Os Miseráveis
XVI — Quot libras in duce?
A palavra de Cambronne produz o efeito de uma fractura. É o arrombamento de um peito pelo desprezo; é a explosão da superabundância do sofrimento. Quem venceu? Foi Wellington? Não. Sem Blucher estava perdido. Foi Blucher? Não. Se Wellington não vesse começado, Blucher não teria podido acabar. Esse Cambronne, esse transeunte da úl ma hora, esse soldado ignorado, essa insignificância da guerra, conhece a men ra que há numa catástrofe, pungente redobro de dor; e no momento em que estala de raiva, oferecem-lhe o escárnio, a vida! Como deixaria de estoirar!
Estão ali todos os reis da Europa, os generais felizes; os Júpiteres tonantes contam cem mil soldados vitoriosos, e por trás dos cem mil mais um milhão; as suas peças estão escancaradas e com os morrões acesos, têm debaixo dos pés a guarda imperial e o grande exército, acabam de aniquilar Napoleão, e não resta senão Cambronne; não há para protestar senão este pequeno verme. Mas o verme protestará. Para isto, procurou uma palavra como se procurasse uma espada. Sobrevém-lhe espuma e essa espuma é a palavra procurada.
Em presença da vitória sem vitoriosos, aquele desesperado ergue-se; sofre-lhe o peso enorme, mas regista-lhe a nulidade; faz mais do que escarrar-lhe em cima; e, sob a opressão do número, da força e da matéria, encontra na alma uma expressão, o excremento. Repe mo-lo, dizer, fazer, achar uma tal coisa, é ser vencedor. O espirito dos grandes dias entrou no homem desconhecido naquele fatal momento. Cambronne achou a expressão de Waterloo como Rouget de L’Isle achou a Marselhesa, pela visita de sopro que vem de cima.
Um eflúvio da tempestade divina destaca-se e vem passar atrás destes homens, fá-los estremecer, um entoa o cân co supremo, o outro solta o grito, terrível. Essa palavra de desprezo tânico não a lança Cambronne somente à Europa em nome do império, seria pouco; lança-a ao passado em nome da revolução. Ouve-se e reconhece-se em Cambronne a velha alma dos gigantes. Parece que é Danton falando, ou Kléber rugindo.
A palavra de Cambronne respondeu a voz inglesa: Fogo!
As baterias flamejaram, a colina estremeceu, de todas aquelas bocas de bronze saiu um úl mo e espantoso vómito de metralha; densa nuvem de fumo um pouco esbranquiçado pelos primeiros raios da Lua, toldou o espaço, e quando se dissipou não havia mais nada. Os temíveis restos nham sido aniquilados, a guarda estava morta As quatro paredes do reduto vivo jaziam por terra, apenas se dis nguia num ou noutro ponto, algum estremecimento entre os cadáveres.
Foi assim que as legiões francesas, mais grandiosas do que as romanas, expiraram em Mont-Saint-Jean, no solo ensopado em água e sangue, no meio das sombrias searas de trigo, no lugar em que hoje passa, às quatro horas da manhã, assobiando e fus gando alegremente o seu cavalo, o condutor José, que faz o serviço da mala-posta de Nivelles.
XVI — Quot libras in duce?
O combate de Waterloo é um enigma. É tão obscuro para os que a ganharam, como para os que o perderam.
Para Napoleão é um pânico. 8 Blucher não viu nela senão fogo, Wellington nem de leve a compreendeu. Vede os relatórios. Os bole ns são confusos, os comentários intrincados. Estes balbuciam, aqueles gaguejam.
Jomini divide a batalha de Waterloo em quatro momentos. Mufling corta-a em três peripécias; Charras, conquanto em alguns pontos apreciemos as coisas de outro modo, foi o único que soube abranger, com o olhar penetrante que se lhe nota, os lineamentos caracterís cos daquela catástrofe do génio humano a braços com o acaso divino. Todos os outros historiadores parecem ví mas de certo deslumbramento que os fez andar às apalpadelas.
