Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 296 de 359

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Os Miseráveis

V — O horizonte que se avista do alto de uma barricada

— Tu já não tens pai nem mãe, o que será dos teus três irmãos, que são tão pequenos?

— Tu és pai de cinco filhos.

— Tu tens direito de viver; aos dezassete anos é muito cedo.

Estas grandes barricadas revolucionárias eram centros de heroísmo. O inverosímil ali tornava-se simples.

Aqueles homens não causavam admiração uns aos outros.

— Decidam depressa! — repetia Courfeyrac.

Dois diferentes grupos gritavam a Mário:

— Designe o senhor quem deve ficar.

— Sim, sim, escolha — disseram os cinco — obedeceremos.

Mário já não acreditava na possibilidade de sen r uma comoção. Contudo, em presença da ideia de escolher um homem para morrer, todo o sangue lhe refluiu ao coração. Teria empalidecido, se isso lhe fosse possível.

Dirigiu-se para os cinco, que o olhavam sorrindo-se, e cada um, com os olhos iluminados por essa grande chama que se avista nas Termópilas, lhe gritavam:

— Eu, eu, eu!

E Mário, estupidamente, contou-os; continuavam a ser cinco!

Depois baixou a vista para os quatro fardamentos.

Neste momento, um quinto fardamento caiu, como que do céu, sobre os outros quatro.

O quinto homem estava salvo.

Mário abriu os olhos e logo se lhe deparou o senhor Fauchelevent.

Jean Valjean acabava de entrar na barricada.

Ou porque se houvesse informado, ou por ins nto, ou por acaso, fora pela rua Mondétour. Graças ao seu uniforme de guarda nacional, passara sem dificuldade.

A vedeta postada pelos insurgentes na rua Mondétour não dera sinal de alarme, por causa de um só guarda nacional. Deixara-o internar-se na rua, dizendo:

— É provavelmente um reforço, e quando menos um prisioneiro.

A ocasião era demasiadamente grave para que a sen nela pudesse distrair-se do seu dever e do seu posto de observação.

No momento em que Jean Valjean entrara no reduto, ninguém dera por ele, porque todas as vistas estavam fitas nos cinco escolhidos e nas cinco fardas. Jean Valjean vira e ouvira tudo e, silenciosamente, despira a farda e lançara-a para o lugar em que estavam as outras.

A sensação foi indescritível.

— Quem é aquele homem? — perguntou Bossuet.

— É um homem que salva os outros — respondeu Combeferre.

Mário acrescentou com voz grave:

— Conheço-o.

Esta fiança satisfez todos.

Enjolras voltou-se para Jean Valjean e exclamou:

— Cidadão, seja bem-vindo!

E acrescentou:

— Sabe que não tardaremos todos a morrer?

Jean Valjean, sem responder, ajudou o insurgente a quem salvara, a vestir a sua farda.

V — O horizonte que se avista do alto de uma barricada

A situação de todos, naquela hora fatal e naquele lugar inexorável, nha como resultante e como auge a suprema melancolia de Enjolras.

Enjolras era a plenitude da revolução, sem, todavia, deixar de ser incompleto, até o ponto que o pode ser o absoluto; par cipava demasiado de Saint Just e de Anacharsis Clootz menos que o suficiente: o seu espírito, porém, no meio da sociedade dos Amigos do ABC, viera, por úl mo, a sofrer uma magne zação das ideias de Combeferre; havia algum tempo que ele saía das estreitas formas do dogma e abraçava as dilatações do progresso, até, por úl mo, chegar a aceitar, como evolução defini va e magnífica, a transformação da grande república francesa em imensa república humana. Pelo que respeita aos meios imediatos, dada uma situação violenta, queria que os meios também fossem violentos; era a sua opinião invariável, opinião pela qual se vê que o mancebo pertencia à épica e terrível escola resumida pela única palavra: «Noventa e três».

Achava-se Enjolras de pé, no alto da barricada, com um dos cotovelos apoiado no

cano da sua clavina. Meditava. De espaço a espaço estremecia, como ao contacto de algum desconhecido sopro. As mansões da morte produzem destes efeitos de tripeça. Ao ver-lhe os olhos cheios da intuição ín ma, dir-se-ia que saíam deles uns como fogos abafados. De repente, o mancebo levantou a cabeça, deitando para trás os louros cabelos, como o anjo na sombria quadriga formada de estrelas ou leão que eriça a juba em flamejar de auréola, e exclamou:

— Cidadãos! Acaso imaginais o que há-de vir a ser o futuro? Eu vo-lo digo. Serão as ruas das cidades inundadas de luz, os ramos verdes nos limiares das portas, as nações irmãs, os homens justos, os velhos abençoando as crianças, o passado amando o presente, os pensadores em completa liberdade, os crentes em plena igualdade, o céu como religião. Deus sacerdote directo, a consciência humana transformada em altar, o termo dos ódios, a fraternidade entre a oficina e a escola, por penalidade e recompensa a notoriedade, para todos o trabalho, para todos o direito, a paz sobre todos, o termo das guerras, o fim das violências, a felicidade das mães; eis o que será o futuro! O

