Os Miseráveis
I — Um grupo que esteve quase a tornar-se histórico
Mário havia saído sem dizer para onde ia, porque nem ele mesmo o sabia, com trinta francos, o seu relógio e algum fato velho num saco de viagem. Metera-se num cabriole que alugara à hora e dirigira-se à aventura para o bairro latino.
O que seria de Mário?!
LIVRO QUARTO — OS AMIGOS DO ABC
I — Um grupo que esteve quase a tornar-se histórico
Por esta época, aparentemente indiferente, sen a-se vagamente certo estremecimento revolucionário, e pelo ar agitava-se certa aragem, vinda das profundezas de 89 e de 92. Estava a juventude, permitam-nos a expressão, quase a chegar à muda.
Todos se iam transformando, quase sem dar por isso, em virtude do próprio movimento do tempo. O ponteiro, que avança no mostrador do relógio, avança também nas almas.
Cada qual dava para a frente o passo que lhe compe a dar. Tornavam-se os realistas liberais e os liberais democratas.
Era como uma preamar complicada com mil refluxos, e é próprio dos refluxos produzirem misturas.
Daí combinações de ideias sobremodo singulares; adorava-se igualmente Napoleão e a liberdade. As nossas asserções acham-se comprovadas na história daquele tempo.
Eram as miragens de então. As opiniões atravessam suas frases. O realismo wolfareano, variedade extravagante, achou um rival não menos estranho — o liberalismo bonapartista.
Outros grupos de espíritos, porém, havia que eram mais sérios, que sondavam o princípio, sem se desprender do direito. Apaixonavam-se pelo absoluto, entreviam as realizações infinitas; o absoluto, pela sua mesma rigidez, arrebata os espíritos pelo espaço e fá-los flutuar no ilimitado. Não há nada como o dogma para criar sonhos e nada como o sonho para gerar o futuro. Hoje utopia, amanhã carne e osso.
As opiniões adiantadas nham dois fundos. Ameaçava «a ordem estabelecida», um princípio de mistério, que era suspeito e dissimulado. Sintoma imensamente revolucionário. O pensamento reservado do poder encontra-se na sapa com o pensamento reservado do povo. A incubação das insurreições replica à premeditação dos golpes de Estado.
Não havia ainda então em França dessas vastas organizações subjacentes, como o fugendbund alemão e o carbonarismo italiano, mas aqui e além escavações obscuras, que se iam ramificando.
A Cougourde esboçava-se em Aix, e em Paris, entre outras filiações deste género, havia a sociedade dos amigos do ABC.
Que sociedade era esta dos amigos do ABC? Era uma sociedade que nha por fim aparente a educação das crianças e por fim real livrar os homens do jugo da escravidão.
Denominavam-se amigos do ABC. O ABC era o povo, e por isso queriam levantá-lo.
Calemburgo de que mal feito seria rir. Em polí ca os calemburgos são às vezes graves, sirva de exemplo o Castratus ad castra, que fez de Narsés um general de exército: sirva de exemplo: Barbari et Barberini; sirva de exemplo: Fueros y Fuegos; sirva de exemplo: Tu es Petrus et super hanc Petram, etc., etc.
Os amigos do ABC eram pouco numerosos. Era uma sociedade secreta em estado de embrião; quase, diríamos, um bando, se fosse da natureza dos bandos produzir heróis.
Reuniam-se em Paris em dois locais: ao pé da Praça do Mercado, numa casa de pasto denominada Corintho, de que mais adiante nos ocuparemos, e nas proximidades do Pantheon, num botequim chamado Café Musain, hoje demolido; ficava o primeiro destes lugares de reunião contíguo aos operários, o segundo aos estudantes.
Os conciliábulos habituais dos amigos do ABC nham lugar numa sala interior do Café Musain. Esta sala, bastante re rada do café, com o qual comunicava por um longo corredor, nha duas janelas e uma saída com uma escada falsa para o beco dos Grés. Ali se fumava, bebia, jogava, ria e conversava de tudo em voz alta e de outra coisa em voz baixa. Na parede via-se pregado, indício suficiente para despertar o faro de um agente de polícia, um mapa antigo da França no tempo da República.
