Os Miseráveis
IX — Jondrette quase que chora
Só quem já amou é que sabe todos os sen dos esplendorosos que encerram as quatro letras desta palavra: «Ela»
Era ela, com efeito. Mário mal a dis nguia por entre o vapor luminoso que subitamente Se lhe formara diante dos olhos. Era essa mesma doce criatura que ele há tanto tempo não tornara a ver, o astro que por espaço de seis meses vira luzir, aqueles olhos, aquela fronte, aquela boca, aquele rosto, que lhe fugira, deixando após si as trevas. Eclipsara-se a visão e reaparecia agora. Reaparecia no meio daquelas trevas, daquela mansarda, daquele hediondo albergue, no meio daquele horror!
Mário sen a todo o corpo agitado de um tremor convulso! As palpitações do coração perturbavam-lhe a vista. Sen a-se quase a ponto de desatar a chorar. Oh, vê-la depois de a ter procurado tanto tempo baldadamente! Era como se vesse perdido a alma e a tornasse a achar naquele momento!
A jovem estava no mesmo estado, apenas um tanto mais pálida; encaixilhava-lhe o delicado rosto um chapelinho de veludo cor de violeta, ocultava-lhe a cintura um mantelete de ce m preto. Por baixo do comprido ves do, mal se lhe divisava o pequenino pé, apertado numa botinha de seda.
O seu companheiro era ainda o senhor Leblanc.
Apenas entrou, a jovem deu alguns passos e foi pousar em cima da mesa uma trouxa
que trazia na mão.
A filha mais velha de Jondre e escondera-se atrás da porta, e daí contemplava com sombrio olhar aquele chapelinho de veludo, aquela manta de seda e aquele formoso rosto cheio de graça e meiguice.
IX — Jondrette quase que chora A mansarda era tão escura que as pessoas que entravam ficavam como se vessem entrado num subterrâneo. Os dois recém-chegados adiantaram-se, portanto, com certa hesitação, dis nguindo apenas em torno de si umas formas vagas, ao passo que eles eram perfeitamente vistos e examinados pelos olhos dos moradores da mansarda, afeitos àquele crepúsculo.
O senhor Leblanc aproximou-se de Jondre e com o seu olhar cheio de tristeza e bondade e disse-lhe:
— Nesta trouxa encontrará alguma roupa nova e cobertores de lã.
— O nosso angélico benfeitor confunde-nos com a sua bondade! — disse Jondre e, inclinando-se até ao chão.
E acrescentou em seguida, em voz baixa e rapidamente, inclinando-se ao ouvido da filha, enquanto os dois visitantes examinavam o triste albergue:
— Que dizia eu? Farrapos! Dinheiro, nada! São todos o mesmo! É verdade, que assinatura levava a carta que entregaste a este casmurro?
— Fabantou — respondeu a filha.
— Artista dramático, bom.
Foi o que valeu a Jondre e, porquanto neste momento o senhor Leblanc voltava-se para ele e dizia-lhe com modo de quem queria saber-lhe o nome:
— Vejo que é digno de toda a compaixão, senhor...
— Fabantou — respondeu imediatamente Jondrette.
— Senhor Fabantou, é verdade; é isso mesmo. Agora me recordo.
— Artista dramático, que o público bastantes vezes aplaudiu.
Neste ponto, julgou Jondre e que era, sem dúvida, chegada a ocasião de se insinuar no coração do «filantropo», e por isso exclamou num tom de voz ao mesmo tempo impregnada da jactanciosa arrogância do pelo queiro nas feiras e da súplice humildade do mendigo nas estradas reais:
— Discípulo de Talma, senhor! Eu sou discípulo de Talma! Sorriu-me a fortuna noutro tempo, mas agora vejo-me a braços com a desgraça. Ora veja, meu benfeitor, nem lume, nem pão! Aquelas pobres crianças a ritar de frio! A única cadeira que nha, naquele estado que vê, toda arrombada! Os vidros da janela quebrados, com semelhante tempo!
Minha mulher deitada ali naquela cama , a arder em febre. Coitada! — disse o senhor Leblanc.
— Esta minha filha com um dedo esmagado! — acrescentou Jondrette.
A pequena, distraída com a chegada de duas pessoas desconhecidas para ela, pusera-se a contemplar a «menina» e cessara de chorar.
— Tu choras ou não choras? Berra para aí com força! — disse-lhe Jondre e em voz baixa.
Ao mesmo tempo deu-lhe um beliscão na mão em que a pequena se cortara, fazendo todos estes movimentos com uma habilidade de escamoteador.
A pequena principiou a chorar em altos gritos.
A adorável jovem, que Mário no seu coração chamava «a sua Úrsula» aproximou-se dela e disse:
— Coitadinha da criança!
— Ora veja como ela tem a mão cheia de sangue, minha querida menina! —
prosseguiu Jondre e. — Aconteceu-lhe esse desastre na roda de uma máquina em que trabalhava para ganhar seis tristes soldos por dia! Talvez tenha de lhe cortar o braço!
— Na verdade! — disse o velho, assustado.
