Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 175 de 359

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Os Miseráveis

VI — Rés Augusta

Se o grande César me desse

A glória de vencedor,

Contanto que eu perdesse

De minha mãe o amor,

Eu diria ao grande César:

Guarda lá a tua glória,

Que o amor de minha mãe

Não o troco pela história.

O tom terno e ao mesmo tempo vibrante em que Combeferre cantava estes versos dava-lhes uma como grandeza estranha, que fez com que Mário quase maquinalmente repetisse, fitando os olhos no tecto, com ar pensativo:

— Minha mãe!

Na ocasião, porém, em que proferia esta frase, Enjolras pousou-lhe a mão no ombro e

disse-lhe:

— Cidadão, minha mãe é a república.

VI — Rés Augusta

O que o mancebo passara nessa noite abalou-o profundamente, ensombrando-lhe a alma de uma nuvem negra de tristeza. Mário experimentou o mesmo que a terra decerto experimenta, quando pelo arado é aberta para receber o grão de trigo que se há-de desenvolver no seu seio; então apenas sente a dor que lhe causa o ferro; o estremecimento do germe e o prazer do fruto só mais tarde é que chegam.

Mário ficou sombrio. Pois havia de tão rapidamente abjurar as crenças que ainda há tão pouco se lhe nham infiltrado no coração? A si próprio respondeu que não, fazendo esforços para repelir a dúvida, mas principiando, mau grado seu, a duvidar.

Esta posição do homem que se vê entre duas religiões a que ainda não abandonou e a que ainda não abraçou é insuportável; só às almas-morcegos agradam os crepúsculos e as meias-luzes. Mário, portanto, cujos olhos se não cegavam com a claridade, queria a verdadeira luz, e por isso desprazia-lhe o mor ço clarão da dúvida. Por maiores que fossem os desejos que nha de ficar onde estava e não se desviar desse ponto, sen a-se irresis velmente constrangido a con nuar, a avançar, a examinar, a pensar e a caminhar para diante. Aonde o levaria esse estranho impulso? Não o sabia. Receava que, depois de ter andado tanto no caminho que o aproximara a seu pai, agora retrogradasse, afastando-se dele. A cada reflexão em que se lhe embrenhava o espírito aumentava-lhe o embaraço da sua posição. Para onde quer que olhasse, só se via rodeado de precipícios. Nem estava de acordo com seu avô nem com os seus amigos; para aquele era temerário, para estes andava atrasado; sen a-se assim duas vezes abandonado, pelos velhos e pelos novos. Deixou de ir ao Café Musain.

No meio da perturbação que lhe agitava a consciência, o mancebo já se não lembrava de certos aspectos sérios da existência. Mas as realidades da vida, que se fazem sempre lembradas, vieram repentinamente despertá-lo das suas abstracções.

Uma manhã, o dono da estalagem entrou no quarto do rapaz e disse-lhe:

— O senhor Courfeyrac abonou-o.

— Abonou.

— Mas o pior é que eu necessitava de dinheiro.

— Mande dizer ao senhor Courfeyrac se faz favor de vir falar-me.

Apenas este chegou, o dono da estalagem re rou-se, e Mário contou-lhe o que não se lembrara ainda de lhe ter dito, que era quase só no mundo e que não tinha parentes.

— Visto isso, que há-de ser de si? — perguntou Courfeyrac.

— Não sei — respondeu Mário.

— Mas que tenciona fazer?

— Não sei.

— Tem algum dinheiro?

— Quinze francos.

— Quer que lhe empreste mais algum?

— De modo nenhum.

— Tem roupa?

— Esta que vê.

— E alguns objectos de valor?

— Um relógio.

— De prata?

— Não, de ouro.

— Eu conheço um adelo a quem pode vender um dos casacos e um par de calças.

— Está bem.

— Ficar-lhe-ão outras calças, um colete, um chapéu e um casaco.

— E as botas.

— Boa! Então faz tenção de andar descalço? Que opulência!

— É quanto basta.

— Conheço um relojoeiro que de certo lhe compra o relógio.

— Bem.

— Não está bem, não. Que tenciona fazer depois?

— Sujeitar-me-ei a tudo, bem entendido, que não for proibido pela honra.

— Sabe inglês?

— Não.

— E alemão?

— Também não.

— Isso é mau.

— Porquê?

— Porque um livreiro meu amigo vai publicar uma espécie de enciclopédia, para a qual o senhor podia traduzir alguns ar gos do alemão ou do inglês. Pouco se ganha, mas vive-se.

— Nesse caso vou-me pôr a aprender inglês e alemão.

— E entretanto?

— Entretanto irei passando com o produto do casaco e do relógio.

O mancebo mandou chamar o adelo, que lhe deu vinte francos pelo casaco, e depois foram a casa do relojoeiro, que lhe comprou o relógio por quarenta e cinco francos.

— O negócio corre bem — disse Mário a Courfeyrac ao recolherem para a estalagem

—, com os quinze francos que tenho perfaz oitenta francos.

— E a despesa da estalagem?

— Ai, é verdade, não me lembrava! — disse Mário.

O estalajadeiro apresentou-lhe a conta que montava a setenta francos e que o rapaz teve de pagar logo.

— Fico com dez — disse Mário.

— Diabo! — disse Courfeyrac. — São, portanto, cinco francos para gastar enquanto não aprende o inglês e outros cinco enquanto não aprender o alemão. Será engolir uma língua com muita precipitação ou uma moeda de cem soldos muito devagar.

Depois de muitos esforços, porém, a filha mais velha de Gillenormand, que era dotada de bom coração, viera, por úl mo, a dar com a casa da habitação de Mário, e um dia

pela manhã, o mancebo, ao recolher-se da aula, encontrou uma carta de sua a e sessenta pistolas, isto é, seiscentos francos em ouro, num embrulho lacrado.

Mário tornou a mandar os trinta luíses a sua a, fazendo-os acompanhar de uma respeitosa carta, em que lhe dizia achar-se com suficientes meios de subsistência e poder agora satisfazer todas as suas necessidades. Nessa ocasião restavam-lhe três francos.