Os Miseráveis
II — Quatro pares
Como o cardeal Fesch recusava demi r-se, a diocese de Lyon era administrada pelo senhor de Pins, arcebispo de Amasie. Entre a França e a Suíça principiava a questão dos vales de Dappe, por uma memória do capitão Dufour, depois general. Saint-Simon, ainda ignorado, elaborava o seu sublime sonho. Na Academia das Ciências havia um Fourier célebre, que a posteridade esqueceu, e não sei em que águas-furtadas um Fourier obscuro, de que o futuro se recordará. Lord Byron principiava a despontar; uma nota de um poema de Millevoye anunciava-o à França nos seguintes termos: «Um certo lord
Byron». David de Angers fazia as primeiras experiências sobre o mármore. O abade Caron falava lisonjeiramente, em pequena reunião de seminaristas, no beco das Feuillan nes, de um padre desconhecido chamado Felicidade Roberto, o qual depois veio a ser Lamennais.
No Sena via-se andar fumegando e girando por baixo das janelas das Tulherias, da ponte Real para a ponte Luís XV, fazendo o estrépito de um cão a nadar, uma coisa que para pouco servia, uma espécie de brinquedo, um sonho de inventor, mas um sonho oco, uma utopia, finalmente, um barco a vapor. Os parisienses olhavam com indiferença para semelhante inu lidade. O senhor de Vaublanc, reformador do Ins tuto, por golpe de Estado, ordem régia e formada, distinto autor demuitos académicos, depois de tantos ter feito, não conseguia chegar a sê-lo. O arrabalde de Saint-Germain e o pavilhão Marsan desejavam para prefeito de polícia o senhor Delavau, por causa da sua devoção.
Dupuytren e Récamier travavam-se de razões no anfiteatro da Escola de Medicina e ameaçavam chegar a vias de facto por causa da divindade de Jesus Cristo. Cuvier, com um olho no Génesis e o outro na natureza, esforçava-se por agradar à reacção religiosa, pondo os fósseis de acordo com os textos e fazendo que os mastodontes lisonjeassem Moisés.
François de Neufchâteau, louvável cul vador da memória de Parmen er, fazia mil esforços para que pomme de terre (batata) se pronunciasse parmentière e não conseguia. O abade Gregório, antigo bispo, antigo convencional, antigo senador, tinha na polémica realista passado ao estado de infame Gregório. A locução que acabamos de empregar: passar ao estado de, fora denunciada como neologismo por Royer-Collard.
Debaixo do terceiro arco da ponte de lena podia-se dis nguir ainda, pela sua alvura, a pedra nova com a qual, havia dois anos, fora tapado o buraco da mina pra cado por Blucher para fazer ir a ponte pelos ares. A jus ça chamava ao seu tribunal um homem que, ao ver entrar o conde de Artois na igreja de Nossa Senhora, exclamara em voz alta:
«Com a fortuna! Tenho saudades do tempo em que via entrar, no Bal-Sauvage, Bonaparte e Talma pelo braço um do outro!» Por estas ideias sediciosas foi condenado a seis meses de prisão.
Os traidores mostravam-se descaradamente; os homens que se nham passado para o inimigo na véspera de uma batalha não escondiam a recompensa e caminhavam impudicamente em pleno dia, no cinismo das riquezas e das dignidades; os desertores de Ligny e de Quatre-Bras, em toda a indecência da sua vil torpeza, ostentavam claramente a sua dedicação à monarquia, esquecendo o que em Inglaterra se encontra escrito na parede interior dos water-
closets públicos: Please adjust your dress before leaving 1.
Eis desordenada e confusamente o que sobrenada do ano de 1817, hoje esquecido. A história desdenha quase sempre estas minuciosidades e não pode deixar de o fazer, aliás tornar-se-ia infinita. Todavia, estes pormenores que são apelidados de insignificantes não há nem pequenos factos na humanidade, nem pequenas folhas na vegetação são úteis. É das feições dos anos que se compõe o carácter dos séculos.
II — Quatro pares
Estes parisienses eram naturais um de Toulon, outro de Limoges, o terceiro de Cahors e o quarto de Montauban; mas eram estudantes, e quem diz estudante diz parisiense.
Estudar em Paris énascer em Paris.
Eram quatro moços vulgares; não há ninguém que não tenha visto figuras semelhantes; imaginem-se quatro estudantes desses que por aí se encontram com frequência; nem bons nem maus, nem instruídos nem ignorantes, nem génios nem imbecis, e dotados da beleza do encantador Abril que se chama vinte anos. Eram quatro Óscares quaisquer; nesta época ainda não exis am os Artures. Queimai diante dele os perfumes da Arábia,dizia a canção. Óscar avança, vou vê-lo! Estava em moda Ossian; a elegância era escandinava e caledónia; a moda inglesa pura só mais tarde nha de dominar; e o primeiro dos Artures, Wellington, acabava apenas de ganhar a batalha de Waterloo.
