Os Miseráveis
V — A pequena sozinha
Es vera aquela maravilha exposta todo o dia ao deslumbramento dos admiradores de dez anos para baixo, sem que em Mon ermeil se vesse encontrado uma mãe suficientemente rica ou assaz pródiga que a comprasse para dar a uma filha. Eponina e Azelma haviam passado horas a contemplá-la, e até a própria Cose e, fur vamente, é verdade, ousara observá-la.
Na ocasião em que Cose e saiu com o seu balde na mão, apesar de excessivamente triste e acabrunhada, não pôde ter-se que não levantasse os olhos para aquela maravilhosa boneca, para a senhora, como ela lhe chamava. A pobre criança, porém, parou petrificada, pois ainda a não nha visto de perto. A loja parecia-lhe um palácio, a boneca para ela não era uma boneca, era uma visão. Era a alegria, o esplendor, a riqueza, a ventura, que apareciam numa espécie de irradiação quimérica, àquele infeliz entezinho, tão profundamente sepultado numa fúnebre e fria miséria. Cose e media com essa ingénua e triste sagacidadeda infância o abismo que a separava daquela boneca, dizendo consigo mesma que era necessário ser rainha, ou, pelo menos, princesa, para possuir uma «coisa assim». Ela contemplava aquele belo ves do cor-de-rosa, aqueles belos cabelos tão lustrosos e dizia consigo: «Aquela boneca sempre há-de ser muito feliz!». A pobre criança não podia rar os olhos daquela fantás ca loja. Quanto mais olhava, mais deslumbrada se sen a. Julgava ver o paraíso. Por trás da boneca grande havia outras que lhe pareciam fadas e génios. O negociante, que passeava na loja de um lado para o outro, como se lhe figurava o Padre Eterno.
A pobre criança esquecia tudo naquela adoração, mesmo o recado a que fora mandada. De repente, porém, a voz rude da estalajadeira chamou-a à realidade:
— Pois tu ainda aí estás, minha sirigaita! Espera que eu te arranjo! Sempre quero saber o que estás aí a fazer. Gira!
A Thenardier havia chegado à porta a ver o que se passava e avistara Cose e em êxtase.
Esta, ao ouvir a voz da estalajadeira, deitou a fugir com o balde, caminhando o mais apressadamente que podia.
V — A pequena sozinha
Como a estalagem dos Thenardier ficava na parte da aldeia próxima à igreja, era à fonte do bosque situada para o lado de Chelles que Cosette tinha de ir buscar a água.
A pobre rapariguinha não tornou a olhar para nenhuma outra barraca. Enquanto não passou o beco do Boulanger nem os arredores da igreja, a iluminação das lojas alumiava-lhe o caminho; bem depressa, porém, desapareceu o úl mo clarão da úl ma barraca, e Cosette achou-se na obscuridade, mas continuou a caminhar no meio dela.
Somente, como se ia apossando dela certa comoção, agitava o mais que podia a asa do balde. Isto produzia um ruído que lhe servia de companhia.
Quanto mais caminhava, porém, mais espessas se tornavam as trevas. Pelas ruas já se não via ninguém. Todavia, Cose e encontrou uma mulher, que se voltou ao vê-la passar e que parou, murmurando por entre dentes:
— Onde irá esta criança? Será um lobisomem?
Depois, a mulher, reconhecendo Cosette, exclamou:
— Olha, é a Cotovia!
Cose e atravessou assim o labirinto de ruas tortuosas e desertas onde termina a aldeia de Mon ermeil, para a parte de Chelles. Enquanto se viu no meio de casas e mesmo só de paredes, caminhou afoita. De vez em quando via o clarão de uma vela, pelas fendas de alguma janela, e isto para ela era luz e vida. É porque ali havia gente, e esta ideia tranquilizava-a. Todavia, à medida que caminhava, o seu passo afrouxava, como que maquinalmente. Depois de passar a esquina da úl ma casa, parou. Passar adiante da última loja fora difícil; passar além da última casa tornava-se impossível.
Cose e, pois, pousou o balde no chão, meteu a mão por entre os cabelos e pôs-se a coçar a cabeça lentamente, gesto par cular às crianças atemorizadas e indecisas. Já não era Montfermeil, eram os campos.
Diante de si nha o espaço, negro e deserto. Cose e olhou com angús a para aquela obscuridade, em que não havia ninguém, em que só havia lobos ou talvez almas do outro mundo. Esbugalhou mais os olhos e ouviu os lobos a caminhar por cima da erva, e viu distintamente as almas do outro mundo agitando-se nos ramos das árvores.
