Os Miseráveis
III — A inseparável
Por cima dessas casas deve decerto elevar-se uma coroa de fogo. O prazer que encerram dentro em si deve escapar por entre as pedras das paredes, transformado em claridade, pairando Vagamente no meio das trevas. É impossível que do seio desta sagrada e fatal festa se não remonte ao infinito um clarão celeste. O amor é o cadinho sublime em que se efectua a fusão do homem e da mulher, fusão de que resulta o ser triplo, final, a trindade humana. Este nascimento de duas almas numa só deve deixar impressionadas as trevas. O amante é sacerdote; a virgem assusta-se no meio do seu transporte. Uma parcela deste prazer eleva-se até Deus. Onde há verdadeiro casamento, isto é, onde há amor, há ideal. Um leito nupcial é um trato de luz no meio das trevas. Se fosse dado aos olhos do corpo devassar as temerosas e aprazíveis visões da vida superior, é provável que se descobrissem as formas da noite, os desconhecidos alados, os azuis viandantes do invisível, mul dão de cabeças sombrias inclinando-se por sobre a casa luminosa, sa sfeitos, abençoando, apontando uns aos outros a virgem esposa, graciosamente amedrontada e com os rostos divinos animados de um reflexo da felicidade humana. Se, nessa hora suprema, os esposos, deslumbrados de voluptuosidade e julgando-se a sós, aplicassem o ouvido, ouviriam dentro do quarto um confuso sussurro de asas. A ventura perfeita traz consigo a solidariedade dos anjos.
Aquela escura alcovazinha tem por tecto todo o céu.
Quando duas bocas, sagradas pelo amor, se juntam para criar, é impossível que por cima desse beijo inefável não sinta um como calafrio de prazer o mistério imenso das estrelas.
São estas as verdadeiras felicidades. Não há outras alegrias. O amor é o único êxtase.
Tudo o mais chora.
Amar ou ser amado é o bastante. Não queirais mais nada depois. É esta a única pérola que se pode encontrar nos misteriosos seios da vida.
O amor é uma consumação.
III — A inseparável
Que fora feito de Jean Valjean?
Logo após a cena trocada entre ele e Cose e, que tão graciosamente o in mara para que se risse, Jean Valjean vendo que ninguém fazia reparo nele, levantara-se e encaminhara-se para a antessala, onde seis meses antes, entrara coberto de lama, e de sangue, quando trouxera o neto ao avô. As paredes estavam ornadas de flores e verdes; os músicos achavam-se sentados no mesmo canapé onde Mário havia sido deitado.
Biscainho andava de casaca preta, calção, meia e luva branca, colocando coroas de rosas em volta de cada prato que era levado para a mesa. Jean Valjean apontou-lhe para o braço, que trazia ao peito, encarregou-o de explicar a sua ausência e retirou-se.
Apenas saiu, postou-se por baixo das janelas resplandecentes da sala de jantar, as quais deitavam para a rua, e ali permaneceu durante alguns instantes, de pé e imóvel no meio da escuridão, aplicando o ouvido ao fes vo sussurro do interior. Ouvia a ruidosa e imperiosa voz de Gillenormand, as rabecas, o nido da loiça, as risadas, dis nguindo, no meio de todo este festival rumor, a jovial e harmoniosa voz de Cosette.
Por fim, deixou a rua das Mulheres do Calvário e encaminhou-se para a do Homem Armado. Em lugar, porém, de tornar pelo caminho mais curto, deitou pelas ruas de S.
Luís, Culture-Saint-Catherine e Blancs-Manteaux.
Era um tanto mais longe, porém, era o caminho que, há três meses, desde que acompanhava Cose e para casa de Gillenormand, seguia sempre da rua do Homem Armado para a das Mulheres do Calvário, a fim de se livrar das lamas da rua Velha do Templo, quase sempre obstruída em parte, .e por ambos os motivos de difícil trânsito.