A maior parte dos amigos do ABC eram estudantes em cordial inteligência com alguns operários. Eis os nomes dos principais, que até certo ponto pertencem à história: Enjolras, Combeferre, Jean Prouvaire, Feuilly, Courfeyrac, Bahorel, Lesgle ou Laigle, Joly, Grantaire.
Estes mancebos formavam entre si uma espécie de família, de tanto que se queriam.
Todos, excepto Laigle, eram meridionais.
Este grupo, que desapareceu nas voragens invisíveis do passado, era notável. No ponto deste drama a que somos chegado, não será sem u lidade dirigir um raio de luz sobre essas frontes de jovens, antes do leitor as ver abismarem-se na sombra de uma aventura trágica.
Enjolras, que em primeiro lugar nomeamos (mais adiante saberá o leitor porquê), era filho único e rico.
Enjolras era um rapaz agradável, capaz de ser terrível. Belo como os anjos, um An noo feroz. Dir-se-ia, ao ver-lhe nos olhos um reflexo de con nua melancolia pensa va, que já nha atravessado em alguma precedente existência o apocalipse revolucionário. Conservava a tradição dele como testemunha. Sabia todos os pormenores da grande empresa. Natureza pon fical e guerreira, estranha num adolescente. Era oficiante e militante, no ponto de vista imediato, soldado da democracia; em relação ao movimento contemporâneo, sacerdote do ideal. Tinha as pupilas penetrantes, as pálpebras um pouco vermelhas, o lábio inferior grosso e facilmente desdenhoso, a fronte espaçosa. Grande fronte num rosto é como grande espaço de céu num horizonte. Do mesmo modo que certos mancebos do princípio deste século e do fim do século passado, que principiaram a ser ilustres muito cedo, Enjolras nha uma juventude excessiva, fresca como a das donzelas, ainda que com suas horas de palidez. Era homem feito e parecia criança Os seus vinte e dois anos nham a aparência de dezassete, era grave, parecia não saber que exis a na terra um ente chamado «a mulher». A sua única paixão era o direito, o seu único pensamento deitar por terra o obstáculo. No monte Aven no teria sido um Graccho, na Convenção um Saint-Just. Nem se de nha a contemplar as rosas, nem sabia o que era a Primavera, nem se demorava a escutar o canto das aves; não o impressionaria o peito nu de Evadné mais do que Aristogiton; para ele, do mesmo modo que para Harmodio, as flores só serviriam para esconder uma espada. Era um mancebo severo nas suas alegrias. Diante de tudo o que não fosse a República, baixava castamente os olhos. Era o marmóreo amante da liberdade. A sua palavra era asperamente inspirada e produzia o estremecimento do
hino. Tinha às vezes uns transportes com que ninguém contava.
Desgraçado do namorico com que ele deparasse no seu caminho! Se alguma grisette da praça de Cambray ou da rua de S. Jean de Beauvais, ao ver aquela figura de colegial fugido, aquela aparência de pajem, aquelas longas pestanas louras, aqueles olhos azuis, aqueles cabelos ao sabor do vento, aquelas faces rosadas, aqueles lábios frescos, aqueles dentes lindos, cobiçasse toda aquela aurora e se resolvesse a ensaiar as armas da sua beleza sobre Enjolras, um olhar de temível surpresa lhe mostraria de improviso o abismo e a ensinaria a não confundir com o querubim galã de Beaumarehais o querubim terrível de Ezequiel.
A par de Enjolras, que representava a lógica da revolução, representava Combe-ferre a sua filosofia. Entre a lógica da revolução e a sua filosofia há esta diferença que a lógica pode ter por fim a guerra, enquanto que a filosofia não pode ter por alvo senão a paz.
