordações do jardim da rua Plumet

Foi a úl ma vez. Após esse derradeiro clarão, tornou-se completa a ex nção.

Desapareceu de todo a menor mostra de familiaridade, nunca mais se repe u o beijo que assinalava O princípio de cada entrevista, nunca mais soou a seus ouvidos a frase tão profundamente afectuosa: «Meu pai!» com que, até então, se dera por amplamente recompensado do seu amor à graciosa jovem.

O infeliz via-se, por sua própria cumplicidade a rogos seus, sucessivamente esbulhado dos bens que cons tuíam a sua ventura, e, para cúmulo de infortúnio, o desditoso, depois de ter perdido Cose e de todo num dia, via-se agora reduzido a perdê-la de novo aos: poucos.

A nossa vista chega, por fim, a habituar-se a uma quase escuridão. Em suma, como vesse todos os dias uma aparição de Cose e, era quanto lhe bastava. Toda a sua vida se concentrava nesse instante. Sentava-se ao pé dela, e ora a contemplava em silêncio, ora se lhe punha a falar do tempo passado da sua infância, da sua vida no convento, das suas amiguinhas de então.

Uma tarde, num dos primeiros dias de Abril, já quente, mas ainda fresco; o sol ostentava-se em todo o seu esplendor, os jardins que se estendiam em frente das janelas do quarto de Mário e Cose e como que principiavam a despertar, as roseiras começavam a desabrochar, os goivos a atapetar as enegrecidas paredes, as bocas de lobo encarnadas a rebentar por entre as fendas das pedras, a relva começava a ma zar-se graciosamente de margaridas e botões de ouro, as borboletas brancas tentavam, já o seu ver ginoso voo, o vento, esse menestrel do eterno fes m de núpcias, ensaiava nas árvores as primeiras notas dessa grande sinfonia de aurora chamada Primavera nessa tarde, Mário disse a Cosette:

— Nós nhamos falado, em ir ao nosso jardim da rua Plumet; vamos lá hoje. Não devemos ser ingratos.

E voaram, como duas andorinhas na Primavera.

Para eles aquele jardim da rua Plumet era uma espécie de aurora. Já tinham após si na vida o quer que fosse como a Primavera do seu amor. O prazo do arrendamento ainda não tinha expirado, e, por consequência, a casa Pertencia ainda a Cosette.

Visitaram, pois, aquele jardim e aquela casa, e ao acharem-se nela esqueceram-se de tudo o mais.

De tarde, à hora do costume, chegou Jean Valjean a rua das Mulheres do Calvário.

— A senhora saiu com o senhor e ainda não voltaram disse-lhe Biscainho.

Jean Valjean sentou-se silenciosamente e esperou uma hora, durante a qual Cose e não chegou.

Decorrida ela, pendeu a cabeça para o peito e retirou-se.

Cose e ficara tão agradavelmente impressionada com o seu passeio «ao nosso jardim», como ela dizia e tão jubilosa por ter «vivido um dia no seu passado», que no seguinte, não falou em outra coisa, e nem pela lembrança lhe passou que nesse dia não tinha estado com Jean Valjean.

— Como foram lá? — perguntou-lhe à jovem.

— A pé.

— E Como voltaram?

— Num carro.

Havia algum tempo que Jean Valjean notava a economia com que passava o jovem casal, e esta circunstância afligia-o. A economia de Mário era severa, e para Jean Valjean tinha esta frase o sentido absoluto.

As suas apreensões fizeram, por fim, com que ele aventurasse uma pergunta.

— Porque não têm carro próprio? Um bonito coupé custar-lhes-ia apenas quinhentos francos por mês, despesa com que muito bem podem, porque são ricos.

— Não sei — respondeu Cosette.

— É como com a Toussaint — prosseguiu Jean Valjean.

— Ela despediu-se e assim se deixaram ficar. Porque não tomaram outra criada?

— Basta-nos Nicolette.

— Mas bem vê que a senhora necessita de uma criada grave.

— Então eu não tenho Mário?

— Deviam ter uma casa sua, criados seus, carro, camarote de assinatura. Nada disto demanda despesas com que não possam. Porque não desfrutam a riqueza que têm? O

ser rico não estorva de ser feliz, antes serve para aumentar a felicidade.

A tudo isto nada respondeu Cosette.

As visitas de Jean Valjean, em lugar de se tornarem mais abreviadas, cada vez se prolongavam mais.

Quando é o coração que resvala, nada nos sustém na ladeira.

Quando Jean Valjean queria prolongar a sua visita, fazendo esquecer a hora da re rada, punha-se a tecer os maiores elogios a Mário; dizia que o achava um belo rapaz, nobre, corajoso, eloquente, dotado de suma inteligência e bondade. Cose e encarecia.

Jean Valjean recomeçava.

Era um nunca acabar. Mário era uma palavra inesgotável; eram cinco letras que valiam por muitos volumes.

Por meio deste estratagema, conseguia Jean Valjean Demorar-se largo espaço na companhia da jovem.

Ver Cose e, estar junto dela, olvidando tudo o mais, era-lhe tão suave consolação!

Era o bálsamo das feridas que o arpão do infortúnio lhe tinha aberto no coração!

Não poucas vezes sucedia vir Biscainho dizer, primeira e segunda vez:

— O senhor Gillenormand manda lembrar à senhora baronesa que está o jantar na mesa.