Jornada fulgurante, com efeito, desmoronamento da monarquia militar, que com grande espanto dos reis, arrastou todos os reinos; queda da força, derrota da guerra.
Neste acontecimento impregnado de necessidade sobrenatural é nula a parte tomada pelos homens.
Tirando Waterloo a Wellington e a Blucher, ra-se alguma coisa à Inglaterra e à Alemanha? Não. Nem essa ilustre Inglaterra, nem essa augusta Alemanha entram no problema de Waterloo. Graças ao céu, os povos são grandes fora das lúgubres aventuras da espada. Nem a Alemanha, nem a Inglaterra, nem a França, ram a sua grandeza de uma bainha.
Na época em que Waterloo não era mais do que o nir de sabres, nha a Alemanha acima de Blucher, Goethe. E a Inglaterra acima de Wellington, Byron.
É próprio do nosso século o vasto aparecimento de ideias, e dessa aurora produzem a Inglaterra e a Alemanha um clarão magnífico. São majestosas porque pensam. A elevação de nível que trazem à civilização é-lhes intrínseca, provêm-lhes de si mesmas, e não de um acidente. O que elas têm de engrandecimento no século XIX, não lhes brotou de Waterloo. Só os povos bárbaros têm súbitas indigestões depois de uma vitória.
É a vaidade passageira das torrentes engrossadas pela tempestade.
Os povos civilizados, sobretudo nos tempos em que estamos, não se elevam nem se rebaixam pela boa ou má fortuna de um capitão. O seu peso específico no género
humano resulta de alguma coisa superior a um combate. A sua honra, a sua dignidade, luzes e génio, graças a Deus!, não são algarismos, que esses jogadores, conquistadores e heróis, possam arriscar na lotaria das batalhas. Muitas vezes uma batalha perdida é um progresso adquirido. Menos glória, mais liberdade. Cala-se o tambor, cabe a palavra à razão. É o jogo em que ganha quem perde. Falemos, pois, de Waterloo, friamente por ambos os lados. Demos ao acaso o que é do acaso e a Deus o que é de Deus. O que foi Waterloo? Uma vitória? Não. Uma par da de jogo. Jogo ganho pela Europa e pago pela França.
Não valia muito a pena de colocar ali um leão.
Quanto ao resto, Waterloo é o mais extraordinário encontro que figura na história.
Napoleão e Wellington. Não eram dois inimigos eram dois caracteres opostos.
Deus, que se apraz com as an teses, nunca produziu mais frisante contraste, ou confronto mais extraordinário. De um lado a exac dão, a previsão, a geometria, a prudência, a re rada segura, as reservas poupadas, um inalterável sangue-frio, um método imperturbável que se aproveita do terreno, a tác ca que equilibra os batalhões, a carnificina alinhada a cordão, a guerra dirigida de relógio na mão, coisa alguma entregue voluntariamente ao acaso, a velha coragem clássica e a correcção absoluta; do outro a intuição, a predição, a excentricidade militar, o ins nto sobrenatural, a flamejante certeza da vista, o não sei quê, que olha como a águia e fere como o raio, uma arte prodígio numa impetuosidade desdenhosa, todos os mistérios de uma alma profunda, a associação com o des no; o rio, a planície, a floresta e a colina empregados, e de certo modo obrigados a obedecer, o déspota ranizando até o campo de batalha; a fé numa estrela de envolta com a ciência estratégica, engrandecendo-a.
Wellington era o Bareme da guerra. Napoleão o seu Miguel Ângelo; e desta vez o génio foi vencido pelo cálculo.
De ambos os lados se esperava por alguém. Foi o calculista exacto o bem sucedido.
Napoleão esperava Grouchy, não apareceu. Wellington esperava Blucher, não deixou de vir.