Combeferre era o complemento e a rec ficação de Enjolras. Era menos alto e mais largo do que ele. Queria que se derramasse nos espíritos liberdade de princípios e generalidade de ideias. Revolução, mas Civilização, dizia ele; e em roda da montanha alcantilada abria a vastidão de um horizonte azul. Daí, em todas as vistas de Combeferre, alguma coisa de acessível e pra cável. Com Combeferre era a revolução mais respirável do que com Enjolras. Este exprimia o direito divino da revolução, Combeferre o seu direito natural. O primeiro seguia Robespierre, o segundo confinava com Condorcet.
Combeferre vivia mais da vida vulgar do que Enjolras. Se àqueles dois rapazes fora lícito chegar a ser personagens da história, um seria denominado o justo, o outro apelidado o sábio. Enjolras era mais viril, Combeferre mais humano. Homo e Vir, era esta realmente a diferença que os dis nguia. Combeferre nha de afável o que Enjolras nha de severo, por candidez natural. Gostava da palavra cidadão, mas preferia a palavra homem. De bom grado diria Hombre como os espanhóis. Combe-ferre lia tudo, ia aos teatros, frequentava os cursos públicos, aprendia de Arago a polarização da luz, gostava sobretudo da prelecção de Geoffroy Saint-Hilaire em que ele explicava a dupla função da artéria caró da externa e interna, uma das quais faz o rosto, a outra o cérebro; andava em dia com tudo, seguia a ciência passo a passo, confrontava Saint-Simon com Fourier, decifrava os hieróglifos, quebrava as pedras que encontrava, e discorria sobre geologia, desenhava de memória uma borboleta bombyx, apontava os erros do Dicionário da Academia, estudava Puységur e Deleuze, não afirmava nada, nem mesmo os milagres; não negava coisa nenhuma, nem mesmo as almas do outro mundo; manuseava a colecção do Moniteur, e meditava. Declarava que do mestre-escola depende o futuro, e ocupava-se de questões rela vas à educação. Queria que a sociedade trabalhasse sem descanso na elevação do nível intelectual e moral, na modernização da ciência, em fazer circular as ideias e fomentar a instrução da juventude, e manifestava receios de que a actual pobreza dos métodos, a miséria do ponto de vista literário, limitando-se a dois ou três séculos chamados clássicos, o dogma smo rânico dos pedantes oficiais, os preconceitos escolás cos e as ro nas viessem por úl mo a converter os nossos colégios em ostreiras ar ficiais. Combeferre era erudito, purista, exacto, politécnico, inves gador e ao mesmo tempo pensa vo «até à quimera», diziam os seus amigos. O mancebo cria
em todos os sonhos, nos caminhos de ferro, na supressão da dor, nas operações cirúrgicas, na fixação da imagem da câmara escura, no telégrafo eléctrico, na direcção dos balões. Além disto, assustava-se pouco com as cidadelas construídas de todos os lados contra o género humano pelas superstições, despotismos e preconceitos.
O mancebo pertencia ao número dos que pensam que a ciência há-de chegar a mudar a posição. Enjolras era um chefe, Combeferre um guia. Qualquer desejaria combater com um e caminhar com outro. Não que Combeferre não fosse capaz de combater, ele não se recusava a arcar com os obstáculos e atacá-los a peito descoberto e por explosão, mas pôr pouco a pouco, pelo ensino dos axiomas e pela promulgação das leis posi vas, o género humano de acordo com os seus des nos, agradava-lhe mais, e entre duas claridades sen a-se mais inclinado para a iluminação do que para o incêndio. Um incêndio pode decerto fazer uma aurora, mas porque se não há-de esperar antes que realmente amanheça? Um vulcão alumia, mas a luz do sol nascente ainda alumia mais.
