Os Miseráveis
III — Requiescat
E m 1815, a esposa de Pontmercy, senhora realmente admirável, espírito elevado e raro, e digna de seu marido, falecera, deixando um filho. Este filho teria sido a alegria do coronel na sua solidão; mas o avô reclamara imperiosamente seu neto, declarando que se lho não entregassem, o deserdaria. O pai cedera no interesse do filho e passara a amar as flores.
Pontmercy, que renunciara a tudo sem resistência nem murmúrio, dividia o seu pensamento entre as coisas inocentes que fazia e as grandes coisas que fizera. Passava todo o seu tempo a esperar o reflorir dos seus cravos ou embebido nas recordações de Austerlitz.
Gillenormand não man nha relações de espécie nenhuma com seu genro. Para ele, o coronel era «um bandido», e ele para o coronel «um pedaço de asno». O bom velho nunca falava dele a não ser para fazer zombeteiras alusões ao «seu baronato». Tinham expressamente ajustado que Pontmercy nunca tentaria ver seu filho nem falar-lhe, sob pena daquele lho tornar a entregar, expulso para sempre e deserdado.
Segundo esse contrato, Pontmercy, que para Gillenormand e sua família era um empestado, deixaria o sistema da educação de seu filho inteiramente à escolha dele.
Talvez o coronel não andasse bem em aceitar tais condições, mas julgava ele que fazia bem e que só a si se sacrificava, e por isso aceitou.
A herança que por morte de Gillenormand viria a tocar ao filho de Pontmercy, era pequena, mas não assim a de sua filha mais velha, que era considerável, por ela ser riquíssima pela parte materna, e o filho de sua irmã o seu herdeiro natural. A criança, que se chamava Mário, sabia que nha pai e nada mais. Ninguém lhe dizia uma só palavra a tal respeito. Não obstante, com o andar do tempo, os segredinhos, as meias palavras, o piscar de olhos das pessoas que cons tuíam as sociedades a que seu avô o levava, nham-lhe aclarado o espírito e feito perceber por úl mo alguma coisa, e como naturalmente e por uma espécie de infiltração e lenta penetração ele recebia as ideias e opiniões, que, para assim dizer, cons tuíam o seu meio respirável, viera por úl mo a não lembrar-se de seu pai senão com vergonha e dolorosa impressão.
Enquanto ele assim crescia, o coronel de três em três meses saía fur vamente de casa e vinha a Paris, como um preso fugido que evita as garras da jus ça, onde, apenas chegava, ia postar-se na igreja de S. Sulpício, à hora em que a filha de Gillenormand levava seu sobrinho à missa, e daí contemplava seu filho, tremendo com receio de que a a de Mário se voltasse, escondido por trás de um pilar, imóvel, com a respiração comprimida. Tinha medo daquela velha este homem, que assistira a tantos combates.
Daqui foi que se originaram as suas relações com o padre Mabeuf, abade de Vernon.
Este digno eclesiás co era irmão do sacristão de S. Sulpício, que muitas vezes nha feito reparo naquele homem contemplando seu filho, e na cicatriz que ele nha no rosto e nas lágrimas fur vas que lhe marejavam dos olhos. Impressionara-o a vista daquele homem valente que chorava como uma mulher, a ponto de nunca se lhe varrerem da memória as suas feições. Um dia, estando em Vernon, aonde fora visitar seu irmão, encontrou-se na ponte com o coronel Pontmercy e reconheceu o homem de S. Sulpício.
Contou então a história ao abade e ambos foram visitar o coronel sob o pretexto que primeiro lhes lembrou, visita a que se seguiram outras. O coronel, que a princípio se mostrara sobremodo reservado, veio por úl mo a desabafar, e tanto o abade como o sacristão de S. Sulpício chegaram a saber toda a história e o modo como Pontmercy sacrificava a sua ventura ao futuro de seu filho. Isto deu lugar a que o abade daí por diante principiasse a tratá-lo com o maior respeito e afeição, e que pela sua parte o coronel também se afeiçoasse ao abade. Quanto mais não há quem mais facilmente se penetre e amalgame do que um padre velho e um velho soldado, quando ambos são sinceros e dotados de bons sen mentos. No fundo, são um e o mesmo homem. Um dedicou-se pela pátria terrena, outro pela celeste; a diferença é só esta.
Mário escrevia a seu pai duas vezes por ano, no primeiro de Janeiro e dia de S. Jorge.
