Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 126 de 359

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Os Miseráveis

IX — Um século sob um hábito

Excepto ele e o jardineiro, como já dissemos, nenhum outro homem entrava no convento. As recolhidas, essas viam mais dois: o abade Benés, esmoler, velho e feio, que lhe era concedido contemplar por entre uma grade, e o mestre de desenho, o senhor Ansiaux, que a carta de que o leitor já leu algumas linhas chama senhor Anciot e que qualifica de velhote corcovado.

Daqui se vê que os homens eram todos escolhidos.

Tal era, pois, aquela curiosa casa.

VIII — Post corda lapides

Após havermos esboçado a figura moral daquele convento, não será inú l indicar em poucas palavras a sua configuração material.

O convento de Santo António do Pe t-Picpus ocupava quase todo o trapézio que resultava das intersecções da rua de Polonceau, da rua do Muro Direito, da rua do Picpus e do beco sem saída, chamado nas an gas plantas a rua de Aumarais. Estas quatro ruas

cercavam à maneira de fosso aquele trapézio. Compunha-se o convento de muitos edi cios e de um jardim. O edi cio principal, considerado em globo, era uma justaposição de construções híbridas, que, vistas em linha recta, desenhavam com bastante exac dão uma forca pregada no chão. A haste mais comprida ocupava todo o troço da rua do Muro Direito, compreendido entre a rua do Picpus e a rua de Polonceau; a haste pequena era uma alta, escura e severa fachada gradeada, que deitava para a rua de Picpus; marcava a sua extremidade a porta número 62. No meio da fachada havia uma por nha velha, de arco, coberta de pó e de cinza e cheia de teias de aranhas, que só se abria por uma ou duas horas aos domingos, ou nas raras ocasiões em que do convento saía o féretro de alguma religiosa. Era a entrada pública da igreja. O ângulo da forca era uma sala quadrada que servia de copa, a que as religiosas davam o nome de despensa. Na haste comprida ficavam as celas das madres e das sorores, e o noviciado.

Na haste mais curta, as cozinhas, o refeitório, que era paralelo ao claustro, e a igreja.

Entre a porta número 62 e a esquina do beco sem saída de Aumarais, ficava o Recolhimento, que de fora não se via. Formava o resto do trapézio o jardim que ficava inferior ao nível da rua de Polonceau, o que fazia com que os muros da parte de dentro ainda fossem mais altos do que pela parte de fora. No meio do jardim, que fazia uma pequena volta, elevava-se no cimo de um mon culo um belo pinheiro, aguçado em forma cónica, e do qual, como da rodela de um escudo, par am quatro grandes áleas e dispostas duas a duas nas ramificações das quatro grandes, oito pequenas, de maneira que se a cerca fosse circular, o plano geométrico das áleas semelharia uma cruz colocada sobre uma roda. Todas estas áleas, porém, orladas de groselheiras, eram de comprimentos desiguais, por isso que os muros em que vinham terminar eram irregularíssimos. No fim do jardim havia uma álea de grandes choupos que par a das ruínas do convento velho que ficava à esquina da rua do Muro Direito e ia terminar no edi cio do Pequeno Convento, que ficava à esquina do beco de Aumarais. Em frente deste edi cio estendia-se o chamado jardim pequeno. Junte-se a tudo isto um pá o, toda a espécie de variados ângulos, que faziam as moradas inferiores, paredes como as de uma cadeia, por única perspec va e vizinhança a comprida linha negra de telhados que orlava o lado fronteiro da rua do Polonceau, e poder-se-á formar uma imagem completa do que há quarenta e cinco anos era o convento das bernardas do Pe t-Picpus.

Observaremos por úl mo que aquela santa casa havia sido edificada exactamente no local onde, desde o século XIV até ao século XVI, exis u um famoso jogo de pela, chamado a Espelunca dos onze mil diabos.

Todas aquelas ruas eram das mais an gas de Paris. Estes nomes de Muro Direito e Aumarais são bastante velhos; porém, as ruas que designam ainda são mais velhas. O

beco de Aumarais chamou-se primeiro beco de Mangout, e a rua do Muro Direito rua das Roseiras Bravas, porque antes dos homens saberem lavrar pedras, já Deus ordenava às flores que desabrochassem.

IX — Um século sob um hábito

Já que tão de damente viemos a ocupar-nos do que noutro tempo era o convento do Pe t-Picpus, ousando abrir uma janela por onde devassássemos o interior daquele

discreto asilo, permita-nos ainda o leitor uma pequena digressão estranha à essência deste livro, mas caracterís ca e ú l, por isso que dá lugar a sabermos que o convento também tem suas figuras originais.

Havia no pequeno Convento, uma centenária que para ali nha vindo da abadia de Fontevrault. Antes da revolução pertencera mesmo à boa sociedade. Falava muito do senhor de Miromesnil, guarda dos selos no reinado de Luís XVI e de uma presidenta Duplat, a quem de muito perto conhecera. O seu gosto, a sua vaidade, era vir à baila com estes dois nomes, a propósito de tudo em que se falasse. Além disto, contava maravilhas da abadia de Fontevrault, pintando-a como uma cidade, e dizendo que no mosteiro havia ruas.

A sua linguagem era um geringonça picarda, que fazia rir as recolhidas. Todos os anos renovava solenemente os seus votos, e na ocasião em que prestava juramento, dizia para o sacerdote: «Monsenhor S. Francisco arrendou-o a Monsenhor S. Julião, Monsenhor S. Julião arrendou-o a Monsenhor S. Eusébio, Monsenhor S. Eusébio arrendou-o a Monsenhor S. Procópio, etc., etc.; do mesmo modo eu lho arrendo, meu padre».

E as recolhidas riam não à socapa, mas por baixo do véu, graciosos risinhos abafados que faziam encrespar o sobrolho às madres vocais.

De uma vez, estando a centenária a contar histórias, disse para as que a ouviam: «No meu tempo os bernardas não ficavam a dever nada aos mosqueteiros». Era um século que falava, mas era o século XVIII. Descrevia o costume dos quatro vinhos usados em Champagne e Borgonha antes da revolução. Quando por alguma cidade de Borgonha ou de Champagne passava qualquer grande personagem, como um marechal de França, um príncipe, um duque, um par, vinha esperá-lo a câmara e após um es rado discurso apresentava-lhe quatro vasos de prata contendo quatro vinhos diferentes. Na primeira taça lia-se esta inscrição: vinho de macaco; na segunda, vinho de leão; na terceira, vinho de carneiro; na quarta, vinho de porco». Estas quatro legendas exprimiam os quatro graus da embriaguez: o da embriaguez que alegra, o da embriaguez que irrita, o da embriaguez que entontece, o da embriaguez que embrutece.

Tinha ela num armário, fechado à chave, um objecto misterioso que muito es mava, e que não era proibido pela regra de Fontevrault. Não queria que ninguém o visse.

Fechava-se na cela, o que a sua regra lhe permi a, e escondia-se todas as vezes que o queria contemplar. Se sen a vir gente pelo corredor tornava a fechar o armário o mais precipitadamente que podia fazê-lo com as suas trémulas mãos. Mal lhe falavam nisto calava-se, ela que tão amiga de falar era. As mais curiosas viram malogrados os seus esforços em presença do seu silêncio e as mais tenazes em presença da sua obs nação.