Combeferre preferia talvez a alvura do belo ao clarão do sublime. Uma claridade a espaços velada por nuvens de fumo, um progresso comprado pela violência não sa sfaziam plenamente aquele sério e terno espírito. A precipitação empinada de um povo na verdade, um segundo 93, assustava-o; contudo ainda lhe repugnava mais a estagnação, porque sen a nela a putrefacção e a morte; para tudo dizer, gostava mais da escuma do que do miasma, e preferia à cloaca a torrente e a cascata do Niágara ao lago de Mon aucon. Em suma, Combeferre não queria nem paragem nem precipitação.
Ao passo que os seus tumultuosos amigos, cavalheirescamente namorados do absoluto, adoravam e fomentavam as esplêndidas aventuras revolucionárias, Combeferre deixava obrar o progresso, o bom progresso; frio, talvez, mas puro; metódico, mas irrepreensível; fleumá co, mas imperturbável. Combeferre ajoelharia e ergueria as mãos para que o futuro chegasse com toda a sua candura e para que nada perturbasse a imensa evolução virtuosa dos povos. O bem deve ser inocente, repe a ele a cada instante. E, efec vamente, se a grandeza da revolução consiste em encarar fixamente o deslumbrante ideal e voar para ele por entre os raios com sangue e fogo nas garras, a beleza do progresso consiste em ser imaculado; de modo que a diferença que existe entre Washington, que representa o segundo, e Danton, em quem se encarna o primeiro, é a que separa o anjo de asas de cisne do anjo de asas de águia.
Jean Prouvaire era uma transição ainda mais moderada do que Combeferre.
Apelidava-se Jehan, por esse momentâneo caprichosinho que assinalava o poderoso e profundo movimento que produziu o tão necessário estudo da Idade-Média. Jean Prouvaire gostava das mulheres, cul vava um vaso de flores, tocava flauta, fazia versos, amava o povo, lamentava a mulher, chorava o des no da criança, confundia na mesma confiança o futuro e Deus e censurava a revolução por ter feito cair uma cabeça régia —
a de André Chénier. Tinha a voz de ordinário delicada, mas às vezes tornava-se viril. Era instruído até tocar as raias da erudição e quase orientalista. Era bondoso a todos os respeitos, e, coisa muito simples para quem sabe quanto é próxima a bondade da grandeza, em matéria de poesia preferia o imenso. Sabia italiano, la m, grego e hebraico, o que lhe servia de não ler senão quatro poetas — Dante, Juvenal, Esquilo e Isaías. Em francês preferia Corneille a Racine e Agrippa de Aubigné a Corneille. Gostava de passear pelos campos de aveia e de boninas e ocupava-se quase tanto das nuvens como dos acontecimentos. O seu espírito nha duas a tudes — uma da parte do homem, outra da parte de Deus: estudava ou contemplava. De dia aprofundava as questões sociais; o salário, o capital, o crédito, o casamento, a religião, a liberdade de pensar, a liberdade de amar, a educação, a penalidade, a miséria, a associação, a propriedade, a produção e a distribuição, o enigma do mundo que cobre de sombra o formigueiro humano; e de noite fitava os astros, esses entes de desmesurada grandeza.
Como Enjolras, Jean Prouvaire era rico e filho único. Falava devagar, inclinava a cabeça, baixava os olhos, sorria com embaraço, trajava com pouco gosto, nha uma figura desairosa, corava por qualquer coisa, tímido em extremo, mas aliás cheio de intrepidez.
