Os Miseráveis
IV — A atracção e a extinção
Mandou imediatamente Nicole e a casa do senhor Jean saber se ele estava doente e perguntar a razão porque não tinha vindo na véspera.
Nicolette voltou com a resposta do senhor Jean.
Mandava ele dizer que não estava doente, que não viera por ter muito que fazer, mas que brevemente viria, logo que os seus afazeres lho permi ssem. Além disso, que estava em vésperas de par r para uma pequena digressão, pois como a senhora havia estar lembrada, ele costumava fazer estas digressões de tempos a tempos. Em vista disto, que não es vessem com cuidado, que rassem o sen do dele, porque não havia mo vo para se inquietarem.
Nicole e dera o recado ao senhor Jean, repe ndo-lhe as próprias palavras de sua ama: — que a senhora «mandava perguntar «porque razão o Senhor Jean não fora lá na Véspera».
— Há dois dias que lá não vou! — respondera Jean Valjean com modo afável.
A observação, porém, passou despercebida à criada, e, por conseguinte, não chegou ao conhecimento de Cosette.
IV — A atracção e a extinção
Durante os úl mos meses da Primavera e os primeiros do Verão de 1833, notavam os raros transeuntes do Marais, os lojistas, os ociosos encostados às ombreiras das portas, um velho asseadamente vestido de preto, que todos os dias à mesma hora, ao anoitecer, desembocava da rua do Homem Armado, do lado da de Santa Cruz da Bretonnerie, atravessava a de Blancs-Manteaux, seguia pela rua Culture-Sainte-Catherine, e, chegado à rua da Escarpa, dobrava à esquerda e entrava na rua de S. Luís.
Apenas chegava a este ponto, principiava a caminhar vagarosamente, com a cabeça estendida para diante, sem ver nem ouvir nada, com os olhos imutavelmente fixos sempre no mesmo ponto, como se nele visse o fulgurar de uma estrela, e que era nem mais nem menos do que a esquina da rua das Mulheres do Calvário.
À medida que se aproximava desse ponto, inundavam-se-lhe os olhos de um mais intenso clarão, iluminavam-se-lhe as pupilas de uma espécie de alegria semelhante a uma aurora íntima, viam-se-lhe agitar imperceptivelmente os lábios, como se falasse com alguém que não visse, divisava-se-lhe neles um vago sorriso, parecia fascinado e comovido, e avançava o mais vagarosamente que lhe era possível. Dir-se-ia, ao vê-lo, que, ao mesmo tempo que desejava chegar, temia o instante em que o tivesse feito.
Quando entre ele e aquela rua, que parecia atraí-lo, se interpunham apenas algumas casas, afrouxava de tal modo o passo, que às vezes parecia ter de todo parado.
O movimento trémulo da cabeça e a fixidez do seu olhar faziam lembrar a agulha procurando o pólo.
Por mais, porém, que prolongasse o instante da chegada, forçoso era chegar; entrava no princípio da rua das Mulheres do Calvário; então parava, como que indeciso se iria mais avante, deitava a Cabeça por trás da esquina com uma espécie de melancólica timidez e alongava a vista pela rua.
Nesses momentos, o seu olhar angus ado como que exprimia o desalento do impossível e se iluminava do reflexo de um paraíso vedado. Em seguida uma lágrima, que pouco a pouco se lhe fora formando ao canto dos olhos, não podendo já suster-se por causa do seu peso, deslizava-se-lhe pelo rosto e entrava-lhe às vezes na boca, sentindo-lhe ele então o sabor amargo.
Assim permanecia alguns minutos, imóvel, como se fora de pedra; depois voltava pelo mesmo caminho e no mesmo passo, e, à medida que se afastava, os seus olhos perdiam o brilho e se entenebreciam com um véu de tristeza.