Wellington é a guerra clássica tomando a sua desforra. Bonaparte, ainda na sua aurora, encontrando-a na Itália, Abatera-a soberbamente. A velha coruja fugira diante do novel abutre. A táctica velha, fora não somente fulminada, mas escandalizada.
Quem era esse corso de vinte e seis anos, o que significava o ignorante esplêndido, que tendo tudo contra si, sem víveres, sem munições, sem ar lharia, sem calçado, quase sem exército, com um punhado de homens contra enormes massas, precipitando-se sobre a Europa coligada e ganhando absurdamente vitórias impossíveis? Quem era esse recém-chegado à guerra, mostrando a arrogância de um astro? A escola académica militar excomungava-o cedendo-lhe o terreno. Daqui um implacável rancor do velho contra o novo cesarismo, do sabre correcto, contra a espada flamejante e do xadrez contra o génio.
No dia 18 de Junho de 1815, esse rancor soltou a sua úl ma expressão, e por baixo de Lodi, de Montebelo, de Monteno e, de Mantua, de Marengo e de Arcole, escreveu Waterloo.
Triunfo dos medíocres, agradável às maiorias. O destino consentiu esta ironia.
Napoleão, na decadência, encontrou diante de si Wurmser moço.
Com efeito, para se ter Wurmser, basta embranquecer os cabelos de Wellington.
Waterloo é uma batalha de primeira ordem, ganha por um general de segunda. O que é indispensável admirar na batalha de Waterloo, é a Inglaterra; é a firmeza, a resolução e o sangue inglês; o que a Inglaterra ali tem de soberbo, não lhe desagrada, é ela mesma.
Não é o seu capitão, é o seu exército. Wellington, extravagantemente ingrato, declara numa carta a lord Bathurst que o seu exército que combateu no dia 18 de Junho de 1815, «era detestável».
O que pensará disto a sombria acumulação de ossadas no solo de Waterloo?
A Inglaterra foi demasiadamente modesta em presença de Wellington. Fazer Wellington tão grande, é tornar a Inglaterra pequena, Wellington não é mais do que um herói como qualquer outro.
Os escoceses pardos, as guardas a cavalo, os regimentos de Maitland e de Mitchell, a infantaria de Pack e Kempt, a cavalaria de Ponsomby e de Somerset, os Highlanders, tocando a gaita de foles debaixo da metralha, os batalhões de Rylandt, os recrutas completamente novatos, que sabiam apenas o manejo da arma resis ndo aos velhos corpos de Essling e de Rivoli, eis o que é grande.
Wellington mostrou-se tenaz, foi esse o seu mérito, não lho contestamos, mas o último dos seus peões ou dos seus cavaleiros mostrou-se tão firme como ele.
O iron soldado valeu bem o iron duque. Quanto a nós, dirigimos toda a nossa glorificação ao soldado inglês, ao exército inglês e ao povo inglês.
Se há trofeu pertence à Inglaterra. A coluna de Waterloo seria mais justa, se em vez da figura de um homem, sustentasse entre as nuvens a estátua de um povo. Mas essa grande Inglaterra irritar-se-á, decerto, com o que aqui dizemos. Depois do seu 1688 e do nosso 1789, conserva ainda a sua ilusão feudal. A Inglaterra crê na hereditariedade e na hierarquia.
Esse povo, que nenhum outro ultrapassa em poder e glória, es ma-se como nação, e não como povo. Enquanto povo, subordina-se voluntariamente e toma um lord por uma cabeça. Workman deixa-se açoitar. Todos se recordam da batalha de Inkermann, onde um sargento, que, segundo parece, salvara o exército, não pôde ser mencionado por lord Raglan, porque a hierarquia militar inglesa não permite que se faça menção alguma de qualquer herói, que não seja oficial, ao menos subalterno.
O que admirámos acima de tudo, num conflito do género do de Waterloo, é a prodigiosa habilidade do acaso.