Feuilly era um lequeiro, órfão de pai e mãe, que mal ganhava três francos por dia e que só nha um pensamento libertar o mundo. Tinha ainda outra preocupação: instruir-se, ao que ele também chamava libertar-se a si mesmo. Aprendera sem mestre a ler e a escrever, e tudo o que sabia aprendera-o por si e sem auxílio estranho. Feuilly era um generoso coração. A todos amava. Era órfão, mas adoptara os povos. Faltava-lhe sua mãe; lembrou-se da pátria. Não queria que na terra houvesse um homem que não vesse pátria. Feuilly chocava dentro de si, com o profundo ins nto de adivinhar, par cular ao homem do povo, o que nós hoje denominamos «a ideia das nacionalidades». De propósito aprendera a história para se indignar com conhecimento de causa. Naquele juvenil cenáculo de utopistas, especialmente ocupados da França, Feuilly representava o exterior. A sua especialidade era a Grécia, a Polónia, a Hungria, a Roménia e a Itália. Pronunciava a todo o instante estes nomes, a propósito ou não, com a tenacidade do direito. Exasperavam-no as violações da Turquia sobre a Grécia e sobre a Tessália, da Rússia sobre Varsóvia, da Áustria sobre Veneza. Entre todos o que mais o exaltava era o grande atentado de 1772. Quando a indignação é verdadeira, não há mais soberana eloquência, e era essa, efec vamente, a que ele possuía, O mancebo nunca se fartava de es gma zar essa data de infâmia, 1772, de lamentar esse nobre e valoroso povo suprimido por traição, de invec var esse crime de três, essa cilada monstruosa, protó po e modelo de todas essas horrorosas supressões de estado, que depois feriram muitas nobres nações, e que, para assim dizer, lhes riscaram o auto do nascimento.
Todos os atentados sociais contemporâneos derivam da divisão da Polónia. A divisão da Polónia é um teorema de que são corolários todos os actuais male cios polí cos. Desde há um século para cá, não há um só déspota, um traidor, que não tenha visado, homologado, subscrevido e rubricado, ne varietur, a divisão da Polónia. Se alguém compulsa o registro das traições modernas, é esta a que primeiro se oferece aos olhos.
Antes de consumar o seu crime, consultou este o congresso de Viena. 1772 dá o sinal da caça, 1815 é a ceva. Tal era o texto habitual de Feuilly. Este pobre operário fizera-se o tutor da jus ça e ela recompensava-o fazendo-o grande. É que, efec vamente, o direito tem o que quer que seja de eterno. Varsóvia não pode ser tártara, bem como Veneza não pode ser tedesca. Os reis perdem nisso o trabalho e a honra. Tarde ou cedo a pátria submergida flutua na super cie e reaparece. A Grécia torna-se Grécia, a Itália torna-se
Itália. O protesto do direito contra o facto persiste sempre. O roubo de um povo não tem prescrição, nem futuro estas ladroeiras em ponto grande. Não se ra a marca a uma nação, como a um lenço.
Quanto a Courfeyrac, seu pai chamava-se senhor de Courfeyrac. Uma das falsas ideias da burguesia, a respeito de aristocracia e de nobreza, era acreditar na par cula, que, como todos sabem, não tem significação nenhuma. Mas os burgueses do tempo da Minerva nham em tão subida conta este pobre de, que se tornava necessário abdicá-lo.
O senhor de Chauvelin, assinava-se simplesmente senhor Chauvelin; o senhor de Caumar n, senhor Caumar n; o senhor de Constant de Rebecque, Benjamin Constant; o senhor de Lafaye e, senhor Lafaye e. Courfeyrac, pois, que não quisera ficar atrás, assinava-se também simplesmente Courfeyrac.
Quase que, pelo que diz respeito a Courfeyrac, poderíamos ficar aqui, limitando-nos a dizer quanto ao resto: Courfeyrac, vede Tholomyés.
Efectivamente, Courfeyrac possuía esse entusiasmo juvenil, que quase se pode chamar a beleza diabólica do espírito. Com os anos, esse entusiasmo ex ngue-se, como a gen leza do ga nho novo, e toda essa graça vem a transformar-se em bípede, no burguês, em quadrúpede, no gato.
Este género de espírito transmitem-no mutuamente as gerações que frequentam as escolas, as sucessivas levas da juventude, passando de mão em mão, quase cursores, sempre no mesmo estado, com pequena diferença, de modo que, como acabamos de indicar, quem em 1828 escutasse Courfeyrac, imaginaria estar ouvindo Tholomyés em 1817. Com a diferença, porém, de que Courfeyrac era um honrado moço. Debaixo das aparentes semelhanças de espírito exterior, era grande a diferença entre ele e Tholomyés. O homem latente, que em ambos exis a, no primeiro era muito diverso do que exis a no segundo. Em Tholomyés exis a um procurador, em Courfeyrac um paladino.
