Os Miseráveis
II — Retirada gradual
— Se a Toussaint aqui es vesse — tornou Jean Valjean, como uma pessoa que busca apoio na opinião de outrem, diligenciando agarrar-se a todos os ramos seria a primeira em convir que sempre ve destas par cularidades. Não há nisto novidade. Sempre fui amigo do meu cantinho escuro.
— Mas isto aqui é tão soturno e tão frio! Senhor Jean! Olhem que lembrança! Está terrível! Desde já lhe declaro que não quero que me trate por senhora!
— Quando há pouco vinha para cá — respondeu Jean Valjean — vi no armazém de um marceneiro da rua de S. Luís um lindo móvel. Se eu fosse uma mulher bonita, não ficava sem ele. Era um toucador da úl ma moda, creio que desta madeira a que chamam pau-rosa, todo cheio de embu dos, com um grande espelho, com gavetas... em suma, um objecto lindo
— Hu! Bicho feio! — respondeu-lhe Cosette.
E com supremo encanto, cerrando os dentes e afastando os lábios, soprou contra Jean Valjean. Era uma Graça, copiando uma gata.
— Estou furiosa! — con nuou ela. — Desde ontem todos me têm feito desesperar.
Sinto-me enraivecida e não entendo nada disto. Meu pai não me defende de Mário, Mário não me apoia contra meu pai; vejo-me de todo só. Preparo um quarto muito bem preparado, não pus nele Deus porque não pude, e o meu inquilino faz bancarrota e deixa-me ficar com o quarto nas mãos. Encomendo à Nicole e, um bom jantarinho: adeus, minha senhora; não quero o seu jantar. E no fim de tudo isto quer o meu pai que lhe chame senhor Jean e que lhe receba a visita numa Velha, medonha e feia sala bolorenta, cujas paredes parecem ter barbas, onde há, pelo que respeita a cristais, garrafas vazias, e por cor nas teias de aranha! Meu pai tem Singularidades, concedo, desse seu género, mas às pessoas que se casam concedem-se sempre tréguas, Não devia con nuar imediatamente a ser singular. Deixe estar que se há-de achar bem contente na rua abominável rua do Homem Armado! Sen -me ali bem desesperada, eu! Mas diga-me, o que é que tem contra mim? Olhe que me está afligindo!
E, assumindo súbita seriedade, fitou Jean Valjean e acrescentou:
— Quer-me mal por ser feliz?
A ingenuidade, sem que o suspeite, é às vezes muito penetrante. Esta pergunta, simples para Cose e, era profunda para Jean Valjean. Cose e queria arranhar e despedaçava.
Jean Valjean empalideceu, e depois de ter permanecido um instante sem responder, murmurou, com inexprimível acento e como que falando consigo mesmo:
— A sua felicidade era o alvo da minha vida. Agora pode Deus marcar a hora. És feliz, Cosette, terminei a minha obra.
— Ah, tratou-me por tu! — exclamou Cosette.
E lançou-se-lhe ao pescoço.
Jean Valjean, desorientado, estreitou-a extremosamente ao coração. Quase lhe pareceu que tomava novamente posse dela.
— Obrigado, meu pai!
Aquele entusiasmo devia tornar-se pungente para Jean Valjean: por isso desembaraçou-se suavemente dos braços de Cosette e pegou no chapéu.
— Então? — disse Cosette.
Jean Valjean respondeu:
— Retiro-me, minha senhora, estão-me esperando.
E do limiar da porta acrescentou:
— Tratei-a por tu, mas diga a seu marido que não tornará a suceder. Perdoem-me.
E saiu, deixando Cosette estupefacta com tão enigmática despedida.
II — Retirada gradual
No dia seguinte, voltou Jean Valjean à mesma hora.
Cose e não lhe fez perguntas, já não se mostrou admirada, nem se queixou de sen r frio nem o convidou a subir, evitando tratá-lo por pai, mas fugindo de chamar-lhe senhor
Jean, deixando que ele não lhe desse o tratamento de tu e a tratasse por senhora.
Apenas dava mostras de uma diminuição de alegria, que seria tristeza, se ela fosse susceptível de entristecer-se.
É natural que a jovem vesse do com Mário uma dessas conversações em que o homem amado diz o que quer, não explicando nada e sa sfazendo a mulher amada. A curiosidade dos amantes não vai muito além do seu amor.
A sala em que Jean Valjean quisera ser recebido sofrera uma pequena revolução e apresentava-se agora em estado de mais algum apuro. Biscainho fizera desaparecer as garrafas. Nicolette arvorara-se em exterminadora das aranhas.
Nos dias que se seguiram, Jean Valjean con nuou a repe r as suas visitas à mesma hora, vindo todos os dias, porque não se sen a com ânimo de deixar de tomar as palavras de Mário inteiramente ao pé da letra.
Mário fazia sempre por não estar em casa à hora em que Jean Valjean chegava.