Chamavam-se estes Óscares, um Félix Tholomyés, de Toulouse; outro Listolier, de Cahors; outro Fameuil, de Limoges; o último Blachevelle, de Montauban. Como é natural, cada qual tinha a sua amante.
Blachevelle amava Favorita, assim apelidada porque nha estado em Inglaterra; Listolier adorava Dália, que tomara por nome de guerra um nome de flor; Fameuil idolatrava defina, abreviatura de Josefina; a Tholomyés pertencia Fan ne, chamada a Loira em consequência dos seus belos cabelos cor de sol.
Favorita, Dália, Zefina e Fan ne eram quatro encantadoras raparigas, perfumadas e joviais, ainda um tanto costureiras, não tendo de todo abandonado a agulha, desarranjadas por causa dos namoros, mas conservando no semblante um resto da serenidade do trabalho e na alma essa flor de hones dade que na mulher sobrevive à primeira queda.
Entre as quatro havia uma a quem chamavam a Pequena, por ser a mais nova e outra a quem denominavam a Velha, que tinha vinte e três anos.
Para nada ocultar, as três primeiras eram mais experientes, descuidosas e amigas do bulício da vida do que Fan ne, a Loira, que se achava na sua primeira ilusão. O mesmo não poderiam dizer Dália, Zefina e, especialmente, Favorita. Mais de um episódio havia já no seu romance, apenas em princípio; o amante, que no primeiro capítulo se chamava Adolfo, no segundo chamava-se Afonso e no terceiro Gustavo. A pobreza e o luxo são dois conselheiros fatais; um recrimina, outro lisonjeia, e as bonitas raparigas do povo todas os ouvem falando-lhes aos ouvidos, cada um de seu lado. Estas almas mal guardadas, dão-lhes atenção, e daí as suas quedas e as pedras que lhes a ram.
Oprimem-nas com o esplendor de tudo o que é imaculado e inacessível. Oh, se a Jungfrau tivesse fome?!
Favorita, tendo estado em Inglaterra, nha por admiradoras Zefina e Dália. Começara muito cedo a sua vida independente. Seu pai era um idoso professor de matemá ca, brutal e fanfarrão; não era casado e, apesar da avançada idade, amigo ainda de se diver r. Uma ocasião, sendo ainda rapaz, vira pegar-se a um guarda-cinza o ves do de uma criada e apaixonou-se pelo incidente. Resultou daí Favorita. De tempos a tempos, a rapariga encontrava o pai, o qual nunca deixava de a cumprimentar. Um dia, uma velha
com cara de beata entrara-lhe pela casa dentro, dizendo-lhe:
— Não me conheces, menina?
— Não
— Sou tua mãe.
Após isto, foi ao armário, comeu e bebeu, mandou trazer um colchão que nha e instalou-se em casa da rapariga. Rabugenta e devota, não dirigia palavra a Favorita; almoçava, jantava e ceava por quatro e fazia sala em casa da porteira, dizendo mal da filha.
O que arrastara Dália para Listolier, para outros talvez, para a ociosidade, era ter umas bonitas unhas rosadas muito para se verem. Não seria uma barbaridade obrigar tão bonitas unhas a trabalhar? Quem quer conservar-se virtuosa não deve ter dó das mãos.
Quanto a Zefina, conquistara Fameuil pelo modo ao mesmo tempo traquinas e acariciador, com que costumava dizer:
— Sim, meu senhor.
Como os rapazes eram companheiros, as jovens eram amigas. Estes amores costumam andar sempre acompanhados destas amizades.
Hones dade e filosofia são duas coisas diferentes, e a prova é que, feitas todas as reservas respec vas a cada um destes diversos pares, Favorita, Zefina e Dália eram raparigas filósofas, e Fantine uma rapariga honesta.
— Honesta? — dir-nos-ão decerto. — Então Tholomyés?
Salomão responderia que o amor faz parte da hones dade. Limitamo-nos a dizer que o amor de Fan ne era um primeiro amor, amor único, amor fiel. Era das quatro a que não tinha sido ainda tratada por tu senão por um único homem.
Fan ne era uma dessas criaturas que desabrocham, para assim dizer, do seio do povo.
Saída das mais insondáveis regiões das trevas sociais, trazia na fronte o sinal do anónimo e do incógnito. Nascera em Montreuil-sur-mer. Quem eram seus pais? Quem o poderia dizer? Ninguém lhe conhecera nunca nem pai nem mãe. Chamava-se Fan ne. Porque se chamava assim? Nunca ninguém lhe conheceu outro nome. Por ocasião do seu nascimento existia ainda o directório. Nem o mais pequeno nome de família, porque não tinha família; nem um simples nome de baptismo, porque não havia igreja.