Eram cartas de cumprimentos ditadas por sua a, mas que pareciam copiadas de algum formulário; era quanto tolerava Gillenormand; o pai respondia com outras afectuosíssimas, que o avô metia no bolso sem sequer as ler.
III — Requiescat
O salão de Madame de T.., era tudo quanto Mário de Pontmercy conhecia no mundo, a única abertura pela qual podia ver a vida, mas abertura sombria por onde recebia mais frio do que calor, mais escuridão do que claridade.
Esta criança, que, quando principiou a frequentar aquela estranha sociedade, era toda
alegria e luz, dentro em pouco tornou-se triste, e, o que ainda é mais impróprio desta idade, grave.
Ao ver-se rodeado de todas aquelas pessoas respeitáveis e singulares, circunvagava a vista em torno de si com ar espantado e ao mesmo tempo sério. Tudo contribuía para lhe aumentar esse seu pasmo. Frequentavam o salão de Madame de T... algumas senhoras idosas, respeitáveis, pertencentes à nobreza, chamadas Mathan, Noé, Levis, que se pronunciava Levi, Cambis, que se pronunciava Cambyse. Aqueles rostos an gos e estes nomes bíblicos misturavam-se no espírito dele com o que aprendia de cor no seu compêndio do An go Testamento, e quando todas elas se achavam sentadas em volta do fogão quase apagado, à mor ça claridade de um candeeiro, velado por um pára-luz de cor verde, que apenas deixava entrever as suas figuras severas, os seus cabelos russos ou brancos, os seus compridos ves dos de outro tempo, de que mal se dis nguiam as lúgubres cores, pronunciando de espaço a espaço palavras majestosas ou severas, o pequeno Mário contemplava-as com olhar desvairado, julgando ver, não mulheres, mas patriarcas e magos, não seres reais, mas fantasmas.
A estes fantasmas juntavam-se ainda muitos padres frequentadores daquele salão, e grande número de fidalgos como o marquês de Sassenay, secretário de Madame de Berry; o visconde de Valory, que sob o pseudónimo de Carlos António publicava odes monorimas; o príncipe de Beauffremont, que conquanto ainda muito novo, nha os cabelos russos, e uma mulher bonita e espirituosa, que com os seus ves dos de veludo escarlate e alamares de ouro, sumamente decotados, deixava atónitas aquelas trevas; o marquês de Coriolis de Espinouse, o homem de França que melhor sabia «as proporções da civilidade»; o conde de Amendre, pobre homem, com cara de paz de alma; e o cavaleiro de Port de Guy, pilar da biblioteca do Louvre, chamada o gabinete do rei. O
senhor de Port Guy, calvo e com mais indícios de ter envelhecido do que de ser velho, contava que em 1793, tendo ele então dezasseis anos, havia sido condenado às galés como refractário, onde o seu companheiro de grilheta era o bispo de Mirepoix, também refractário, mas este como padre, ao passo que ele era-o como soldado. Consis a a sua tarefa nas galés em ir de noite buscar ao cadafalso as cabeças e os corpos dos que de dia eram guilho nados. Carregavam com aqueles corpos ensanguentados e as suas vés as vermelhas de forçados nham nas costas uma crusta de sangue, pela manhã seca, mas à noite húmida.
Eram frequentes no salão de Madame de T... estas histórias trágicas e à força de maldizerem Marat aplaudiam Trestaillon. Ali iam jogar a sua par da de whist alguns deputados sem par, como Thibord du Chalard, Lemarchant Gomicourt e o célebre deputado epigramá co da direita Cornet-Dincourt. Via-se às vezes naquele salão o balio de Ferre e, com os seus calções curtos e perninhas delgadas, de caminho para casa do senhor de Talleyrand. O balio nha sido o companheiro de prazer do conde de Artois, e, ao inverso de Aristóteles, posto de cócoras sobre Campaspe, fizera andar a Guimard sobre as mãos e os pés, mostrando assim aos séculos a desforra de um filósofo feita por um balio.
