Os Miseráveis
II — Primeiro esboço de duas figuras suspeitas
Neste momento apareceu o dono da casa.
— Está bem — respondeu ele.
O ajuste concluiu-se. Fan ne passou a noite na estalagem, deu o dinheiro exigido, entregou a filhinha, tornou a atar o saco, aliviado do peso do enxoval, e na manhã seguinte con nuou o seu caminho, esperando voltar brevemente. Preparam-se tranquilamente estas par das, mas depois é um sen r-se a gente desesperada de angústia ao separar-se.
Uma vizinha dos Thenardier encontrou a pobre mãe, quando de novo se pôs a caminho e voltou, dizendo:
— Encontrei agora uma mulher a chorar, que metia dó vê-la!
Depois da mãe de Cosette ter partido, o homem disse à mulher:
— Com isto paga-se a minha letra de cento e dez francos, que se vence amanhã.
Faltavam-me cinquenta francos; e olha que se não a pagasse nha protesto, processo, que sei eu! Realmente, engendraste uma boa ratoeira com as pequenas!
— Pois foi sem querer — respondeu a mulher.
II — Primeiro esboço de duas figuras suspeitas
O rato apanhado na ratoeira era bastante franzino, mas o gato regala-se ainda que seja com um rato magro.
Quem eram os Thenardier?
Digamos desde já alguma coisa a seu respeito. Depois completaremos o esboço.
Estas criaturas pertenciam à classe bastarda, composta de gente grosseira aventureira e gente inteligente decaída, situada entre a classe chamada média e a chamada inferior e que combina alguns defeitos da segunda com quase todos os vícios da primeira, sem ter o assomo de generosidade do artista nem a ordenada honestidade do burguês.
Eram dessas naturezas anãs que se tornam monstruosas, se por acaso as aquece algum fogo sombrio. Havia na mulher o fundo de uma selvagem e no homem a capa de um velhaco. Ambos eram desmesuradamente suscep veis daquela espécie de progresso abjecto, que se faz no sen do do mal. Existem almas, espécie de caranguejos, recuando con nuamente para as trevas, retrogrando na vida mais do que avançam, empregando a experiência em aumentar a sua deformidade, piorando sem cessar, e impregnando-se cada vez mais, de crescente negrura. Este homem e a mulher eram dessas almas.
O marido, principalmente, era incómodo para o fisionomista. Há homens que basta encará-los para se desconfiar deles, pressen ndo-se desde logo as ideias tenebrosas.
Homens destes apresentam por trás de si a inquietação e na frente a ameaça. Há neles qualquer coisa de desconhecido. Não se pode responder pelo que fizeram nem pelo que farão. Denuncia-os o olhar sombrio. Simplesmente por os ouvir pronunciar uma palavra ou vê-los fazer um gesto, logo se lhes descobrem sombrios segredos no passado e sombrios mistérios no futuro.
Este Thenardier, se devemos dar-lhe crédito, nha sido soldado; sargento, dizia ele; fizera provavelmente a campanha de 1815 e até, ao que parece, se nha portado com bravura. Mais tarde veremos o que ele era realmente. A tabuleta da estalagem con nha uma alusão a um dos seus feitos de armas. Pintara-a ele mesmo, porque aquele homem sabia um pouco de tudo, mas mal.
Era na época em que o an go romance clássico que depois de ter sido Clelia já não era senão Lodoiska, sempre nobre, mas cada vez mais vulgar, que descera de Mademoiselle de Scudéry para Madame Barthélemy-Hadot, e de Madame de Lafaye e para Madame Bournon-Malarme, incendiava a alma ardente das porteiras de Paris e levava mesmo a sua devastação a alguns pontos dos arrabaldes.