Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 197 de 359

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Os Miseráveis

III — Quadrifrons

Acabava de transpor o limiar da porta que mame Bougon naquele momento andava a varrer, proferindo este memorável monólogo:

— Hoje em dia que coisa deixa de estar cara? Nada. Está tudo pela hora da morte. A única coisa barata são os trabalhos deste mundo. Mas para que servem os trabalhos deste mundo? Para nada!

Mário caminhava vagarosamente pelo boulevard, dirigindo-se para a barreira, a fim de tomar para a rua de S. Jacques, pensa vo e de olhos fitos no chão, quando de súbito por entre a névoa sen u um encontrão; voltou-se e viu duas jovens esfarrapadas, uma alta e magra, a outra mais baixa, que passaram rapidamente, esbaforidas, assustadas e -como quem foge, e que, ao passarem, como o não viram, nham esbarrado com ele. Por entre o crepúsculo, Mário dis nguiu-lhes os lívidos rostos, as cabeças descobertas, os cabelos soltos, as esfarrapadas saias e os pés descalços. Iam correndo e falando uma com a

outra, e a mais alta dizia à sua companheira, em voz que se ouvia:

— O caso é que os partazanas por um triz me não deitam o gatazio! Toma que te dou eu!.

E a outra respondia.

— Eu bem os vi, mas apenas lhes deitei o luzio, por aqui me sirvo!

Através desta sinistra gíria, Mário entendeu que os gendarmes ou os cabos es veram quase a apanhar aquelas duas crianças e que elas lhes nham fugido. As duas raparigas embrenharam-se por baixo das árvores do boulevard, de onde o jovem vinha, e onde durante alguns instantes desenharam na escuridão uma espécie de vaga brancura que se desfez; e Mário, que parara um momento, dispôs-se a seguir para o seu destino.

Ia, porém, a con nuar o seu caminho, quando, olhando para o chão, avistou um embrulho pardo. Baixou-se e pegou nele. Era uma espécie de sobrescrito que parecia conter papéis — Foram decerto aquelas infelizes que deixaram cair isto! — disse ele.

Voltou atrás, chamou, porém não as tornou a ver; julgando, pois, que já iriam longe, meteu o embrulho no bolso e foi jantar.

No caminho viu numa álea da rua de Mouffetard um caixão de um anjinho coberto com um pano preto, colocado em cima de três cadeiras e alumiado por uma vela.

Voltaram-lhe então à lembrança as duas raparigas do anoitecer.

— Pobres mães! — disse ele consigo. — Ainda há para vós coisa mais triste do que verdes morrer vossos filhos; é vê-los viver mal!

Depois, estas sombras, que variavam a sua tristeza, saíram-lhe do pensamento e ele voltou às suas habituais preocupações. Principiou a pensar nos seus seis meses de amor e ventura, ao ar livre e à luz do meio-dia, debaixo das belas árvores do Luxemburgo.

— Como se tornou sombria a minha vida! — dizia ele a sós consigo. — Ainda me aparecem as jovens, porém dantes eram anjos, agora são gaviões depenados!

III — Quadrifrons

A noite, ao despedir-se para se deitar, Mário meteu casualmente a mão ao bolso do casaco e encontrou o embrulho que achara no boulevard e de que já se nha esquecido.

Lembrou-se que seria conveniente abri-lo porque talvez dentro viesse a indicação da morada das raparigas, se, na realidade, este lhes pertencia, e, em todo o caso, os esclarecimentos necessários para o restituir à pessoa que o perdera.

Desfez o embrulho e encontrou nele quatro cartas abertas, mas todas com direcção e exalando forte cheiro a tabaco.

A primeira era dirigida à Senhora Marquesa de Grucheray, defronte do palácio das cortes n.º...

Mário julgou que talvez nesta carta encontrasse as indicações que procurava, e parecendo-lhe verosímil que, visto ela não estar fechada, podia ser lida sem inconveniente, resolveu lê-la.

A carta era concebida nos seguintes termos:

Senhora Marquesa:

A virtude da clemência e piedade é a que mais estreitamente une a sociedade. Digne-se V. Ex.ª dar largas aos seus sen mentos cristãos, lançando um olhar de compaixão sobre este infeliz espanhol, ví ma da sua

lealdade e afecto à sagrada causa da legi midade, pela qual verteu o seu sangue e arruinou toda a sua fortuna, vendo-se hoje na maior miséria. Bem certo está ele de que V. Ex.ª lhe não negará algum socorro para conservar os tristes dias da vida a um militar bem educado, honrado e coberto de feridas, que de antemão conta com os sen mentos da humanidade que animam V. Ex.ª e com o interesse que sempre tem mostrado por uma nação tão desditosa. As suas súplicas, pois, não serão vãs, pelo que desde já me confesso eternamente grato.

Digne-se V. Ex.ª aceitar os protestos de respeito e veneração com que tenho a honra de ser.

De V. Ex.ª

Dom Alvarez, capitão espanhol de cavalaria, realista refugiado em França, que se dispõe a regressar para a sua pátria, mas que lhe faltam os recursos para continuar a viagem.

Nem uma só palavra depois da assinatura con nha a carta por onde o jovem conhecesse a residência do capitão espanhol.

