Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 319 de 359

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Os Miseráveis

IV — Pormenores ignorados

No princípio deste século, os canos de Paris eram ainda um lugar misterioso. A lama nunca poderá gozar de bons créditos; mas, no caso sujeito, a má nota tocava as raias do terror. Paris apenas confusamente sabia que nha por baixo de si um subterrâneo terrível. Falava-se dele como desse monstruoso charco de Tebas, onde se criavam centopeias de quinze pés de comprimento e que poderia servir de banheira a Behemoth.

As grandes botas dos limpadores não se aventuravam nunca a passar além de certos lugares conhecidos. Ainda não ia longe o tempo em que as carroças do lixo, de cima das quais Saint-Foix fraternizava com o marquês de Créqui, se despejavam simplesmente dentro dos canos. Quanto à limpeza deles, confiava-se esse encargo aos aguaceiros, que mais serviam a obstruí-los do que a limpá-los. Roma deixava ainda alguma poesia à sua cloaca, chamando-lhe gemónias; Paris insultava a sua, chamando-lhe «buraco-percevejo». Ciência e supers ção, ambas se davam as mãos para o horror. O «buraco-percevejo» repugnava igualmente à higiene e à lenda. O Papão nascera debaixo da fé da abóbada do cano Mouffetard; os cadáveres dos Marmousets nham sido lançados ao

cano da Barlillerie; Fagon atribuíra a terrível febre maligna de 1685 à grande abertura do cano do Marais, que permaneceu assim até 1833, na rua de Luís, quase defronte do escritório do Mensageiro Galante. A boca do esgoto da rua da Mortallerie foi célebre pelas pestes que causou; com a sua grade de ferro, com bicos semelhantes a uma fieira de dentes, ela era nessa rua fatal como uma goela de dragão soprando o inferno sobre os homens. A imaginação popular adubava a sombria cova parisiense de onde saía aquela horrenda mistura sem fim. A cloaca de Paris não nha fundo Era o báratro. A polícia nem sequer se lembrava de explorar aquelas leprosas regiões. Tentar esse incógnito, lançar a sonda nessas trevas, ir à descoberta por aquele abismo, quem o ousaria? Era uma coisa medonha. Alguém, porém, se apresentou e a cloaca teve o seu Cristóvão Colombo. Um dia, em 1805, por ocasião de uma dessas raras aparições do imperador em Paris, o ministro do interior, um tal Decrès ou Crétet, foi apresentar-se-lhe logo de manhã. Ouvia-se no Carroussel o arrastar das espadas de todos esses soldados extraordinários da grande república e do grande império; a porta de Napoleão estava atravancada de heróis; homens do Reno, de Escaut, de Adige e do Nilo; companheiros de Joubert, de Desaix, de Marceau, de Hoche, de Kléber; aeróstatas de Fleurus, granadeiros de Mayence, pontoneiros de Genes, hussards das Pirâmides, ar lheiros de Junot, couraceiros que haviam tomado de assalto Zuyderzée; uns haviam seguido Bonaparte sobre a ponte de Lodi; outros haviam acompanhado Murat na trincheira de Mantua, outros haviam antecedido Lannes no caminho cavado de Montebello. Todo o exército de então estava ali, na corte das Tulherias, representado por uma esquadra ou por um pelotão e guardava Napoleão no repouso; era a época esplêndida em que o grande exército nha atrás de si Marengo e diante dele Austerlitz. «Senhor», disse o ministro do interior a Napoleão, «vi ontem o homem mais intrépido do nosso império».

— Quem é esse homem e que fez ele? — perguntou bruscamente o imperador.

— Quer ver uma coisa, senhor?

— O quê?»

— Examinar os canos de esgoto de Paris.

Este homem existia e chamava-se Bruneseau.

IV — Pormenores ignorados A visita efectuou-se. Foi uma temível campanha; uma batalha nocturna contra a peste e contra a asfixia, ao mesmo tempo foi uma viagem de descobertas. Um dos que sobreviveram a esta exploração, operário inteligente, muito jovem então, contava, há poucos anos ainda, os pormenores que Bruneseau julgou dever omi r no seu relatório ao prefeito da polícia, como indignos do estilo administrativo.

Os meios desinfectantes eram naquela época em extremo rudimentares. Apenas Bruneseau passou além das primeiras ar culações da rede subterrânea, logo oito dos vinte trabalhadores se recusaram a avançar mais. A operação era complicada; a visita trazia consigo a necessidade de limpeza; era preciso, pois, limpar, e não haver demora; notar as entradas de água, contar as grades e as bocas, separar as ramificações, indicar as correntes nos pontos de divisão, reconhecer as respec vas circunscrições de diferentes bacias, sondar os canos pequenos enxertados no cano principal, medir a

altura e a largura de cada corredor, tanto no ponto em que começavam as abóbadas como na base, determinar enfim as ordenadas do nivelamento ao direito de cada entrada de água, quer no cano, quer no solo da rua. Avançava-se com dificuldade. Não era raro que as escadas de mão mergulhassem em três pés de lodo. As lanternas agonizavam no meio dos miasmas. De quando em quando reconduziam um trabalhador desfalecido. Em certos pontos era um precipício. O solo apresentava depressões, o lajedo nha-se aberto, o cano transformado em sorvedouro; não se achava ponto algum sólido; um dos homens desaparecera repen namente; foi grande o trabalho para o rar do pego. Por conselho de Fourcroy acendiam de distância em distância, nos sí os suficientemente beneficiados, grandes fogachos de estopa embebida em alcatrão. As paredes :estavam, em partes, cobertas de disformes excrescências fungosas, que pareciam tumores; a própria pedra parecia doente naquele meio irrespirável.

Brunezeau, na sua exploração, caminhou das elevações para os lugares mais baixos.

No ponto de divisão dos dois condutores de água do Grand-Hurleur, decifrou numa pedra saliente a data de 1550; esta pedra indicava o limite onde parara Philibert Delorme, encarregado por Henrique II de visitar a canalização de Paris. Aquela pedra era, no cano, a marca do século XVI; Bruneseau tornou a achar a mão de obra do século» XVII no cano de Ponceau, e no da rua Velha do Templo, abobadados entre 1600 e 1650; e a do século XVIII na secção oeste do canal colector, guarnecido e abobadado em 1740.

Estas duas abóbadas, sobretudo a menos an ga, a de 1740, estavam mais gretadas e mais decrépitas do que a alvenaria do cano de cintura, a qual datava de 1412, época em que o regato de água viva de Menilmontant foi elevado à dignidade de cano real de Paris, adiantamento análogo ao do camponês que se tornasse primeiro criado par cular do rei; uma coisa como Gros-Jean transformado em Lebel.

Julgou-se reconhecer, num e noutro ponto especialmente por baixo do palácio da Justiça, alvéolos de antigos cárceres praticados no próprio cano. In paces hediondos.

Numa destas células pendia uma golilha de ferro. Foram todas muradas. Houve achados extraordinários; entre outros o esqueleto de um orangotango fugido do Jardim das Plantas em 1800, fuga provavelmente conexa com a famosa e incontestável aparição do diabo da rua dos Bernardos, no úl mo» ano do século passado. O pobre mono acabara por se afogar no cano.

No comprido corredor que termina no Arche-Marion causou a admiração dos conhecedores uma alcofa de trapeiro, perfeitamente conservada. Por toda a parte, o lodo que os trabalhadores nham conseguido remover intrepidamente, abundava em objectos de valor, ouro, prata, pedras preciosas e dinheiro.