Os Miseráveis
VII — Depois de chegar ao seu destino, o viajante predispõe-se para tornar a partir
— Amanhã! — exclamou Fan ne. — Amanhã beijarei a minha Cose e! Vê, minha querida irmã? Já não estou doente. Sinto-me doida: era até capaz de dançar.
Quem a vesse visto um quarto de hora antes, não teria compreendido coisa alguma daquela mudança. A cor voltara-lhe às faces, falava num tom de voz natural, toda a sua fisionomia era um sorriso. Por momentos sorria-se, falando em voz baixa. É que o júbilo materno assemelha-se à alegria infantil.
— Está bem — disse a religiosa — agora que se sente feliz, é necessário que faça o que lhe digo: não fale mais.
Fantine deitou a cabeça no travesseiro e disse:
— Sim, deita-te, sê prudente, que vais ter a tua filha. A irmã Simplícia tem razão, todos aqui têm razão.
E depois, sem se mover, sem voltar a cabeça, pôs-se a olhar para todos os cantos, com os olhos muito abertos e com ar alegre, mas sem dizer mais nada. A irmã correu as cortinas, esperando que ela adormecesse.
Entre as sete e as oito horas voltou o médico. Não sen ndo o mínimo ruído, julgou Fan ne adormecida e entrou mansamente, aproximando-se do leito nos bicos dos pés.
Entreabriu as cor nas e à luz da lamparina viu os grandes e sossegados olhos de Fan ne que o fitavam.
— Não é verdade, senhor doutor, que a poderei ter ao pé de mim, numa cama pequenina?
O médico julgou-a em delírio. Fantine acrescentou:
— Há aqui exactamente lugar preciso para ela.
O médico chamou de parte a irmã Simplícia, a qual lhe contou o que se passara; contou-lhe que o senhor Madelaine se ausentara por um ou dois dias, e que, na dúvida, nham julgado ú l não desenganar a doente, que acreditava ter o senhor maire par do para Mon ermeil; que era, em suma, possível, que ela vesse adivinhado a verdade. O
médico aprovou o que nham feito. Em seguida, tornou a aproximar-se da cama de Fantine, que continuou:
— É que, de manhã, quando o pobre anjinho acordar, achar-me-á logo ao pé de si; e de noite, como eu não durmo, vê-la-ei dormir. Há-de fazer-me bem a sua respiração tão suave, tão doce.
— Dê-me a sua mão — disse-lhe o médico.
Fantine deitou o braço fora da roupa, exclamando e rindo ao mesmo tempo:
— Olhe, já não tenho nada, já estou boa. Cosette chega amanhã.
O médico ficou surpreendido. Estava com efeito, melhor. A opressão era menor. O
pulso estava regular. Aquele pobre ente exausto fora reanimado por uma espécie de vida inesperada.
— Senhor doutor, a irmã não lhe disse que o senhor maire foi buscar a minha jóia?
O médico recomendou-lhe silêncio e que evitasse todas as comoções possíveis.
Receitou-lhe também um calmante para o caso de a febre reaparecer durante a noite. A saída disse à irmã de caridade:
— Isto vai melhor. Se houvesse a felicidade do senhor maire chegar amanhã com a criança, quem sabe? Há crises espantosas; tem-se visto grandes alegrias fazer parar de repente doenças muito graves; bem sei que esta é uma doença orgânica e muito avançada, mas estas coisas são de tal modo misteriosas! Se a pequenita chegasse talvez a salvássemos.
VII — Depois de chegar ao seu destino, o viajante predispõe-se para tornar a partir
Eram quase oito horas da noite quando o carro que deixámos na estrada, entrou no pá o da estalagem da casa da posta, em Arras. O homem a quem seguimos até este
momento, apeou-se, correspondeu distraidamente à solicitude dos criados, mandou embora o cavalo que tomara de reforço, e conduziu pessoalmente o branco à cavalariça; depois empurrou a porta de uma sala de bilhar que havia no rés-do-chão, entrou, sentou-se e encostou-se a uma mesa.
Gastara catorze horas no trajecto que contara fazer em seis. Tinha a consciência de que não fora sua a culpa; mas no íntimo não se sentia desgostoso pela demora.