primeiro passo é subjugar a matéria, o segundo realizar o ideal. Reflec no que o progresso já tem feito. Noutro tempo, as primeiras raças humanas viam com terror passar por diante de si a hidra soprando sobre as águas, o dragão vomitando chamas, o grifo, que era o monstro do ar, voando com asas de águia e garras de gre; animais terríveis, superiores ao homem. O homem, porém, armou os seus laços, os sagrados laços da inteligência, e conseguiu, afinal, apanhar neles os monstros. A hidra já a subjugámos, e chama-se vapor; já subjugámos o dragão, que se chama locomo va; e estamos em vésperas de subjugar o grifo, que já temos seguro, e que se chama balão. No dia em que terminar esta obra prometeana e em que o homem ver defini vamente ligada à sua vontade a tríplice Quimera an ga, a hidra, o dragão e o grifo, ficará senhor da água, do fogo e do ar, e será para o resto da criação animada o que, outrora, eram para ele os an gos deuses. Ânimo e avante! Cidadãos! Para onde vamos? Que des no é o nosso? A ciência feita governo, a força das coisas tornada única força pública, a lei natural com a sua sanção e a sua penalidade em si mesma, e promulgando-se pela evidência; um alvorecer de verdade correspondente ao alvorecer do dia. O nosso des no é a união dos povos; a unidade do homem. Basta de ficções e de parasitas. A realidade governada pela verdade, eis o alvo. A civilização terá o seu tribunal no cume da Europa, e mais tarde, no centro dos con nentes, num grande parlamento formado pela inteligência. Já não é caso novo. Os anfic ões nham duas sessões por ano, uma em Delfos, sede dos deuses, outra nas Termópilas, sede dos heróis. A Europa terá também os seus anfic ões; tê-los-á o globo; é a França que traz no seio este futuro sublime. Eis qual é a gestação do século XIX. O que a Grécia apenas esboçou é digno de ser concluído pela França. Escuta-me tu, Feuilly, valoroso operário, homem do povo, homem dos povos! Venero-te! Sim, tu vês claramente os tempos por vir; sim, tu tens razão. Não nhas pai nem mãe, mas adoptaste por mãe a humanidade, por pai o direito, e por eles vais morrer aqui, isto é, triunfar. Cidadãos, aconteça hoje o que acontecer, ou sejamos derrotados ou fiquemos vencedores, é uma revolução que vamos fazer! Assim como os incêndios alumiam uma cidade inteira, as revoluções alumiam todo o género humano.

Que revolução faremos? Ainda agora o disse — a revolução da verdade. Poli camente falando, não há mais do que um princípio — a soberania do homem sobre si mesmo.

Essa soberania de mim e sobre mim chama-se Liberdade. Onde duas ou mais destas soberanias se associam principia o Estado. Nesta associação, porém, não se dá abdicação de qualidade nenhuma. Cada soberania concede certa quan dade de si mesma para for mar o direito comum, quan dade que não é maior para uns do que para os outros. Esta iden dade de concessão que cada um faz a todos chama-se Igualdade. O direito comum não é mais do que a protecção de todos dividida pelo direito de cada um. Esta protecção de todos sobre cada um chama-se Fraternidade. O ponto de intersecção de todas estas soberanias que se agregam chama-se Sociedade, Ora, sendo essa intersecção uma junção, por consequência esse ponto é um nó. Daqui vem o que nós chamamos laço social. Dizem alguns «contrato social», o que vem a ser o mesmo, visto que a palavra contrato é e mologicamente formada com a ideia de laço. Vejamos agora O que é a igualdade, pois se a liberdade é o cume, a igualdade é a base. A igualdade, cidadãos, não é o nivelamento de toda a vegetação; uma sociedade de grandes cânulas de erva e pequenos carvalhos; um tecido de invejas; é, civilmente, a admissão de todas as ap dões; poli camente, o mesmo peso para todos os votos. A igualdade tem um órgão; a instrução gratuita e obrigatória. Principie-se pelo direito ao alfabeto, seja a lei a escola primária imposta a todos, a escola secundária oferecida a todos. Da escola idên ca sai a sociedade igual. Sim, instrução! Luz e mais luz! Tudo vem da luz e para ela volta!

Cidadãos, o século XIX é grande, mas o século XX será venturoso, porque então não haverá nada parecido com a história an ga; não haverá a temer, como hoje, uma conquista, uma invasão, uma usurpação, uma rivalidade de nações à mão armada, uma interrupção de civilização dependente de um casamento de reis, um nascimento nas ranias hereditárias, uma par lha de povos por meio de um congresso, um desmembramento por desabamento de dinas a, um combate entre duas religiões encontrando-se de frente, como dois bodes da sombra na ponte do infinito; não haverá a temer a fome, a especulação, a pros tuição resultante da miséria, a miséria resultante da falta de trabalho, o cadafalso, a espada, as batalhas e todos os latrocínios do acaso na floresta dos acontecimentos. Quase se pode dizer que para então não haverá acontecimentos. Serão felizes todos. O género humano cumprirá a sua lei, como o globo cumpre a sua; restabelecer-se-á a harmonia entre a alma e o astro; a alma gravitará em roda da verdade como o astro em volta da luz. Amigos, a hora em que estamos e em que vos falo é uma hora sombria, mas é por este preço que se compra o futuro. Uma revolução é um direito de portagem que se paga. Oh, a humanidade há-de ser libertada, exaltada, consolada! Afirmamos-lho nós nesta barricada. De onde se soltará o grito de amor, a não ser do alto do sacri cio? Ó meus irmãos, é este o lugar de junção dos que pensam e dos que padecem; esta barricada não é feita nem, de pedras, nem de traves, nem de ferro; é feita de dois montões — um de ideias e outro de dores — nos quais a miséria se choca com o ideal e o dia abraça a noite, dizendo-lhe: «Eu vou morrer con go e tu vais renascer comigo». Do abraço de todas as angús as resulta a fé. Os sofrimentos vêm aqui trazer a sua agonia e as ideias a sua imortalidade. Essa agonia e essa imortalidade não tardarão a confundir-se para formar a nossa morte. Irmãos, quem aqui morre, morre na irradiação do futuro, e o túmulo em que vamos entrar é inundado pelos clarões de uma aurora plena!