Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 100 de 359

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Os Miseráveis

IX — Thenardier em exercício

É sublime e suave coisa a esperança de uma criança que não conheceu nunca senão a desesperação.

Dentro do tamanco não havia coisa alguma.

O desconhecido meteu os dedos no bolso do colete, curvou-se, e deitou no tamanco de Cosette um luís de oiro.

Em seguida dirigiu-se para o seu quarto nos bicos dos pés.

IX — Thenardier em exercício

De madrugada, duas horas antes de romper o dia, Thenardier, sentado a uma mesa da sala de baixo da estalagem, com uma pena na mão, confeccionava, à luz de uma vela, a conta do viajante do casacão amarelo.

A mulher, de pé, meio curvada sobre ele, seguia com os olhos o que o marido escrevia. Não trocavam uma palavra. De um lado era a meditação profunda, do outro a admiração religiosa com que se vê nascer e desabrochar uma maravilha do espírito.

Este silêncio era apenas interrompido pelo ruído da Cotovia a varrer a escada.

Após um bom quarto de hora e de algumas raspaduras, Thenardier produziu a seguinte obra-prima:

CONTA DO HÓSPEDE DO N.º 9

Ceia — 3 francos

Quarto — 10 francos

Luz — 5 francos

Lume — 4 francos

Serviço — 1 francos

Total — 23 francos

Serviço estava escrito servisso.

— Vinte e três francos! — exclamou a mulher com um entusiasmo misturado de alguma hesitação.

Thenardier, porém, como todos os grandes artistas, não estava satisfeito da sua obra.

— Ora! — disse ele.

Era o mesmo acento de Castlereagh no congresso de Viena, redigindo a conta que a França devia pagar.

— Tu tens razão, Thenardier, por certo que só se lhe pede o que ele deve —

murmurou a mulher, que se lembrava da boneca dada a Cose e em presença das filhas

—, isso é justo, mas é de mais. Decerto o homem não há-de querer pagar.

Thenardier sorriu com o seu sorriso frio e disse para a mulher:

— Deixa que ele pagará.

Aquele seu riso era a suprema significação da autoridade e da confiança em si mesmo.

O que assim era dito, assim devia ser; por isso a mulher não insistiu.

Pôs-se a arrumar as mesas enquanto o marido passeava na sala de um lado para o outro. Após um instante, este acrescentou:

— O pior é eu dever mil e quinhentos francos!

E, depois de dizer isto, foi sentar-se próximo da chaminé com os pés nas cinzas quentes.

— É verdade! — replicou a mulher. — Não sei se te lembras que eu ponho hoje Cose e no andar da rua. Monstro! Faz-me arder em febre por causa da tal boneca!

Antes queria casar com Luís XVIII do que tê-la mais um só dia das portas para dentro!

Thenardier acendeu o cachimbo e respondeu entre duas baforadas:

— Entrega a conta ao homem.

E dizendo isto saiu.

Mal ele, porém, saíra a porta da sala, entrou nela o viajante.

Thenardier tornou logo atrás dele e ficou parado à porta, por entre a qual, como estava entreaberta, só a mulher o podia ver.

O homem do casaco amarelo trazia na mão o seu cajado e a trouxa.

— A pé tão cedo! — disse a Thenardier. — Então o senhor já nos deixa?

E, ao falar assim, virava a conta nas mãos com ar de embaraço, fazendo-lhe dobras com as unhas. Aquele rosto duro oferecia uma expressão que não lhe era habitual: a da midez e do escrúpulo. Apresentar semelhante conta a um homem que parecia realmente «um pobre» era para ela uma coisa difícil.

O viajante, que parecia preocupado e distraído, respondeu:

— É verdade, senhora, vou-me embora.

— Então o senhor não veio a Montfermeil para tratar de algum negócio?

— Nada, foi só de passagem simplesmente. Quanto é que lhe devo, senhora? —

acrescentou ele em seguida.

A Thenardier, em vez de responder, apresentou-lhe a conta dobrada.

O homem desdobrou o papel e correu-o com a vista; porém, a sua atenção estava visivelmente noutra parte.

— Então faz muito negócio aqui em Montfermeil? — tornou ele.