Esperando encontrá-la na segunda carta, resolveu lê-la também. Era dirigida à Senhora Condessa de Montvernet, rua Cassette n.º 9, e o seuconteúdo era o seguinte: Senhora Condessa:

Sou uma desgraçada mãe de família com seis filhos, tendo o úl mo só oito meses. Desde o meu úl mo parto que estou doente e abandonada há cinco meses por meu marido, sem recurso nenhum no mundo e na mais completa indigência.

Esperançada em V. Ex.ª, tenho a honra de ser com o mais profundo respeito De V. Ex.ª

A infeliz Balizard

Passou à terceira carta, que era uma súplica, como as precedentes, e eis o que leu: Senhor Pabourgeot, eleitor, negociante de bonés por atacado, Rua de S. Dinis, à esquina da Rua dos Ferros.

Tomo a liberdade de me dirigir ao senhor para lhe rogar que me conceda o precioso favor das suas simpa as e tome debaixo da sua protecção um homem de letras, autor de um drama que deseja pôr em cena, no Teatro Francês. O assunto deste drama é histórico, e a acção passa-se no Auvergne no tempo do império; o seu es lo, no meu entender, é natural, lacónico, e tem talvez algum merecimento. Tem «couplets» para se cantarem, em quatro passagens. Ao chiste, gravidade e arrojo dos lances, junta este drama a variedade nos caracteres e uns laivos român cos ao de leve espalhados por todo o entrecho, que se desenvolve misteriosamente, indo afinal, após peripécias de grande efeito, terminar no meio de muitos lances admiráveis.

O meu fito principal é sa sfazer o desejo que progressivamente anima o homem do nosso século, quero dizer, a «moda», caprichosa e singular grimpa, que quase muda a cada novo vento.

Apesar destas qualidades receio que a inveja, o egoísmo dos autores privilegiados, consiga a minha exclusão do teatro, pois bem sei os dissabores que têm a tragar os autores que pela primeira vez se apresentam.

Senhor, a sua justa reputação de protector esclarecido dos homens de letras, infunde-me ousadia para lhe mandar minha filha que lhe exporá a nossa indigente situação, faltos de pão e de lume, nesta invernosa quadra. Dizer-lhe que lhe peço que aceite a homenagem que desejo fazer-lhe do meu drama e de todos os que vier a compor, é dar-lhe uma prova de quanto ambiciono a honra de me abrigar debaixo da sua égide e adornar os meus escritos com o seu nome. Se se dignar honrar-me aceitando tão modesta oferenda, brevemente encetarei uma peça em verso, para deste modo lhe pagar o meu tributo de reconhecimento.

Esta peça que diligenciarei tornar o mais perfeita que me seja possível, ser-lhe-á enviada antes de ser inserida no princípio do drama, e recitada em cena.

Ao senhor e senhora Pabourgeot, as minhas mais respeitosas homenagens Genflot

Homens de letras.

P. S. — Ainda que não sejam senão quarenta soldos.

Desculpe-me por mandar minha filha e não me apresentar eu mesmo; porém, infelizmente, não mo permitem tristes motivos de vestuário...

Mário abriu por fim a quarta carta, cujo sobrescrito era endereçado ao S enhor benfeitor da igreja de S. Jacques du Haut-Pas, e continha estas poucas linhas: Homem caridoso:

Se se dignar acompanhar minha filha verá uma calamidade miserável e eu lhe mostrarei os meus atestados.

Ao aspecto destes escritos a sua generosa alma experimentará um sen mento de sensível benevolência, pois os verdadeiros filósofos experimentam sempre vivas emoções.

Decerto concorda comigo, homem compassivo, que necessariamente tem de sofrer grandes necessidades e ser-lhes bem doloroso, que os que gemem na penúria o façam atestar pela autoridade, como se nem ao menos fosse isto sofrer e morrer de inanição, enquanto os não aliviam na sua miséria. O des no que tão pródigo ou tão protector se mostra para alguns, para outros não pode ser mais fatal.

Espero a vossa presença ou a esmola que se dignar mandar-me, e peço-lhe aceite os protestos de respeito com que tenho a honra de ser,

Homem verdadeiramente magnânimo,

Humilde servo e criado obrigadíssimo,

P. Fabantou

artista dramático

Mário, depois de ter lido estas quatro cartas não se achou mais adiantado do que dantes.

Em primeiro lugar nenhuma das assinaturas estava acompanhada da morada; depois, pareciam provir de quatro indivíduos diferentes: D. Alvarez, uma mulher apelidada Belizard, o poeta Genflot, e o ar sta dramá co Faibantou; mas o seu lado extraordinário, era serem todas escritas com a mesma letra.

O que havia de concluir senão que provinham da mesma pessoa?

Além de tudo, o que tornava a conjectura ainda mais verosímil, o papel grosso e amarelado era igual nas quatro cartas, todas cheiravam a tabaco, e, conquanto ves-sem evidentemente diligenciado variar o es lo, produziam-se em todas os mesmos erros de ortografia com a mais profunda tranquilidade, não sendo mais isento deles o homem de letras Genflot, do que o capitão espanhol.