A pequena, que tomou a coisa a sério, desatou a chorar ainda com mais força.
— É verdade, meu benfeitor. Ainda mais essa desgraça, como se as que já sofremos fossem poucas!
Havia alguns instantes que Jondre e contemplava «o filantropo» de um modo estranho. Ao mesmo tempo que falava, parecia perscrutá-lo com atenção, como se tentasse reunir as suas reminiscências. De súbito, aproveitando a ocasião em que os recém-chegados dirigiam algumas perguntas à pequena a respeito do ferimento da mão, aproximou-se da mulher, que jazia na cama com ar de pasmo e consternação, e disse-lhe rapidamente, em voz que só ela ouvisse:
— Ora olha bem para este homem!
E em seguida acrescentou, dirigindo-se para o senhor Leblanc e prosseguindo nas suas lamentações:
— Veja isto, senhor; a minha roupa cifra-se nesta camisa de minha mulher, toda rota, no rigor do Inverno! Nem saio, por não ter que ves r! Se eu vesse um casaco, ainda que fosse fraco, já nha ido procurar Mademoiselle Mars, que me conhece e é muito minha amiga. Ela não mora ainda na Rua da Torre das Damas? Já representámos ambos na província e eu par cipei dos louros que ela colheu. Celimena não me deixava sem protecção! Elmina não negaria esmola a Belisário! Mas nada, nem um triste soldo nesta casa! Minha mulher doente e nem um soldo! Minha filha perigosamente ferida e nem um soldo! Minha mulher padece muito de sufocação. A idade, e, além da idade, o sistema nervoso, são a causa dos seus padecimentos. Precisava de socorros, bem como minha filha. Mas onde arranjar dinheiro para o médico e para o bo cário? Nem um soldo tenho de meu! Aqui tem ao que as artes chegaram! E quer saber, minha encantadora menina, e o senhor, meu generoso protector, querem saber os senhores, que respiram a virtude e a bondade e perfumam a igreja onde minha filha todos os dias os vê, quando vai fazer as suas orações? Pois eu cá educo minhas filhas na religião, senhor, e não quis que elas abraçassem a carreira teatral. De quantas sei eu que não deram boa conta de si em semelhante vida? Por isso é que eu não quis. Às vezes ponho-me a pregar-lhe sermões sobre a honra, sobre a moral e a virtude. Podem perguntar-lho.
Eu gosto de ver caminhar as coisas como deve ser. Para isso têm pai, e eu não costumo ser de meias medidas no tocante à educação de minhas filhas. Elas não são dessas infelizes que principiam por não ter família e acabam por desposar o público. Essas tais
hoje são meninas. Ninguém e daí a poucos dias já estão senhoras. Toda a gente! Anjo bento! Não quero cá disso na família! Cá o meu fito é educá-las virtuosamente para que sejam honestas, creiam em Deus e tenham a verdadeira formosura, que é a da alma!
Mas quer que lhe diga o que amanhã me acontecerá? Amanhã é o dia 4 de Fevereiro, o dia fatal, o úl mo prazo que me concedeu o senhorio, e, por conseguinte, se eu esta tarde não lhe apronto o dinheiro, amanhã, eu, minha mulher doente como está, minha filha mais velha, a mais nova, apesar do seu grave ferimento, seremos todos expulsos desta casa para fora, postos no meio da rua, sem abrigo, para aí à chuva, ao frio e à neve! Aqui tem o meu benfeitor a desgraça que me espera. Devo quatro trimestres, um ano, ou sessenta francos, que tudo vem a dar na mesma!
Jondre e men a. Os quatro trimestres importavam em quarenta francos; além de que, ele não podia dever quatro, pois havia seis meses que Mário pagara dois por ele.
O senhor Leblanc tirou do bolso cinco francos e deitou-os em cima da mesa.
Jondrette aproveitou o ensejo para murmurar ao ouvido da filha mais velha:
— Sovina! Que quer ele que eu faça com os seus cinco francos! Cinco francos não me dão para a cadeira nem para o vidro! Vá lá um homem despender para colher um resultado assim!
Neste meio tempo, o senhor Leblanc rou um amplo casacão pardo que trazia por cima do seu casaco azul e deitou-o sobre as costas da cadeira.
— Senhor Fabantou — disse ele — não trago comigo senão estes cinco francos, mas eu vou levar minha filha a casa e volto à noi nha. Não é hoje que tem de apresentar o dinheiro?
O rosto de Jondrette iluminou-se de um estranho clarão e respondeu rapidamente:
— Sim, senhor, meu respeitável protector! Às oito horas hei-de estar com o dinheiro em casa do senhorio. Pois às seis horas eu aqui estarei com os sessenta francos.
— Oh, meu benfeitor! — exclamou Jondrette com toda a efusão.
E acrescentou em voz baixa para a mulher:
— Repara bem nele.
Leblanc oferecera o braço à sua linda filha e voltara-se para a porta.
— Até à noite, meus amigos — disse ele.
— Às seis horas? — disse Jondrette.
— Às seis em ponto.