Enjolras era o chefe, Combeferre o guia, Courfeyrac o centro. Os outros davam mais luz, ele dava mais calórico; o certo é que ele possuía todas as qualidades de um centro, pois que era circular e luminoso.
Bahorel figurara no sanguinolento tumulto de Junho de 1822, por ocasião do enterro do jovem Lallemand.
Bahorel era uma criatura de boa índole e de mau trato, honrado, cesto roto, pródigo com acerto, falador eloquente, ousado com ventura; o melhor estroina que Deus ao mundo deitara; trajando coletes temerários e proclamando opiniões escarlates; tranca-ruas em ponto grande, quer dizer, não gostando de nada tanto como de uma bulha, porém mais de um tumulto, e mais ainda de uma revolução do que de um tumulto; sempre pronto a quebrar uma vidraça, em seguida a descalçar uma rua, depois a demolir um governo, a ver o efeito que fazia; estudante do undécimo ano. Bahorel farejava o direito, mas não o fazia. Tinha tomado por divisa estas palavras: Advogado nunca e por armas uma mesa de estudo, sobre a qual se entrevia um capelo. Quando passava pela escola de direito, o que raras vezes lhe acontecia, abotoava o casaco (então ainda se não nha inventado o paletó) e tomava outras precauções higiénicas. Costumava dizer na
entrada da escola: «Que venerando velho!» e do decano, senhor Delvincourt: «Que monumento!» Nas aulas que frequentava, via assunto para can gas e nos seus professores ocasiões de caricatura. Recebia, sem fazer quase nada, uma avultada pensão, o que quer que fosse parecido com três mil francos. Seus pais eram uns camponeses, a quem soubera inculcar respeito para com o filho.
Costumava dizer deles: «Por serem aldeãos e não burgueses, é que eles têm inteligência».
Bahorel, homem caprichoso, frequentava grande número de cafés; os outros nham seus hábitos, Bahorel não. Passeava. Errar é do homem. Passear é do parisiense. No fundo, espírito penetrante e mais pensador do que parecia.
Servia Bahorel de laço entre os amigos do ABC e outros grupos ainda informes, mas que mais tarde deviam vir a desenhar-se distintamente.
No meio, porém, deste conclave de cabeças jovens, havia uma cabeça calva, O marquês de Avaray, a quem Luís XVIII fez duque por tê-lo ajudado a subir para um cabriole no dia em que emigrou, contava que em 1814, quando regressou a França e o rei desembarcava em Calais, lhe fora apresentado um requerimento por um homem.
— O que é que pede? — disse o rei.
— Senhor, desejava ser director do correio em qualquer terra.
— Como se chama?
— L’Aigle.
O rei carregou o sobrolho, olhou para a assinatura do requerimento e viu o nome assim escrito: Lesgle. Impressionou-o esta ortografia pouco bonapar sta, e principiou a sorrir.
— Senhor — con nuou o homem do requerimento — um dos meus antepassados, que era criado de ma lhas, nha o apelido de Lesgueules, e eu desse apelido formei o meu nome. Chamo-me, pois, Lesgueules, por contracção Lesgle e por corrupção L’Aigle.
Isto fez com que o rei terminasse o seu sorriso, e daí por algum tempo, ou de propósito ou por acaso, deu ao homem o lugar de director do correio em Meaux.
O membro calvo do grupo era filho desse Lesgle ou Lègle e assinava-se Lègle (de Meaux). Os seus camaradas chamavam-lhe Bossuet, por abreviatura.