A família acostumou-se às novas singularidades do senhor Fauchelevent, para o que não pouco contribuiu Toussaint, repetindo a cada instante:
— Isto já não é de agora. O senhor foi sempre assim.
O avô promulgou o seguinte decreto:
— É um extravagante!
E, desde então, acabou-se tudo.
Na realidade, aos noventa anos já não há afeição possível; é tudo justaposição; um estranho é uma individualidade molesta, os hábitos an gos têm todos os lugares tomados.
À vista disto, Gillenormand não somente não sen u, mas até es mou ver-se livre do tal senhor Fauchelevent, Tranchelevent ou lá o que era.
— Não há nada mais comum do que estes originais — acrescentou ele — fazem toda a espécie de extravagâncias; e a respeito de mo vo, nada de novo. O marquês de Canaples ainda era pior. Comprou um palácio para viver nas águas-furtadas! São esquisi ces que certa gente tem. Deixá-los lá!
Vê-se daqui que ninguém entrevia o sinistro interior daquele homem.
E quem, na verdade, poderia adivinhar semelhante coisa?
Há destes pântanos na Índia; a água parece extraordinária, inexplicável, trémula, sem, contudo, correr vento, agitada onde devia estar serena. Vê-se na super cie aquela efervescência sem causa; não se divisa a hidra que se arrasta no fundo.
Assim também há muitos homens que têm um monstro secreto, um mal que eles alimentam, um dragão que os dilacera, uma angús a que habita as suas trevas. Mas vemo-los passar e repassar, e parece-nos que nada os dis ngue dos outros homens.
Porque ninguém sabe que aquele infeliz tem dentro de si mesmo uma horrorosa dor parasita, que vive dentro dele, e com os seus mil dentes o lacera e mata. Porque ninguém sabe que esse homem é um abismo. Apresenta-se sereno, mas é profundo. De espaço a espaço, produz-se na super cie certa agitação para nós inteiramente incompreensível. Forma-se uma misteriosa ruga, que desaparece em seguida para tornar ainda a aparecer; vem à super cie uma bolha de ar e rebenta. É uma coisa de pouca
monta e é terrível. É a respiração do monstro oculto.
Certos hábitos singulares, chegar quando os outros se re ram, esconder-se quando os outros se mostram, proceder sempre, para assim dizer, como quem se receia de si mesmo, procurar os passeios mais escusos, preferir a rua deserta, não tomar parte em conversação nenhuma, evitar os ajuntamentos e as festas, parecer abastado e viver pobremente, trazer, apesar de rico, a chave do seu quarto no bolso e ter a vela no sótão do porteiro, entrar pela porta escusa, subir pela escada oculta, todas estas singularidades des tuídas de valor, rugas, bolhas de ar, efervescência fugi va na superfície provêm muitas vezes de um fundo medonho.
Assim decorreram algumas semanas.
Um novo sistema de vida gradualmente foi operando a sua influência sobre Cose e; as relações originadas pelo casamento, as visitas, os cuidados domés cos, os diver mentos, enfim, esses negócios importantes, tudo isto devia actuar poderosamente sobre o espírito da jovem.
Os diver mentos de Cose e eram pouco dispendiosos; consis am num só — estar com Mário. Sair com ele, ficar com ele em casa, tal era a grande ocupação da sua vida.
Era para eles um prazer sempre novo saírem de braço dado, à face do sol, pelo meio das ruas, sem se esconderem, à vista de toda a gente, sozinhos.
No meio de tudo isto, porém, sofreu Cosette uma contrariedade.
Toussaint não pôde dar-se com Nicole e, por isso que a liga de duas velhas é sempre impossível, e despediu-se.
Gillenormand passava bem; Mário ocupava-se a advogar, de quando em quando, alguma causa; a a Gillenormand passava na companhia do jovem casal a vida lateral, com que se dava por satisfeita.
Quanto a Jean Valjean, continuava a vir todos os dias.
O desaparecimento daquele «tu» de outrora, a sua subs tuição pelo tratamento de senhora, a transformação daquele inefável nome de pai em senhor Jean, tudo isto acabara por transfigurar Jean Valjean aos olhos de Cosette.
Assim, pois, o infeliz conseguia o bom sucesso da diligência que ele próprio empregara para desligá-la de si. A jovem cada vez dava mostras de maior jovialidade, e de menos afecto.
Todavia, era certo que ela ainda lhe consagrava grande afeição, e ele próprio o reconhecia.
Uma ocasião, ela disse-lhe abruptamente:
— O senhor era meu pai e já não é meu pai, era meu o e já não é meu o, era senhor Fauchelevent, agora é Jean. Afinal de contas, quem é? Confesso-lhe que não gosto nada destas coisas! Se não fosse saber o bondoso coração que possui, nha-lhe medo!
Jean Valjean con nuava a morar na rua do Homem Armado, porque não podia resolver-se a afastar-se do Ideal habitado por Cosette.