Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 230 de 359

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Os Miseráveis

IV — Mudança de grade

A álgebra aplica-se às nuvens; a irradiação do astro desabrocha as rosas; e ninguém que pense ousará afirmar que é inú l para as constelações o perfume do pilriteiro.

Quem pode, pois, calcular o trajecto de uma molécula? Que dados temos para não acreditar que a criação dos mundos seja determinada pela queda de grãos de areia?

Quem há aí que conheça os recíprocos fluxos e refluxos da pequenez infinita e da infinita grandeza, o ecoar das causas nos precipícios do ser e os degelos da criação? Por pequena que seja, não há coisa nenhuma indigna de atenção; o pequeno é grande e o grande é pequeno; tudo na necessidade se equilibra, embora o espírito se amedronte com tal visão Entre os seres e as coisas há relações prodigiosas; neste inexaurível conjunto, desde o sol até ao pulgão, não há mo vo para desprezo, porque todos carecem de mútuo auxílio. A luz não derrama pelo espaço os perfumes terrestres sem saber o que deles faz; e a noite distribui a essência estelar pelas flores adormecidas. As aves que voam trazem todas o fio do infinito atado à perna. A germinação compõe-se do despontar de um meteoro e da picada da andorinha, que quebra o ovo com o bico, e dá origem simultânea ao nascimento de um verme e ao triunfo de Sócrates. Onde termina a alçada do telescópio, o microscópio principia a sua. Qual deles alcança mais? Escolhei.

Uma mancha de bolor é uma plêiade de flores; uma nebulosa um formigueiro de estrelas. A mesma, senão mais, maravilhosa promiscuidade se dá a respeito das coisas da inteligência e dos factos da substância. De tal modo se misturam, combinam, desposam e mul plicam uns pelos outros os elementos e os princípios, que chegam a pôr o mundo material e o mundo moral em evidente contacto entre si. O fenómeno é um perpétuo redobramento sobre si mesmo. Nas vastas permutações cósmicas a vida universal vai e vem em quan dades desconhecidas, precipitando tudo no invisível mistério dos eflúvios, empregando tudo, sem perder o sonho de um só sono, semeando aqui um animálculo, migando um astro além, oscilando e serpejando, convertendo a luz em força e o pensamento em elemento, disseminada e indivisível, dissolvendo tudo, menos o ponto geométrico do eu; reduzindo tudo à alma átomo, desabrochando tudo em Deus; encadeando todas as ac vidades, desde a mais elevada até à mais baixa, na escuridão de um mecanismo ver ginoso; prendendo o voo do insecto com o movimento da terra; subordinando, talvez, embora apenas pela iden dade da lei, a evolução do cometa no firmamento, ao redemoinhar do infusório na gota de água.

Máquina toda espírito. Aparelho colossal, de que é primeiro motor o mosquito e última roda o Zodíaco.

IV — Mudança de grade

Parecia que aquele jardim, criado noutro tempo para esconderijo de mistérios liber nos, se transformara e tornara próprio para asilo de castos mistérios. Já não nha grutas, nem caramanchéis, nem alegretes de murta, mas nha uma magnífica coma de escuridão, caindo-lhe a modo de véu, por todos os lados. Era Paphos transformado em Éden. Era um re ro como que arrependido da insalubridade; uma ramalheteira, oferecendo actualmente as suas flores à alma; um jardim garrido, emendado dos seus an gos desmanchos e novamente belo de virgindade e pudor. O presidente amoldara-o para a galantaria, porém ela o contornara e alindara; a natureza apoderou-se dele e encheu-o de sombra, dispondo-o para o amor. De modo que a natureza destruiu a obra do presidente e do seu jardineiro, dois pobres homens, um dos quais julgara que continuava Lamoignon, e o outro Le Nôtre.

A natureza preparara aquela solidão para o amor e o amor um coração para aquela solidão. E, efec vamente, só lhe faltava ao amor tomar posse daquele templo composto de verdura, de erva, de musgo, de suspiros de aves, de voluptuosas trevas, de ramos agitados, e de uma alma toda doçura, fé, candura, esperança, aspiração e ilusão.

Cose e saíra do convento quase ainda criança. Agora ia passando dos catorze anos e, por conseguinte, estava na idade «crí ca». Excepto os olhos, a jovem parecia ser mais feia do que bonita. Não porque as suas feições fossem desgraciosas, mas pela sua excessiva magreza, pelo seu desaire, pelo seu ar mido e ao mesmo tempo despejado, pela sua excessiva altura, pouco em relação com os seus anos.

Cose e recebera no convento uma educação completa, quer dizer, fora instruída na religião e até, ou antes, principalmente, na devoção; depois aprendera «história», isto é, aquilo a que no convento dão este nome; geografia e gramá ca; ensinaram-lhe os par cípios, os reis de França, um bocado de música, um bocado de desenho, etc., mas

quanto ao mais ignorava tudo, o que, na verdade, é um encanto, mas que pode também ser um perigo. É bom que a alma de uma jovem não fique, por assim dizer, às escuras, para que por tempo não venham a parecer-lhe demasiado vivas e inesperadas as miragens que nela, como numa câmara escura, se lhe reflec rem. Cumpre, porém, verter-lhe nela apenas o reflexo das realidades, discretamente regulado, e não a luz directa em toda a sua intensidade. Uma meia luz ú l e graciosamente austera, que dissipe os medos pueris e obste às quedas. Só o ins nto maternal, maravilhosa intuição que se compõe das recordações da virgem e da experiência da mulher, sabe como e de que deve ser formada essa meia luz. Não há nada que supra tal ins nto. Nem todas as religiosas do mundo reunidas valem o que vale uma mãe para formar a alma de uma jovem. Ora, Cosette só conhecera madres e não mãe.