Bossuet era um rapaz de génio folgazão, mas infeliz. O seu forte consistia em não fazer coisa com coisa. Em compensação, ria de tudo. Tinha apenas vinte e cinco anos e já era calvo. O pai viera por úl mo a possuir uma casa e um campo, mas o filho não descansou enquanto não perdeu tudo numa arriscada especulação que empreendeu, vindo a ficar sem nada. Tinha ciência e espírito, mas abortava. Tudo lhe falhava, com tudo se enganava; tudo quanto construía lhe desabava em cima. Se rachava lenha, cortava algum dedo; se arranjava uma amante, vinha logo a descobrir que também nha um rival. A cada instante lhe sucedia algum contratempo; disso provinha a sua jovialidade. Eu cá saio da lama, meto-me: no atoleiro, costumava ele dizer. Pouco espantadiço, porque para ele os desastres eram coisas que já previa, encarava as desfortunas com serenidade e sorria das travessuras do des no como quem sabe o que são gracejos. Era pobre, mas nunca à algibeira do seu génio folgazão viu alguém o fundo. Depressa se lhe escoava das
mãos o úl mo soldo, nunca dos lábios a derradeira gargalhada. Quando a adversidade lhe entrava pela porta dentro, saudava cordialmente este an go conhecimento: na ocasião das catástrofes ba a na barriga, e tanta familiaridade nha com a fatalidade, que a tratava pelo seu nome próprio: «Bons dias, Azar», dizia ele.
Estas perseguições da sorte nham-lhe dado a faculdade inven va. Nunca lhe faltavam expedientes. Raríssimas vezes nha dinheiro, mas apesar disso, achava meio, quando queria, de fazer «despesas loucas». Uma noite chegou a despender «cem francos» com uma serigaita, o que lhe inspirou, no meio da orgia, este memorável dito:
« Fille de cinq louis, 11 tira-me as botas».
Bossuet estudava jurisprudência. Como Bahorel, porém, caminhava lentamente na realização do seu intento de ser um dia advogado. O seu domicílio era incerto e às vezes nenhum. Ora ficava em casa deste, ora em casa daquele, a maior parte das vezes em casa de Joly, que estudava medicina e era mais novo do que ele dois anos.
Joly era o doente imaginário de Molière, quando novo. O lucro que nha rado da medicina era ser antes doente do que médico. Contava apenas vinte e três anos e julgava-se valetudinário, passando a vida a observar a língua num espelho. Afirmava que o homem é suscep vel de se magne zar com uma agulha, e por isso colocava a cama com a cabeceira para o sul e os pés para o norte, para que de noite a grande corrente magné ca do globo não lhe contrariasse a circulação do sangue. Em ocasiões de tempestade, costumava tomar o pulso a si mesmo. De resto, o mais alegre de todos.
Todas estas incoerências, juventude, mono mania, doença, alegria, davam-se perfeitamente entre si, do que resultava uma criatura excêntrica e agradável, que os seus camaradas, pródigos de consoantes aladas, denominavam Joily.
— Tu podes voar em quatro asas12 — dizia-lhe Jean Prouvaire.
Joly nha por costume coçar o nariz com o castão da bengala, o que é indício de um espírito sagaz.
Todos estes mancebos tão diversos, e de quem, afinal, cumpre falar com seriedade, tinham uma mesma religião o Progresso.
Todos eram filhos directos da revolução francesa. Os mais levianos tornavam-se solenes ao pronunciar a data de 1789. Seus pais, segundo a carne, eram ou nham sido bernardos, realistas, doutrinários; pouco importava isso; esse mis fório anterior a eles, que eram moços, não lhes dizia respeito; nas veias corria-lhes o puro sangue dos princípios. Tinham-se ligado in mamente com o direito incorrup vel e com o dever absoluto.
Filiados e adeptos, esboçavam o ideal a ocultas.
Entre todos estes corações apaixonados e todos estes espíritos convictos havia um cép co. Como achara ele modo de se introduzir no meio daqueles crentes do progresso?