— Nem por isso, senhor! — respondeu a Thenardier estupefacta de não ver outra explosão da parte do viajante. — Depois prosseguiu, com acento lamentosamente elegíaco: — Oh, senhor, os tempos correm tão desgraçados. Está tudo por tal forma! E

depois há tão pouca gente de teres pelos nossos sí os! Como o senhor havia de reparar, são tudo fregueses que pouco gasto podem fazer. O que nos vale, assim mesmo, é algum passageiro generoso como o senhor, que vem lá de tempos a tempos. Se não fosse isso, não sei o que havia de ser de nós, às despesas que temos! Só a pequena fica-nos pelos olhos da cara...

— Que pequena?

— Ora! A pequena que o senhor sabe, Cose e! A Cotovia, como cá na terra lhe chamam.

— Ah! — disse o homem.

Ela continuou:

— Esta gente daqui é uma súcia de parvos com as tais alcunhas. Ela tem mais parecenças com um morcego do que com uma cotovia. Olhe, senhor, nós não vamos bater à porta de ninguém, mas... sabe Deus o que por cá vai. Não estamos em circunstâncias de fazer esmolas. O que ganhamos vai-se tudo para os credores; e se fora só para esses, mas os tributos? Tanto para estradas, tanto pela licença, tantos por cento por isto, mais tantos por cento para aquilo; o senhor bem sabe o horror de dinheiro que se vai para o governo! E no fim de tudo isto, ainda tenho as filhas para sustentar, tenho de sustentar-me a mim. Parece-me que não tenho necessidade nenhuma de estar a dar de comer a estranhos.

O homem replicou com aquela voz que ele tentava com esforço tornar indiferente, mas em que se denotava certo tremor:

— E se houvesse quem a livrasse dela?

— De quem, da Cosette?

— Sim.

A fronte vermelha e violenta da taberneira iluminou-se de um fulgor medonho, que se expandiu por toda ela.

— Ah, senhor, meu bom senhor! Pegue nela, leve-a, re-a, ensope-a, frite-a, beba-a, coma-a, e que a Virgem Santíssima e todos os santos do céu o guardem de perigos!

— Está dito.

— Deveras? Leva-a?

— Levo.

— Já?

— Já. Chame por ela.

— Cosette! — gritou a Thenardier.

— Entretanto — prosseguiu o homem — deixe-me pagar-lhe a minha conta. Quanto é?

O viajante deitou então um olhar para o papel e não pôde reprimir um movimento de surpresa:

— Vinte e três francos?! — E olhou para a taberneira, repe ndo: — Vinte e três francos?

No tom com que estas palavras foram repe das, havia o acento que separava o ponto de admiração do de interrogação.

A Thenardier, que vera tempo de se preparar para o choque, respondeu com desassombro:

— Vinte e três francos, sim, senhor, pois então?

O hóspede pôs cinco moedas de cinco francos em cima da mesa e disse à taberneira:

— Então vá buscar a pequena.

Neste momento, porém, o marido avançou para o meio da sala e disse ao homem do casacão:

— O senhor deve vinte e seis soldos.

— Vinte e seis soldos! — exclamou a mulher.

— Vinte soldos pela cama — con nuou o taberneiro friamente — e seis pela ceia.

Quanto à pequena, preciso de conversar um bocado com o senhor. — E acrescentou, voltando-se para a mulher: — Deixa-nos sós.

A Thenardier sen a um desses deslumbramentos que causam os imprevistos clarões do talento. Conheceu que entrava em cena o grande actor, e por isso saiu sem dizer uma palavra.

Apenas ficaram a sós, Thenardier ofereceu uma cadeira ao viajante. Este sentou-se e Thenardier ficou de pé, com uma singular expressão de bondade simples gravada no rosto.

— Olhe, senhor, vou dizer-lhe uma coisa: sou doido por esta criança.

O hóspede olhou fixamente para o estalajadeiro e perguntou:

— Qual criança?

Thenardier continuou:

— É uma tolice a gente tomar amizade às pessoas. Que me importa a mim este dinheiro? Pode guardar as suas moedas de cem soldos. O que eu adoro é aquela criança.

— Mas quem é? — perguntou o homem.