Quanto a Jean Valjean, não obstante ser a mais desvelada e afectuosa criatura, não passava de um pobre velho, que nada sabia; e nesta obra da educação, neste grave negócio da preparação de uma mulher para a vida, é que se torna necessário uma grande ciência para lutar contra essa grande ignorância chamada inocência.

Não há coisa que mais predisponha uma jovem para as paixões do que o convento. O

coração principia a ansiar o que não conhece, até que, não achando respiráculo por onde se dilate, a si mesmo se cava e em si mesmo se entranha. Então se formam as visões, as suposições, as conjecturas; daí um esboçar de romances, um desejar aventuras, um construir fantasias, um levantar edi cios no meio da ín ma escuridão do espírito; mansões misteriosas, onde as paixões vêm acoitar-se, apenas a saída da grade lhes permite a entrada. O convento é uma compressão, que para triunfar do coração humano necessita durar toda a vida.

Cose e, pois, não podia encontrar, na sua saída do convento, morada mais aprazível e mais perigosa do que a casa da rua Plumet. Era uma con nuação de solidão junta a um princípio de liberdade; um jardim fechado, mas uma natureza voluptuosa, opulenta, olorosa de acres perfumes; os mesmos sonhos do convento, mas já entremeados de uma visão de rapazes; uma grade, finalmente, mas uma grade que deitava para a rua.

Entretanto, repe mo-lo, Cose e era uma simples criança quando transpôs o limiar daquela casa e Jean Valjean lhe disse, fazendo-lhe completa cessão do jardim inculto:

— Aí o tens à tua inteira disposição para fazeres o que quiseres.

Desde então, o jardim tornou-se o teatro dos infan s brinquedos da jovem, que se ia à cata de «bichinhos», revolvendo cada moita, cada pedra que encontrava, rindo e brincando, enquanto não era chegada a hora das vagas cogitações; divagando por aquele jardim à procura dos insectos, sorrateiramente escondidos entre as ervas, enquanto não principiava a divagar nele de olhos fitos nas estrelas suspensas dos ramos das árvores.

Além disto, amava de todo o coração o seu pai, isto é, Jean Valjean, com uma infan l paixão filial, que lhe fazia aprazível e desejada a companhia daquele velho. Apesar dos seus infortúnios, Jean Valjean nunca cessara de entregar-se à leitura, noutro tempo sua ocupação habitual. De modo que não só falava bem, mas possuía a eloquência e a secreta riqueza de uma inteligência humilde, mais cheia de rec dão, que a si própria espontaneamente se cul vou. Ficara-lhe ainda um resto de aspereza, mas na quan dade

necessária para contrabalançar a sua bondade; aquele homem era um espírito rude e um coração afectuoso. Nos passeios do Luxemburgo ele explicava minuciosamente todas as coisas, socorrendo-se do que nha lido e não poucas vezes do que nha sofrido. Ao mesmo tempo, porém, que ele falava, circunvagava a jovem a vista abstractamente.

O pensamento de Cose e contentava-se com aquele homem simples, do mesmo modo que aquele jardim selvagem lhe bastava aos olhos. Quando, após desordenada correria atrás das borboletas, chegava ao pé dele esbaforida, dizia-lhe:

— Ai, sempre dei uma corrida!

E ele respondia-lhe, beijando-a na fronte.

Cose e adorava o excelente homem. Não o largava um instante. Só onde es vesse Jean Valjean se sen a bem. Por isso, como Jean Valjean não se de nha nem no jardim nem na casa da frente, aprazia-lhe mais o pá o das traseiras do que o jardim com as suas flores; a saleta, apenas mobilada com algumas cadeiras de palhinha, do que a ampla sala, recamada de tapeçarias e pejada de estofadas poltronas. Jean Valjean dizia-lhe algumas vezes, sorrindo-se da felicidade de ser importunado:

— Deixa-me estar só um bocado! Porque não vais para o teu quarto?

Outras vezes dizia-lhe ela, nesse tom de quem ralha, tão gracioso entre filha e pai:

— No seu quarto estou sempre a tremer com frio! Porque não manda pôr aqui um tapete e arranjar um fogão?

— Olha, filha, há muita gente que vale mais do que eu e nem sequer tem um tecto que os abrigue!

— Então para que quer que no meu quarto esteja sempre o lume aceso e haja todas as demais comodidades?

— Porque tu és mulher e menina.

— Ora! Então os homens devem sofrer o frio e viver mal?

— Certos homens, filha.

— Pois olhe, tantas vezes hei-de para aqui vir, que o hei-de obrigar a acender o lume!

Outras vezes dizia-lhe:

— Ó meu pai, para que come desse pão, que é tão mau?

— Por isso mesmo, filha.

— Pois uma vez que come dele, também eu quero comer.

E Jean Valjean então comia pão de trigo para que Cosette não comesse pão negro.

Cose e apenas confusamente se recordava da sua infância, mas orava pela manhã e à noite por sua mãe, a quem não conhecera. Quanto aos Thenardier, lembravam-lhe como dois vultos medonhos através de um sonho. Recordava-se de que «certa noite» fora a um bosque buscar água, mas um bosque situado a muitas léguas de Paris, segundo ela supunha. Afigurava-se-lhe que no princípio da sua vida es vera num abismo, de onde Jean Valjean a viera rar. Segundo as suas ideias, a infância dela fora certo tempo em que ela não via em roda de si senão centopeias, aranhas e cobras. Como não nha uma ideia precisa de ser filha de Jean Valjean nem de Jean Valjean ser seu pai, imaginava, quando, à noite, antes de adormecer, se punha a pensar, que a alma de sua mãe transmigrara para aquele velho, para que deste modo estivesse sempre a seu lado.