Por justaposição. Esse cép co chamava-se Grantaire e assinava-se
habitual-mente desta enigmá ca maneira: R. 13 Grantaire era um homem que punha todo o cuidado em não acreditar em coisa alguma. Todavia, era um dos estudantes que mais nham aprendido durante o tempo que frequentara as aulas em Paris; sabia que o melhor botequim era o café Lemblin e o melhor bilhar o do café Voltaire; que na Ermida do boulevard do Maine
havia excelentes bolos folhados e boas raparigas; que em casa da a Saguet se guisavam frangos como em parte nenhuma; que na barreira de Cunette se faziam belas caldeiradas de peixe e que na barreira do Combate havia um vinhinho branco, que regalava o paladar. De tudo sabia onde era o melhor; além disto, sabia diversos jogos e danças e era forte no jogo do pau. Porém no que a todos levava a palma era em beber. Grantaire era desmesuradamente feio. Irma Boissy, a mais graciosa debruadeira de bo nhas daquele tempo, indignada da sua fealdade, proferira uma vez esta sentença: «Grantaire é impossível»; a fatuidade de Grantaire, porém, não ligava importância a essas coisas.
Olhava terna e fixamente para todas as mulheres, com ar de quem dizia: «Se eu quisesse!» e tentava fazer acreditar aos companheiros que era geralmente requestado.
Todas estas palavras: direitos do povo, direitos do homem, contrato social, revolução francesa, república, democracia, humanidade, civilização, religião, progresso, estavam todas — para Grantaire muito vizinhas de não significarem coisa alguma. Ria-se delas. O
cep cismo, carie da inteligência, não lhe deixava uma ideia inteira no espírito. Vivia com ironia, O seu axioma era este: Não há senão uma coisa certa, que é o meu copo cheio.
Zombava de todas as dedicações em todos os par dos, tanto do irmão como do pai, tanto de Robespierre moço, como de Loizerolles. Adiantam muito em estar mortos, dizia ele. Do crucifixo dizia: Aquilo é uma forca que conseguiu o seu fim. Vagabundo, jogador, liber no, quase sempre embriagado, e causando aos moços pensadores o dissabor de o ouvirem continuamente cantarolar com a música do «Viva Henrique IV»: Não há melhor bocadinho
Que uma mulher boa e um copo de bom vinho.
Não obstante tudo isto, esse cép co nha um fana smo. Este fana smo não era uma ideia, nem um dogma, nem uma arte, nem uma ciência; era um homem: Enjolras.
Grantaire, admirava e venerava Enjolras. A quem se ligava naquela falange de espíritos absolutos, aquele espírito cheio de dúvidas anárquicas? Ao mais absoluto. De que modo o subjugava Enjolras? Pelas ideias? Não. Pelo carácter; fenómeno muitas vezes observado. A aderência de um cép co a um crente, é uma coisa simples como a lei das cores complementares. O que nos falta atrai-nos. Ninguém é afeiçoado à luz como o cego. O anão adora o tambor-mor. O sapo tem sempre os olhos voltados para o céu; para quê? Para ver voar o pássaro. Grantaire, em quem se arrastava a dúvida, gostava de ver Enjolras pairar na fé. Necessitava de Enjolras, sem que o percebesse claramente e sem que pensasse em achar-lhe a explicação; aquela natureza casta, sã, firme, recta, forte, cândida, encantava-o. Admirava, por ins nto, o carácter oposto ao seu. As suas ideias frouxas, vacilantes, deslocadas, doentes, disformes, ligavam-se a Enjolras como a uma espinha dorsal. A sua raqui s moral apoiava-se naquela firmeza. Grantaire junto de Enjolras tornava-se alguém. Ele próprio era composto de dois elementos, aparentemente incompa veis. Era irónico e cordial. A sua indiferença amava. O seu espírito passava sem crença, mas o seu coração não podia passar sem amizade. Contradição profunda; porque uma afeição é uma convicção. A sua organização era assim. Há homens que parece terem nascido para ser o verso, o inverso e o reverso. São Pollux, Patroclo, Nisus, Eudamidas, Ephes on e Pechméja. Não vivem senão com a condição de se encostarem a outrem; o seu nome é seguimento de outro nome, e não se escreve sem ser precedido da