— Ora! É a nossa Cose e! Não é essa que o senhor nos quer levar? Pois digo-lhe com toda a franqueza dum homem honrado, que não posso consentir em semelhante coisa. É

uma criança que me há-de fazer muita falta: vejo-a desde muito pequenita. É verdade que nos custa dinheiro e que tem defeitos, é verdade que não somos ricos e pagámos mais de quatrocentos francos em drogas, só numa doença que ela teve! Mas a gente sempre há-de fazer alguma coisa pelo amor de Deus. É uma desgraçadinha que não tem pai nem mãe; criámo-la nós. Para mim e para ela sempre hei-de ter pão; e depois não posso separar-me da pequena. O senhor bem percebe o que é a gente ter afeição a uma pessoa; eu sou um pobre diabo, que não tenho raciocínio, mas que sou amigo desta criança; minha mulher tem mau génio, mas também a es ma. Bem vê, é como se fosse nossa filha. Não posso passar sem a sentir em casa.

O desconhecido continuou a olhar para o estalajadeiro, que continuou:

— O senhor há-de desculpar-me, mas bem vê que não se deve entregar assim uma criança a uma pessoa que se não conhece. Não é verdade que tenho razão? Ao mesmo tempo não digo que não; o senhor é rico, parece muito boa pessoa, e talvez seja para seu bem; mas assim mesmo é preciso vermos. O senhor bem percebe. Supondo que eu me sacrificasse e a deixasse ir, queria saber para onde ia, desejaria não a perder de vista e saber para casa de quem ia morar, para ir vê-la de vez em quando; era preciso que ela soubesse que seu pai adop vo não deixava de a ter na lembrança. Enfim, há coisas que não são possíveis. Eu não sei como o senhor se chama. O senhor levava-a, e depois, onde está a Cotovia? Para quem foi ela? Era preciso, ao menos, ver um bocado de papel qualquer; que diabo! A ponta de um passaporte, por exemplo...

O desconhecido, sem afastar do estalajadeiro o olhar que, por assim dizer, vai até ao fundo da consciência, respondeu-lhe com voz grave e firme.

— Senhor Thenardier, não se ra passaporte para vir a cinco léguas de Paris. Se levar Cose e, levá-la-ei e nada mais. O senhor nem saberá o meu nome, nem a minha morada, nem onde ela estará; a minha intenção é que ela não torne mais a vê-lo.

Quebrando-lhe o fio que a prende pelo pé, desaparecerá para sempre. Convém-lhe isto?

Sim ou não?

Pelo mesmo modo que os demónios e os génios reconheciam, por certos sinais, a presença de um deus superior, reconheceu Thenardier que tratava com quem quer que era muito poderoso.

Foi uma como intuição; compreendeu-o com toda a ni dez e sagacidade da sua percepção. Na véspera, bebendo, fumando e cantando com os fregueses, passara a noite a observar o desconhecido, espreitando-o como um gato e estudando-o como um matemá co. Espionara-o por sua conta, por gosto e ins nto, e igualmente como se para isso fora pago. Nem um gesto ou um só movimento do homem do casacão amarelo lhe escapara. Antes mesmo do desconhecido manifestar o seu interesse por Cose e, já Thenardier o

nha adivinhado, surpreendendo os de dos olhares que o velho

incessantemente deitava à criança. Em que se fundava tal interesse? Que homem era aquele? Porque trajava ele tão miseravelmente, com tanto dinheiro de seu?

Questões eram estas que ele a si mesmo propunha e que o irritavam, sem que conseguisse resolvê-las. Toda a noite meditara sobre este objecto. Não podia ser o pai de Cose e. Seria avô? Mas então porque razão se não dera logo a conhecer? Quem tem direitos, mostra-os. Era evidente: aquele homem não nha direitos nenhuns sobre Cose e. Então quem era? Thenardier perdia-se em suposições, porém não a nava com a saída do labirinto de dúvidas em que se lhe embrenhava o espírito. Entrevia tudo e não via nada. Fosse, porém, o que fosse, certo de que nisto havia algum segredo de que o homem nha interesse em não desvendar o véu em que se envolvia, sen ra-se forte ao encetar a conversa com ele; ao ouvir, porém, a clara e firme resposta do desconhecido, ao ver que aquele personagem misterioso era tão simplesmente misterioso, sen u-se fraco. Não esperava por semelhante coisa. Foi a derrota das suas conjecturas.

Reuniu, pois, todas as suas ideias, pesou tudo aquilo no espaço de um segundo.

Thenardier era desses homens a quem basta um relancear de olhos para ajuizarem de uma situação. Viu que era chegada a ocasião de caminhar depressa e direito ao alvo.

Fez como os grandes capitães no instante decisivo que só eles sabem conhecer deixou repentinamente a descoberto a sua bateria.

— Senhor — disse ele —, a pequena é sua, uma vez que me dê mil e quinhentos francos.