Quanto aos padres, era o abade Halma o mesmo a quem Larose, seu colaborador no
Raio, costumava dizer: «Ora adeus! Quem não tem cinquenta amos? Só alguns desses pintalegretes que por aí andam». O abade Letourneur, pregador régio, o abade Frayssinous, que ainda não era conde, nem bispo, nem ministro, nem par, e que andava com uma ba na velha e sem botões, e o padre Keravenant, abade de S. Germain-des-Prés; além destes, o núncio do Papa, que então era Monsenhor Macchi, arcebispo de Nisibis, depois cardeal, e notável pelo seu comprido nariz de homem meditabundo, e outro Monsenhor in tulado abbate Palmieri, prelado domés co, um dos sete protonotários par cipantes da Santa Sé, cónego da insigne basílica de S. Libério, advogado dos santos, postulatore di santi, o que se refere aos negócios da canonização e pouco mais ou menos quer dizer referendário da secção do paraíso. Finalmente, dois cardeais, os senhores de la Luzerne e de Clermont-Tonnerre. O senhor de la Luzerne era escritor, e mais tarde devia ter a honra de assinar no Conservador a par de Chateaubriand; o senhor de Clermont-Tonnerre era arcebispo de Tolosa e vinha frequentes vezes a Paris passar algum tempo de folga em casa de seu sobrinho, o marquês de Tonnerre, que foi ministro da marinha e da guerra.
O cardeal de Clermont-Tonnerre era um velho prazenteiro que gostava de arregaçar a ba na para deixar ver as suas meias encarnadas; o seu forte consis a em odiar a Enciclopédia e jogar o bilhar, de que era apaixonadíssimo; de modo que as pessoas que naquele tempo passavam nas noites de Verão pela rua de Madame, onde era então o paço de Clermont-Tonnerre, paravam para ouvir o choque das bolas e a voz aguda do cardeal, que gritava ao seu conclavista, Monsenhor Co ret, bispo in par bus de Caryste:
«Marque lá esta carambola, abade».
O cardeal de Clermont-Tonnerre nha sido apresentado no salão de Madame T... pelo seu amigo mais ín mo, senhor de Roquelaure, an go bispo de Senlis e um dos quarenta da academia. O senhor de Roquelaure era respeitável pela sua elevada estatura e pela sua assiduidade na academia; através da porta envidraçada da sala, onde a academia celebrava então as suas sessões, podiam os curiosos contemplar todas as quintas-feiras o an go bispo de Senlis, de ordinário de pé, com os cabelos empolvilhados, de meias roxas, e com as costas voltadas para a porta, talvez, segundo parecia, para melhor mostrar o bordado da volta.
Todos estes eclesiás cos, posto que, pela maior parte, nham tanto de cortesãos como de padres, aumentavam a gravidade do salão de Madame de T..., cujo aspecto senhorial acentuavam cinco pares de França, o marquês de Vibraye, o marquês de Talaru, o marquês de Herbouville, o visconde de Dambray e o duque de Valentinois.
Este duque de Valen nois, posto que príncipe de Mónaco, isto é, príncipe soberano estrangeiro, fazia tão elevada ideia da França e do pariato, que via tudo através dele. Era ele que dizia: «Os cardeais são os pares de França de Roma, os lords são os pares de França de Inglaterra». Não obstante tudo isto, aquele salão feudal, visto que neste século em tudo mete mão a revolução, era dominado, como já dissemos, por um burguês, por Gillenormand, que era quem nele reinava.
Era aquela a essência e quinta essência da sociedade branca de Paris, que só após a permanência em quarentena dava entrada às grandes reputações, mesmo realistas que
fossem. Nas reputações há sempre anarquia. A entrada de Chateaubriand ali produziria o mesmo efeito que a do padre Duchène. Todavia, eram por tolerância admi dos naquela ortodoxa sociedade alguns trânsfugas conversos, um dos quais era o conde Beugnot, como que recebido em castigo.
Os salões «nobres» do tempo de agora não têm semelhança nenhuma com aqueles. O
bairro de S. Germano de hoje cheira a patarata. Os realistas de agora, digamo-lo para honra sua, são demagogos.
Como a sociedade que frequentava o salão de Madame de T... era superior, também o gosto era fora do comum e desdenhoso, sob capa de polido. Os seus costumes eram acompanhados de toda a espécie de requintes involuntários que cons tuíam o an go regime, enterrado, mas vivo ainda. Alguns desses costumes, sobretudo na linguagem, pareciam extravagantes, a ponto que os conhecedores superficiais tomariam por provincianismo o que não era mais que vetustez.
Chamava-se a uma dama senhora generala. Senhora coronela também não era inteiramente desusado. A encantadora Madame de Leon, decerto em memória das duquesas de Longueville e de Chevreuse, preferia essa denominação ao seu tulo de princesa. A marquesa de Crequy também tinha adoptado o nome de senhora coronela.