Pouco depois apareceu a dona de estalagem e perguntou-lhe:
— O senhor vem pernoitar? Quer cear?
O viajante fez um sinal negativo com a cabeça.
— O moço da cavalariça disse-me que o seu cavalo está muito fatigado.
Aqui ele rompeu o silêncio, dizendo:
— Então não poderei tornar a partir amanhã de manhã?
— Ó senhor! O cavalo precisa, pelo menos, dois dias de descanso.
— Não é aqui a estação da posta? — perguntou ele.
— É, sim, senhor.
E em seguida a dona da estalagem conduziu-o à administração, onde visou o passaporte, perguntando ele se seria possível voltar na mala-posta dessa mesma noite para Montreuil-sur-mer. Disseram-lhe que o lugar ao lado do condutor ainda estava vago e ele tomou-o logo para si.
— É necessário que o senhor esteja aqui à uma hora em ponto para par r — disse o escriturário.
Feito isto, saiu da estalagem e começou a percorrer a cidade. Não conhecia Arras; as ruas eram escuras, caminhava ao acaso. Contudo, parecia obs nar-se em não fazer a mínima pergunta. Atravessou a pequena ribeira Crinchon e achou-se num dédalo de becos e travessas, nos quais se perdeu. Depois de ter hesitado por um instante, resolveu dirigir-se a um burguês, mas não sem ter olhado para todos os lados, como se receasse que alguém ouvisse a pergunta que ia fazer:
— Tem a bondade de me dizer onde é o palácio da justiça?
— O senhor, pelo que vejo, não é daqui? — retorquiu o burguês, um homem já muito idoso. — Queira vir comigo; vou também para esse lado, isto é, para o lado da prefeitura. Como se estão fazendo obras no palácio da jus ça, os tribunais celebram provisoriamente as audiências na prefeitura.
— É também aí que têm lugar os julgamentos?
— Sim, senhor. Onde é hoje a prefeitura era o paço do bispo antes da revolução. O
senhor Conzié que era bispo desta diocese em 82 mandou fazer ali uma grande sala, que é a mesma em que hoje se fazem as audiências. — Con nuando a caminhar, o burguês disse: — Se deseja assis r a algum julgamento, já é tarde. As audiências terminam, ordinariamente, às seis horas.
Todavia, chegando à praça, o burguês indicou-lhe quatro grandes janelas iluminadas, na fachada de um vasto e tenebroso edifício.
— O senhor foi feliz, parece-meque ainda chegou a tempo. Vê aquelas quatro janelas?
É a sala do júri; e uma vez que estão iluminadas é porque ainda não terminou a sessão.
Naturalmente é alguma causa complicada, e por isso a audiência entrou pela noite dentro. É talvez negócio em que o senhor se interessa? É processo criminal? O senhor é testemunha?
— Não venho para nada disso — respondeu ele —, preciso unicamente falar a um advogado.
— Isso é diferente — tornou o burguês. — Ali onde está a sen nela é que é a porta, não terá mais do que subir a escada.
Ao cabo de alguns minutos, conformando-se com as indicações do burguês, achava-se numa sala onde, estava muita gente e onde se viam, segredando nos diferentes grupos, vários advogados de toga.
É sempre uma coisa que aparta o coração, ver estes agrupamentos de homens ves dos de preto, murmurando entre si nas proximidades das salas de audiência. É
muito raro que a caridade e a comiseração sobressaiam nas suas palavras. O que delas sai, a maior parte das vezes, são condenações resolvidas antecipadamente. Estes grupos assemelham-se, para o observador que vai passando, a sombrios cor ços, onde os enxames de espírito zumbidores, constroem em comum toda a espécie de tenebrosos edifícios.
Aquela casa, espaçosa e iluminada com um só candeeiro, ex-sala episcopal, que agora servia de sala dos passos perdidos, e que era separada do tribunal por uma porta de dois batentes, estava fechada naquele momento. A escuridão era tal que o senhor Madelaine não receou dirigir-se ao primeiro advogado que encontrou:
— Faz-me o favor de me dizer em que ponto estão?
— Já acabaram — respondeu o advogado.
— Acabaram!?
Esta palavra foi repe da por tal modo, que o advogado voltou-se para quem a repetira
— O senhor é talvezparente do réu?