Cosette, a quem o medo dava audácia, pegou então outra vez no balde e disse:
— Ora! Digo-lhe que não havia água!
E tornou a entrar resolutamente em Mon ermeil. Apenas, porém, andou cem passos, parou de novo e pôs-se a coçar a cabeça. Agora era a Thenardier que lhe aparecia; a Thenardier medonha com a sua boca de hiena e a cólera a chamejar-lhe nos olhos.
A criança deitou um olhar lamentoso para diante e para trás. Que fazer? Que expediente tomar? Para que lado caminhar?
Na sua frente o espectro da Thenardier; por detrás todos os fantasmas da noite e dos bosques. Recuou, pois, diante da Thenardier. A assustada criança tornou a tomar o caminho da fonte, deitando a correr. E assim transpôs as casas da aldeia e entrou no bosque, sem olhar para coisa nenhuma, sem nada escutar, cessando apenas de correr quando lhe faltou a respiração, mas não deixando nunca de andar. Caminhava como se fora um autómato e quase sem a certeza de que vivia.
Ao passo, porém, que ia andando, sen a vontade de chorar. Apossava-se dela o estremecimento nocturno da floresta.
Nem já pensava, nem via. Aquele entezinho fazia frente a imensidade das trevas.
De um lado a sombra toda, do outro um átomo.
Da extremidade do bosque à fonte havia apenas sete ou oito minutos de caminho, que Cosette conhecia perfeitamente por o ter passado muitas vezes de dia.
Estranha coisa! Aquela criança não se perdeu, e, contudo, não deitava os olhos nem para a direita nem para a esquerda, com receio de ver alguma coisa nos ramos das árvores ou na erva que cobria o chão. Conduzia-a vagamente um resto de ins nto: assim chegou à fonte, que era uma espécie de tanque natural, cavado pela água num terreno argiloso, de uma profundidade de perto de dois pés, cercada de musgo e dessas ervas a que pelos seus rendilhados se dá o nome de golinhas de Henrique IV, e forrada com
algumas grandes pedras.
Da fonte deslizava um regatozinho, sussurrando mansamente.
Cose e nem sequer parou para tomar o fôlego. Estava escuríssima a noite; porém, acostumada a vir àquela fonte, procurou com a mão esquerda na escuridão um carvalho novo que se debruçava sobre a nascente e que lhe servia ordinariamente de ponto de apoio; encontrou um ramo, agarrou-se a ele, baixou-se e meteu o balde na água. A emoção daquele momento fora tão violenta que lhe triplicara as forças. Ao curvar-se, porém, não reparou que naquela posição lhe ficava voltado para baixo o bolso do avental e caiu-lhe na água a moeda de quinze soldos. Cose e não a viu, nem a ouviu cair. Tirou para fora o balde quase cheio e pousou-o em cima da erva.
Feito isto, conheceu então que estava extenuada de cansaço. Bem quisera tornar a partir imediatamente, mas fora tal o esforço de encher o balde que lhe foi impossível dar um passo e viu-se obrigada a sentar-se. Deixou-se, pois, cair sobre a relva e ali ficou acocorada.
Fechou os olhos, depois tornou a abri-los, sem saber porquê, mas sem poder esquivar-se a este movimento. Junto dela a água, agitada no balde, formava círculos, que pareciam serpentes de fogo branco.
Por cima da sua cabeça mal se divisava o céu coberto de vastas nuvens negras, que eram como paredes de fumo. Sobre aquela criança parecia inclinar-se vagamente a máscara trágica das sombras, no meio das quais deslizava Júpiter radiante.
A criança olhava desvairada para aquela grande estrela que não conhecia e que lhe me a medo. Efec vamente, o planeta achava-se naquele momento muito perto do horizonte e atravessava uma névoa espessa, que a corava de uma vermelhidão horrível.
A névoa lugubremente purpureada tornava maior o âmbito do astro. Dir-se-ia uma chaga luminosa.
Da planície soprava uma aragem fria. Espessas trevas envolviam o bosque, onde se não ouvia nenhum rumor de folhas, nem se via um só desses vagos e frescos clarões do es o. Os ramos levantados para o ar pareciam espectros terríveis. Nas clareiras zunia o vento por entre os silvados defecados e disformes, e aos assobios das rajadas formigavam como enguias as ervas crescidas, torciam-se as silvas como compridos braços armados de garras, tentando cravar-se em alguma presa.
De espaço a espaço passavam rapidamente, impelidas pelo vento, algumas urzes secas, que pareciam fugir assustadas a qualquer coisa que as perseguia. De todos os lados havia amplidões lúgubres.
A escuridão causa ver gens. O homem precisa de luz. O que se embrenha no contrário do dia sente apertar-se-lhe o coração. Onde os olhos vêem negrura, vê o coração perturbação. O eclipse, a noite, a opacidade fuliginosa causa ansiedade, ainda aos mais fortes. Não há ninguém que caminhe sozinho de noite por uma floresta sem tremer.
Sombras e árvores são duas serrações temíveis. Na profundeza indis nta afigura-se ao espírito uma realidade quimérica. Debuxa-se o inconcebível a alguns passos de vós, com uma limpidez de espectro. Vêem-se flutuar no espaço, ou no próprio cérebro, umas coisas vagas e impalpáveis como os sonhos das flores adormecidas. Toma a tudes
ferozes o horizonte. Aspiram-se os eflúvios da grande e negra amplidão do espaço. Tem a gente medo e vontade de olhar para trás. Sente-se indefesa contra as cavidades da noite, contra os objectos que se tornam medonhos, contra os perfis taciturnos que se dissipam ao aproximar-se, contra os vultos desgrenhados que se desenham nas trevas, contra as montanhas irritadas, contra os charcos lívidos, contra o lúgubre reflec do no fúnebre, contra a imensidade sepulcral do silêncio, contra os seres incógnitos possíveis, contra o misterioso debruçar dos ramos, contra o terrível torcer das árvores, contra os extensos punhados de ervas que se agitam rumorejando. Não há ousadia que não estremeça e que não sinta a aproximação da angús a. Experimenta-se o que quer que seja de pavoroso, como se a alma se amalgamasse com a sombra. Esta penetração das trevas, porém, numa criança é inexprimivelmente sinistra.
As florestas são apocalipses e o sacudir de asas de uma alma pequenina produz um ruído de agonia sob a abóbada monstruosa que as cobre.
Cose e, sem ter consciência do que experimentava, sen a-se penetrada por esta grandeza obscura da natureza. Não era simplesmente terror o que se apossava dela; era alguma coisa mais terrível ainda do que o terror. A rapariguinha estremecia.
Falecem-nos as expressões para dizer o que nha de estranho esse estremecimento que a gelava até ao fundo do coração. O seu olhar nha-se tornado desvairado. Julgava sentir que talvez não pudesse deixar de voltar ali no outro dia à mesma hora.
Cose e, então, por uma espécie de ins nto, para sair deste singular estado, que não compreendia, mas que a aterrava, principiou a contar em voz alta um, dois, três, quatro, até dez, e, chegando ao fim, tornou a começar. Res tuiu-lhe isto a verdadeira percepção das coisas que a rodeavam. Sen u frio nas mãos, que havia molhado ao meter o balde na água, e levantou-se. Voltara-lhe o medo, mas um medo natural e invencível. Não lhe ocorreu mais do que um só pensamento fugir; fugir a toda a pressa pelo meio dos bosques, pelo meio dos campos, até às casas, até às janelas, até às velas acesas. O seu olhar, porém, fixou-se no balde que nha diante de si, e tal era o susto que a Thenardier lhe inspirava, que não se atreveu a fugir sem o balde. Pegou-lhe, pois, pela asa com as duas mãos, custando-lhe a levantá-lo do chão.
Assim andou uns doze passos, porém o balde estava cheio, era pesado, e a pobre criança viu-se obrigada a pousá-lo no chão outra vez. Respirou um instante, depois pegou novamente na asa e continuou a caminhar, desta vez por mais algum tempo.
Foi-lhe necessário, porém, tornar a parar, e, após alguns segundos de descanso, par u de novo. Cose e caminhava vergada para diante, com a cabeça curvada como uma velha; o peso do balde distendia e inteiriçava-lhe os magros braços. A asa de ferro acabava de lhe entorpecer e gelar as mãozinhas molhadas; de espaço a espaço via-se obrigada a parar, e todas as vezes que parava caía-lhe pelas pernas nuas a água fria que extravasava do balde. Passava-se isto no fundo de um bosque, de noite, no Inverno, longe de todas as vistas humanas; era uma criança de oito anos a que ali estava; só Deus naquela ocasião é que via aquele triste espectáculo.