Foi esta pequenina sociedade alta a que inventou nas Tulherias o requinte de dizer, falando com o rei em par cular, el-rei na terceira pessoa, e nunca vossa majestade, visto ter sido manchado pelo usurpador este segundo tratamento.
Ali eram julgados os factos e os homens e se escarnecia do século, o que dispensava de compreendê-lo. No pasmo auxiliavam-se mutuamente e uns aos outros comunicavam as luzes que cada um possuía. Era Matusalém explicando o que sabia a Epiménides, o surdo pondo o cego ao facto do que se passava. O tempo decorrido desde Coblentz não se contava. Do mesmo modo que Luís XVIII por graça de Deus, se achava no vigésimo quinto ano do seu reinado, os emigrados também de direito estavam no vigésimo quinto ano da sua adolescência.
Era um todo harmónico; ninguém vivia de mais; a palavra era apenas um sopro; o jornal, de acordo com o salão, parecia um papiro. Havia mancebos ali, mas estavam meios mortos. As librés da antecâmara mostravam claramente os estragos do tempo. Aqueles personagens, imagens do passado, eram servidos por criados da mesma espécie.
Tinham todos o aspecto de quem viveu há muito e que se obs na contra o sepulcro.
Conservar, Conservação, Conservador, eis no que, com pequena diferença, consis a o seu dicionário; estar bem ou mal conceituado, o que exprimiam por estar em bom ou mau cheiro, era toda a questão. Efec vamente, havia aromas nas opiniões daqueles veneráveis grupos e as suas ideias cheiravam a vergamota. Era uma sociedade de múmias. Os amos estavam embalsamados, os criados empalhados.
Uma marquesa velha, emigrada e sem nada de seu, apesar de não ter senão uma criada, continuava a dizer: «Os meus criados».
Que faziam estes personagens no salão de Madame de T...?
Eram ultras.
Ser ultra; esta frase, apesar de não ter ainda desaparecido aquilo que ela representa,
não é hoje, todavia, bem compreendida. Desçamos a explicações.
Ser ultra quer dizer ir além. É atacar o ceptro em nome do trono e a mitra em nome do altar; é levar aos trambolhões o carro que se puxa, fazê-lo ir aos solavancos, em vez de o fazer rodar; é invec var a fogueira por causa da queima dos hereges; é censurar ao ídolo a sua pouca idolatria; é insultar por excesso de respeito; é achar no papa pouco papismo, no rei pouco realismo e luz de mais nas trevas; é não gostar do alabastro, nem da neve, nem do cisne, nem do lírio, e dizer que só gosta da brancura; é ser sectário de uma causa a ponto de se tornar inimigo dela; é ser tão forte a favor que se vem a ser contra.
O espírito ultra é o principal característico da primeira fase da restauração.
Não existe na história nada semelhante a esse quarto de hora que principiou em 1814
e terminou em 1820, com a subida ao poder do senhor de Villelle, o homem prá co da direita.
Estes seis anos foram um momento extraordinário, ao mesmo tempo ruidoso e sereno, risonho e sombrio, como que iluminado pelo clarão da aurora e simultaneamente coberto das trevas das grandes catástrofes, de que ainda se viam as sombras carregadas, escondendo-se lentamente nos horizontes do passado. No meio daquela luz e daquela sombra houve um mundozinho novo e velho, folgazão e triste, juvenil e senil, esfregando os olhos, porque não há nada mais parecido com o acordar do que o voltar; grupo que olhava para a França com gesto carrancudo e ao qual a França encarava com ironia; as ruas atulhadas de pobres mochos velhos feitos marqueses, dos que nham chegado e dos que vinham vindo, dos estupefactos «doutrora», de nobres e honrados fidalgos, que sorriam de se ver em França e ao mesmo tempo choravam; transportados de prazer por verem de novo a terra da pátria e desesperados por não tornarem a encontrar a sua monarquia; a nobreza das cruzadas olhando com desprezo a do império, quer dizer a nobreza da espada; as raças históricas deixando de entender a história; os filhos dos companheiros de Carlos Magno desdenhando dos companheiros de Napoleão. As espadas, como acabamos de dizer, insultavam-se mutuamente; a espada de Fontenoy tornou-se risível e apenas uma ferrugenta; a espada de Marengo tornou-se odiosa e apenas um sabre. Outrora esquecia-se de ontem. Não exis a já o sentimento do que era grande, nem o sentimento do que era ridículo.