— Não, senhor. Não conheço aqui ninguém. Mas houve condenação?
— Sem dúvida. Não podia deixar de ser.
— A trabalhos forçados?
— Por toda a vida.
Madelaine continuou com voz fraca que mal se ouvia:
— Foi provada a identidade?
— Qual iden dade? — perguntou o advogado. — Não havia iden dade a provar. O
caso era simples. A mulher nha morto seu filho; provado o infan cídio e rejeitando o júri a premeditação, foi condenada por toda a vida.
— É então uma mulher?
— Certamente, chamada Limosin. Mas de que falava o senhor?
— Eu, de nada; mas tendo terminado a audiência, porque é que a sala se conserva iluminada?
— Por causa do outro julgamento, que começou há-de haver duas horas.
— Que julgamento é?
— É também um caso simples. Trata-se duma espécie de vagabundo, um reincidente, um forçado que cometeu um roubo. Não sei o nome dele, mas tem verdadeiro aspecto de bandido. Pela minha parte bastava-me ver-lhe a cara para o mandar para as galés.
— Não haverá maneira de entrar na sala?
— Não o julgo fácil, porque está lá muita gente. A audiência agora está interrompida, e como saíram algumas pessoas, pode ser que encontre lugar para quando con nuar a sessão.
— Por onde se entra?
— Por aquela porta.
E o advogado afastou-se. Em poucos instantes, Madelaine experimentava quase ao mesmo tempo, e por assim dizer fundidas, todas as comoções possíveis.
As palavras daquele indiferente nham-lhe atravessado simultaneamente o coração quais agulhas de gelo, ou lâminas candentes. Quando viu que ainda não nha terminado o julgamento, respirou: mas não teria podido dizer-se se o que sen ra era contentamento ou desgosto. Aproximou-se de vários grupos e escutou o que diziam.
Como havia muitas causas a julgar, o juiz indicara para aquele mesmo dia, dois processos simples e que deviam decidir-se com brevidade.
Tinham começado pelo infan cídio e passado depois ao forçado, ao
reincidente, ao cavalode retorno6 .
O tal homem nha roubado uma porção de fruta, mas isso não parecia bem provado; do que havia todas as provas era de ter estado nas galés de Toulon. Era isto que lhe fazia maior carga.
Já nha terminado o interrogatório do réu e a inquirição das testemunhas, mas faltava ainda a defesa pelo advogado e a requisitória do ministério público; isto tudo não podia terminar antes da meia-noite. O homem seria provavelmente condenado; o delegado do procurador-régio era muito bom nunca lhe escapavam osacusados; era um moço de talento, que até fazia versos.
Junto da porta que comunicava com a sala da audiência estava um oficial de diligências, a quem Madelaine perguntou:
— Esta porta abre-se daqui a pouco, não é verdade?
— Não, senhor, não se torna a abrir.
— Pois não se torna a abrir quando continuar a audiência?
— A audiência já con nuou — respondeu o oficial de diligências —, mas a porta não se abre.
— E porquê?
— Porque a sala está cheia.
— Pois não haverá nem um lugar?
— Nem um só. A porta está fechada, portanto não pode entrar mais ninguém. — O
oficial de diligências, depois de um momento de silêncio, acrescentou: — Há ainda dois ou três lugares por detrás do senhor juiz, mas ele não deixa ir para ali senão os funcionários públicos.
O oficial de diligências, disse estas palavras e voltou-lhe as costas. Madelaine re rou-se cabisbaixo, atravessou a antessala e tornou a descer a escada vagarosamente e como hesitando a cada passo. É provável que es vesse em conselho consigo mesmo. O violento combate que nele se travava desde a véspera não terminara ainda, e a cada instante se sen a a braços com uma nova peripécia, Chegando ao patamar da escada, encostou-se ao corrimão e cruzou os braços. De repente desabotoou a sobrecasaca, rou do bolso a carteira, rasgou-lhe uma folha e escreveu nela rapidamente a lápis, esta linha: « Madelaine, maire de Montreuil-sur-mer» , depois tornou a subir rapidamente a escada, atravessou por entre a mul dão, foi direito ao oficial de diligências e entregou-lhe o papel, dizendo ao mesmo tempo com autoridade: