Os Miseráveis
IV — Excesso de zelo de Gavroche
Era Gavroche passando pela rua do Chaume.
III — Enquanto Cosette e Toussaint dormiam
Jean Valjean entrou para casa com a carta de Mário na mão.
Subiu a escada às apalpadelas, sa sfeito com as trevas, qual mocho de posse da sua presa, abriu e fechou brandamente a porta, escutou, viu que, segundo as aparências, tanto Cose e como Toussaint, estavam dormindo, acendeu a luz, com mão trémula, como o ladrão que se introduz fur vamente numa casa, sentou-se à mesa, abriu o papel e leu-o.
No meio das comoções violentas, não se lê, aniquila-se, para assim dizer, o papel que
se tem na mão, oprime-se como uma ví ma prostrada, amarrota-se e cravam-se-lhe as unhas com cólera, ou com alegria; corre-se ao fim, salta-se ao princípio; a atenção é febril; compreende-se em globo, pelo menos, o essencial; abrange-se um ponto, e todo o resto desaparece. No bilhete de Mário a Cosette não viu Jean Valjean senão o seguinte:
«...Quando leres isto, estará a minha alma a teu lado...»
Em presença destas palavras teve um deslumbramento horrível; ficou por um momento como que esmagado pela mudança de comoção que sen a operar-se em si, e olhava para o bilhete de Mário com uma espécie de espanto de ebriedade; nha diante dos olhos um grande esplendor: a morte do ente odiado.
Jean Valjean soltou um medonho grito de alegria ín ma. Assim, estava tudo acabado.
O desfecho apresentava-se mais depressa do que poderia esperar-se.
O ente que entulhava o seu ín mo desaparecia. Iluminava-se por si mesmo, livremente, de boa vontade, sem que ele, Jean Valjean, vesse concorrido para isso;
«aquele homem» ia desaparecer sem que ele fosse o culpado. Talvez até já es vesse morto. Aqui a febre dos cálculos. Não, não morreu ainda. A carta foi visivelmente escrita para ser lida de manhã; depois daquelas duas descargas que se nham ouvido entre as onze e a meia-noite não houve mais nada; a barricada não será atacada senão ao amanhecer; mas é o mesmo, desde que «este homem» se acha envolvido em tal guerra, está perdido; está seguro pela engrenagem.
Jean Valjean sen u-se liberto. Ia, pois, tornar a achar-se só com Cose e. A concorrência cessava: recomeçava o futuro. Só lhe restava guardar aquela carta na algibeira. Cose e não saberia nunca o que fora feito «daquele homem»: Não há mais do que deixar consumar os factos:
— Este homem não pode escapar. Se não está morto ainda, tem a certeza de que morrerá! Que felicidade!
Depois de dizer tudo isto consigo mesmo, ficou sombrio. Em seguida tornou a descer e acordou o porteiro.
Passado pouco mais ou menos uma hora, Jean Valjean saiu de casa completamente fardado e armado como guarda nacional. O porteiro ob vera facilmente na vizinhança com que completar o seu equipamento.
Transposto o limiar da porta, em que, pouco antes, es vera sentado, encaminhou-se para o lado dos Mercados com a sua espingarda carregada e a patrona cheia de cartuchos.
IV — Excesso de zelo de Gavroche
Entretanto acabava de suceder uma aventura a Gavroche.
O gaiato depois de ter conscienciosamente apedrejado o lampião da rua do Chaume, chegou à rua das Vieilles-Haudrie es, e não vendo ali nem um gato, achou excelente a ocasião para entoar todas as canções de que era capaz.
A sua velocidade em vez de diminuir com o canto, acelerava-se. Caminhando sempre, foi semeando ao longo das casas adormecidas ou aterradas uma canção muito em voga.
Gavroche, cantando, prodigalizava grande soma de mímica. O gesto é o ponto de apoio do estribilho. O seu rosto, inesgotável repertório de máscaras, produzia as caretas
mais convulsivas e fantás cas, que possam conceber-se. Infelizmente indo só, e sendo noite, não era visto nem visível. Neste mundo há muitas riquezas perdidas.
De repente parou.
— Interrompamos a romanza — disse ele.
A sua pupila felina acabava de descobrir no vão de uma porta o que em pintura se chama um «todo», isto é, um ente e uma coisa; a coisa era um carrinho de mão, o ente um aldeão do Auvergne, que estava dormindo sobre ele.
Os varais do carrinho descansavam no chão e a cabeça do aldeão estava apoiada no extremo do carro, tendo o corpo estendido naquele plano inclinado e os pés tocando no chão.
Gavroche, com a experiência das coisas deste mundo, reconheceu logo um bêbado.
— Aqui está — disse Gavroche — para que servem as noites de Verão. O auvergnez dorme dentro do seu carro. Toma-se o carro para a república e deixa-se o auvergnez para a monarquia.
O espírito do gaiato acabava de ser iluminado pela seguinte ideia:
«Este carro faria um maravilhoso arranjo para a nossa barricada».
O auvergnez ressonava com estrondo.
Gavroche puxou brandamente o carro pela parte de trás e o auvergnez pela frente, isto é, pelos pés, e passado um minuto estava o auvergnez, imperturbável, repousando de bruços nas pedras da rua.
Gavroche, habituado a ter de se haver por todos os lados com o imprevisto, nha sempre tudo consigo.
Vasculhou as algibeiras e rou um bocado de papel e um pedaço de lápis vermelho, bifado a algum carpinteiro e escreveu:
REPÚBLICA FRANCESA
Foi recebido o teu carro.
E assinou:
Gavroche.
Feito isto meteu-o no bolso do colete de belbu na do auvergnez, que con nuava a ressonar, empunhou as duas varas do carro e par u na direcção dos Mercados, impelindo-o diante de si, a galope, e produzindo um motim gloriosamente triunfal.
Isto tornava-se perigoso. Na Imprensa real havia um posto de guarda, Gavroche não se lembrava de semelhante coisa. Aquele posto estava ocupado por guardas nacionais do termo. A força começava a sen r-se inquieta e as cabeças começavam a erguer-se sobre a tarimba. Dois candeeiros quebrados sucessivamente, aquela canção cantada em alto berreiro, era demasiado para ruas tão medrosas, que logo ao pôr-do-sol têm; sono e que apagam as luzes tão cedo.
Havia uma hora que o gaiato fazia naquele lugar pacífico a bulha de um mosquito dentro de uma garrafa.
O sargento da guarda aplicava o ouvido e esperava.
Era um homem prudente.
O rodar desesperado do carro fez transbordar a medida da expecta va possível e determinou o sargento a tentar um reconhecimento.
— É algum bando deles —, disse o sargento consigo.
Era evidente que a hidra da anarquia saíra da sua prisão e que se andava agitando por aqueles sítios.
E o sargento arriscou-se a sair da casa da guarda nos bicos dos pés.
Gavroche, con nuando a impelir o carrinho, achou-se de repente, quando ia a desembocar da rua das Vieilles-Haudrie es, em frente de uma farda, de uma barre na, de um penacho e de uma espingarda.
Pela segunda vez estacou.
— Olha! — disse o gaiato. — É ela! Senhora ordem pública, es mo que tenha passado muito bem.
Os espantos de Gavroche eram pouco duradouros e desfaziam-se rapidamente.
— Aonde vais tu, vadio? — gritou o sargento.
— Cidadão — disse Gavroche — eu ainda lhe não chamei burguês. Porque me insulta?
— Aonde vais, velhaco?
— O senhor talvez fosse ainda ontem um homem inteligente — tornou Gavroche —
mas hoje está infeliz.
— Pergunto-te aonde vais, tratante?
— Isso é que é falar — respondeu Gavroche. — Realmente ninguém dirá a Sua idade, O senhor devia vender os seus cabelos a cem francos cada um; apurava quinhentos francos.
— Aonde vais? Aonde vais, ladrão?
Gavroche continuou:
— Isso são palavras feias. A primeira vez que lhe derem de mamar é preciso que lhe limpe melhor a boca.
O sargento cruzou a baioneta.
— Dizes-me aonde vais, ou não dizes, miserável!
— Meu general — disse Gavroche — vou chamar um médico para minha esposa, que está de parto.
— Às armas! — gritou o sargento.
Salvarem-se pelo meio que os perdeu, é em que consiste a obra-prima dos homens fortes e resolutos: num abrir e fechar de olhos, Gavroche mediu toda a situação. O
carrinho é que o tinha comprometido, era ele que devia protegê-lo.
No momento em que o sargento arreme a com Gavroche, fazia o garoto rodar furiosamente sobre ele o carro transformado em projéc l, e arremessado com toda a força possível; o sargento, levando a pancada no ventre caiu para trás no meio da lama, enquanto a espingarda se lhe disparava para o ar.
Ao grito do sargento nham os soldados saído em confusão da casa da guarda; o ro isolado determinou uma descarga geral ao acaso, depois da qual tornaram a carregar as armas e recomeçaram.
Esta fuzilaria à cabra-cega, durou um quarto de hora, e matou alguns vidros de diferentes janelas.
Entretanto, Gavroche, que nha voltado para trás a sete pés, parou, depois de ter
passado cinco ou seis ruas e sentou-se arquejante, no marco da esquina dos Enfants-Rouges.
Em seguida aplicou o ouvido.
Depois de ter descansado por alguns instantes, voltou-se para o lado de onde se ouviam os ros, ergueu a mão esquerda à altura do nariz e lançou-a três vezes para a frente, batendo ao mesmo tempo e outras tantas vezes com a mão direita na nuca, gesto soberano, no qual a gaiatada parisiense condensou a ironia francesa, que é evidentemente eficaz, por isso que já dura há meio século.
Esta alegria foi perturbada por uma reflexão amarga.
— Sim — disse ele —, abundo em alegria, mas estou perdendo o meu tempo; agora tenho de fazer um rodeio. Contanto que não chegue tarde à barricada.
Acto contínuo prosseguiu na sua corrida.
— É verdade, em que ponto estava eu? — disse ele, mesmo correndo.
E con nuou a cantar a sua canção, percorrendo rapidamente diferentes ruas, e parecendo fazer diminuir a escuridão.