Houve quem a Bonaparte chamasse Scapin. Esse inundo, porém, já não existe. Nada resta hoje dele, repe mos. Quando acaso evocamos dele alguma das suas figuras e tentamos fazê-la reviver pelo pensamento, parece-nos estranho como um mundo an -diluviano. É que efec vamente o mundo de que falamos ficou abismado por um dilúvio.
Desapareceu debaixo de duas revoluções. Que torrente a das ideias! Como ela cobre rapidamente o que tem por missão destruir e sepultar, e como cava depressa abismos terríveis!
Tal era a fisionomia dos salões desses cândidos tempos que já lá vão, nos quais Martainville tinha mais espírito do que Voltaire.
Estes salões nham uma literatura e uma polí ca propriamente sua. Os seus frequentadores acreditavam em Fievée e recebiam as leis de Agier. Faziam comentários a
Colnet, o publicista alfarrabista do cais Malaquais. Napoleão era unanimemente o Papa-gente da Córsega. Mais adiante a introdução na história do marquês de Bonaparte, tenente-general dos exércitos reais, foi uma concessão ao espírito do século.
Estes salões, porém, não permaneceram muito tempo no seu estado de pureza. Em 1818 começaram a despontar neles alguns doutrinários, sintoma assustador. O
caracterís co desses era serem realistas e desculparem-se de o serem. Daquilo que os ultras se ostentavam orgulhosos, mostravam-se os doutrinários alguma coisa envergonhados. Os doutrinários nham talento e eram calados quando convinha; o seu dogma polí co era temperado com suficiente dose de arrogância; nham de ser bem sucedidos. Abusavam, mas ul mamente, dos excessos da gravata branca e da casaca abotoada. Todo o mal ou toda a desgraça do par do doutrinário foi criar a juventude senil. Além do que temos dito, tomavam a tudes de sábios e todas as suas aspirações eram enxertar um poder temperado no princípio absoluto e excessivo. Opunham e algumas vezes com rara inteligência, ao liberalismo demolidor um liberalismo conservador. Frequentes vezes se lhes ouvia dizer: «Graças ao realismo que bastantes serviços nos prestou, conservando a tradição, o culto, a religião, o respeito! O realismo é fiel, honrado, cavalheiresco, dedicado, afectuoso, e ainda que forçadamente, vem unir às grandezas novas da nação as grandezas seculares da monarquia. Faz mal em não compreender a revolução, o império, a glória, a liberdade, as ideias novas, as novas gerações, enfim, o século. Mas o mal de que nós o acusamos, não poderia o realismo acusar-nos dele também? A revolução de que somos herdeiros, deve entender tudo.
Atacar o realismo é o contra-senso do liberalismo. Que erro e que cegueira! A França revolucionária faltando ao respeito à França histórica, quer dizer, a sua mãe, a si mesma!
Depois do 5 de Setembro trata-se a nobreza da monarquia como depois do 8 de Julho se tratava a nobreza do império. Eles foram injustos para com a água, nós somos injustos para com a flor de lis. Querem, visto isso, ter sempre alguma proscrição a fazer? Que u lidade há em desdourar a coroa de Luís XIV, em riscar o brasão de Henrique IV? Nós rimo-nos do senhor de Vaublanc, que riscava os NN da ponte de lena? E ele que fazia? O
que nós fazemos. Tanto nos pertence Bouvines como Marengo. Tão nossas são as flores de liz como os NN. É o nosso património. Para que havemos de cerceá-lo? Tão grande dever nos assiste de não renegarmos a pátria no passado, como de a não renegarmos no presente. Porque não havemos de querer toda a história? Porque não havemos de amar toda a França?»
Era assim que os doutrinários cri cavam e protegiam o realismo, que não gostava de se ver criticado e se enfurecia de se ver protegido.
Os ultras assinalaram a primeira época do realismo; a congregação caracterizou a segunda. À impetuosidade sucedeu a astúcia. Demos por concluído aqui este esboço.
No decurso da narração, o autor deste livro achou no seu caminho este momento curioso da história contemporânea; não pôde deixar de lhe lançar um olhar de passagem e reproduzir alguns dos lineamentos singulares desta sociedade hoje desconhecida. Fá-lo, porém, rapidamente e sem nenhuma ideia de azedume ou irrisão. São apenas recordações afectuosas e cheias de respeito, porque lhe fazem lembrar sua mãe e o