Nos dias em que isto acontecia, recolhia-se Jean Valjean a casa profundamente melancólico. Dar-se-ia o caso que a comparação da crisálida imagem imaginada por Mário fosse exacta? Dar-se-ia o caso que Jean Valjean fosse, efec vamente, uma crisálida pertinaz que não cessasse as suas visitas à borboleta que produzira?

Uma tarde, Jean Valjean demorou-se ainda mais do que o costume. Ao outro dia, reparou que o fogão estava apagado.

— O fogão está apagado! — disse ele consigo.

E atalhou logo, dando a si mesmo a seguinte explicação:

— Nada mais natural. Estamos em Abril A força do frio já passou!

— Santo Deus! Que frio aqui está! — exclamou Cosette, apenas entrou.

— Eu nem por isso acho! — respondeu Jean Valjean.

— Então foi o senhor quem disse a Biscainho para não acender o fogão?

— Fui. Não tardamos a estar em Maio.

— Isso que tem? O costume é acender os fogões até Junho. E neste subterrâneo, ainda que haja lume todo o ano, não é nada de mais.

— Entendi que era escusado.

— Esquisitices suas! — exclamou Cosette.

No dia seguinte estava aceso o fogão, mas as duas Cadeiras achavam-se do outro lado da sala, junto à porta.

— Que vem a ser isto? —, disse consigo Jean Valjean.

Foi buscar as cadeiras e tornou a pô-las no seu costumado lugar ao pé do fogão.

Animado pela lembrança daquele fogão outra vez aceso, prolongou a conversação ainda até mais tarde do que costumava.

Na ocasião em que ia a pôr-se de pé para se retirar, Cosette disse-lhe:

— Ontem meu marido saiu-se-me com uma coisa muito esquisita.

— Então que foi?

— Disse-me: «Olha, Cose e, nós temos trinta mil francos de renda. Vinte e sete que são teus e três que me dá meu avô». Eu respondi: «É isso, são trinta». Ele tornou:

«Sentes-te com coragem para viver com os três mil?» Eu respondi: «Pois não sinto! Até sem nada, uma vez que seja con go!» E depois perguntei-lhe: «Porque é que me dizes isso?» Ele respondeu-me: «É para saber!»

Jean Valjean não achou resposta para dar a semelhante revelação. Cose e decerto esperava ouvir alguma explicação da boca dele, porém Jean Valjean escutou-a em sombrio silêncio.

Quando voltou para a rua do Homem Armado, ia tão profundamente abstracto, que se enganou na porta, entrando para a escada vizinha, em vez de entrar para a sua. Só depois de ter já subido quase dois lanços de escada, deu pelo engano e tornou a descer. Perdia-se-lhe o espírito em conjecturas. Estava provado que Mário nutria desconfianças a respeito da origem dos seiscentos mil francos que cons tuíam o dote de

Cose e, que temia que eles procedessem de alguma fonte menos pura, quem sabe mesmo se talvez tivesse descoberto que esse dinheiro provinha de Jean Valjean.

Estava claro que Mário hesitava em u lizar-se dessa fortuna suspeita, em usar dela como sua, preferindo viver pobre, conjuntamente com Cose e, a u lizar-se de uma riqueza cuja origem não parecia a melhor. Além disto, Jean Valjean começava a nutrir a vaga desconfiança de que era repelido.

No dia seguinte, ao entrar na sala, costumado lugar das suas entrevistas com Cose e, experimentou como um abalo. As poltronas nham desaparecido. Nem mesmo uma simples cadeira havia em toda a sala.

— Ora esta! — exclamou Cose e mal chegou. — Não há cadeiras! Onde estão as poltronas?

— Levaram-nas! — respondeu Jean Valjean.

— Ora isto não se atura!

— Fui eu que disse a Biscainho que as tirasse! — tartamudeou Jean Valjean.

— E porquê?

— Porque faço tenção de me demorar apenas alguns minutos!

— Demorar-se pouco não é motivo para ficarmos de pé.

— Creio que Biscainho precisava das poltronas lá em cima.

— Para quê?

— Porque decerto a senhora tem hoje visitas.

— Isso não, porque nós não esperamos ninguém.

Jean Valjean, que não sabia que mais havia de dizer, calou-se.

Cosette encolheu os ombros e prosseguiu:

— Mandar rar as cadeiras! Noutro dia foi o fogão. Também mandou que o não acendessem. Hoje manda tirar as cadeiras! Sempre é muito excêntrico!

— Adeus! — murmurou Jean Valjean.

Não disse: «Adeus, Cose e», mas também não teve ânimo para dizer: «Adeus, minha senhora».

Saiu acabrunhado.

Desta feita, compreendera.

No dia seguinte, não veio.

Cosette só à noite fez reparo nisso.

— É verdade — disse ela — o senhor Jean não veio hoje!

Sen u um leve acesso de tristeza, porém mal deu por ele, porque um beijo de Mário a distraiu.

Ao outro dia, também não veio Jean Valjean.

Cose e, que nem semelhante coisa notou, passou as horas do serão e dormiu a noite como de costume, e só ao acordar se lembrou da falta de Jean Valjean.

Como assim não havia de ser, se ela se sentia tão venturosa?