Os Miseráveis
VI — O sorvedouro
Diversas eram as causas das algaras; friabilidade do solo, algum aluimento em profundidade fora do alcance do homem; os fortes aguaceiros do Verão; as chuvas con nuadas do Inverno; os chuviscos aturados. As vezes o peso das casas circunjacentes sobre um terreno marnoso ou arenoso apertava as abóbadas das galerias subterrâneas e as fazia sair do nível, se é que muitas vezes não saltava o pavimento fora do seu lugar, comprimido pela enorme massa dos prédios vizinhos. Assim foi que, com o peso do Panteon, há um século, ficou completamente destruída parte dos subterrâneos da montanha de Santa Genoveva. Quando qualquer cano aba a com a pressão das casas, o estrago, em certas ocasiões, traduzia-se no pavimento da rua por um desnivelamento entre as pedras, que se estendia, serpenteando, em toda a extensão da abóbada arruinada, e, nesse caso, como o mal era visível, o remédio podia ser pronto. Acontecia, porém, muitas vezes que o estrago interno não se dava a demonstrar por indício algum externo. Nesse caso, ai dos limpadores, porque, entrando desprevenidos no cano aluído, podiam perder-se nele. Os an gos registos fazem menção de alguns limpadores que, deste modo, ficaram sepultados nas algaras. Entre muitos nomes que nesses documentos figuram, encontramos o do limpador que morreu em virtude do aluimento
do cano da rua de Careine-Prenant, um tal Braz Poutrain, irmão de Nicolau Poutrain, o úl mo coveiro do cemitério chamado Carneiro dos Inocentes, em 1758, época em que este cemitério deixou de existir.
Nos mesmos documentos deparamos com o nome do jovem e elegante visconde de Escoubleau, de quem acima falamos, um dos heróis do terço de Lérida, onde o assalto foi dado com rebecas na frente e ves ndo os assaltantes meias de seda. Escoubleau, surpreendido, uma noite, em casa de sua prima, a duquesa de Sourdis, afogou-se num atoleiro do cano Beautreillis, onde se nha refugiado para escapar ao duque. Quando, lhe contaram a morte do visconde, Madame de Sourdis pediu o seu frasco e esqueceu-se de chorar à força de respirar sais.
Em caso análogo não há amor que resista; a cloaca extingue-o.
Hero recusa lavar o cadáver de Leandro; Tysbe põe a mão no nariz ao avistar Pyraimo e exclama:
— Puf!
VI — O sorvedouro
Jean Valjean achava-se na presença de uma das depressões de terreno de que acabámos de falar.
Aquele género de desabamentos era então frequente no subsolo dos Campos Elíseos, dificilmente apropriado nos trabalhos hidráulicos e pouco conservador das construções subterrâneas, em razão da: sua excessiva fluidez. Esta fluidez ultrapassa a inconsistência das próprias areias do bairro de S. Jorge, que só se deixaram vencer por um alicerce de argamassa e das camadas argilosas infectadas de gás, do bairro dos Már res, tão líquidas, que não pôde ser pra cada a passagem sobre a galeria dos Már res, senão por meio de um tubo fundido. Quando, em 1836, foi demolido, por baixo do arrabalde de Santo Honorato, para ser reconstruído, o an go cano de cantaria, onde vemos neste momento internado Jean Valjean, a areia movediça, que é o subsolo dos Campos Elíseos até ao Sena, servia de obstáculo, a ponto de fazer com que a operação; durasse perto de seis meses, provocando altos queixumes dos moradores marginais, principalmente dos que nham palácios e trens. Os trabalhos foram mais do que di ceis, foram perigosos.
Verdade é que naquela época houve quatro meses e meio de chuvas e três cheias no Sena.
O charco que Jean Valjean encontrou nha por causa a grande enxurrada da véspera.