Os Miseráveis
II — Jean Valjean continua de braço ao peito
— Está servido! Meu pai sempre tem lembranças mais ratonas! Não que ele,
realmente, é mesmo muito fácil saber, passados oito dias, quem eram os noivos que se viram passar um dia de entrudo pelas ruas de Paris. Isso tem lá pés nem cabeça? É
querer achar uma agulha num palheiro!
— Não importa, sempre será bom tentar. Ouves, Azelma?
Os dois cordões con nuaram de ambos os lados do boulevard o seu movimento em sentido inverso e o carro dos máscaras perdeu de vista a carruagem da noiva.
II — Jean Valjean continua de braço ao peito
A quem é concedido ver a realização dos seus sonhos?
Há decerto eleições no céu para isso; todos nós, sem o saber, somos candidatos a esta eleição, em que os anjos são os votantes. Cosette e Mário tinham ficado eleitos.
Quer em casa do marre, quer na igreja, Cose e es vera deslumbrante e comovente.
Fora Toussaint quem a vestira, ajudada por Nicolette.
Por cima de uma saia de tafetá branco trazia o seu ves do de tenda de Binche; na cabeça um véu de renda de Inglaterra, por cima de uma grinalda de flores de laranjeira; ao pescoço um colar de pérolas finas. Tudo isto era branco, mas o quase divino clarão que se lhe irradiava da fronte ofuscava a alvura do seu trajo. Era uma candura inefável dilatando-se e transfigurando-se em claridade. Dir-se-ia uma virgem prestes a converter-se em deusa!
Os magníficos cabelos de Mário estavam lustrosos e perfumados; sob a espessura dos anéis que eles formavam, entreviam-se, num e noutro ponto, umas linhas descoradas, que eram as cicatrizes das feridas recebidas na barricada.
Cose e era conduzida por Gillenormand, que, soberba, de cabeça levantada, amalgamando, como nunca, no seu trajo e nas suas maneiras, todas as elegâncias do tempo de Barras, se prestara a subs tuir Jean Valjean, que, em virtude do seu ferimento, não podia dar o braço à noiva.
Seguia-os atrás Jean Valjean, vestido de preto e todo risonho.
— Senhor Fauchelevent — dizia-lhe o ancião — este dia é dos que ficam eternamente gravados na memória. Eu cá voto pelo fim das aflições e dos pesares. Para bem não devia tornar a haver tristeza em parte nenhuma! Fica por mim decretada a alegria de hoje para todo o sempre e privado dos seus direitos o mal, com a sua comi va de sofrimentos.
Realmente, é uma vergonha para o firmamento que haja homens desditosos! A capital e sede governamental de todas as misérias humanas é o inferno, por outra, as Tulherias do diabo! Não querem ver que também eu me ponho agora a encambar-lhes palavrões demagógicos? Eu cá não quero tornar a saber de opiniões polí cas; o meu único desejo era que todos fossem ricos, quero dizer, venturosos!
Quando, concluídas todas as cerimónias, depois de terem pronunciado todos os sins possíveis perante o maire e perante o padre, de terem assinado; todos os registos civis e eclesiás cos, de terem trocado os anéis, de terem ajoelhado nos degraus do altar-mor e recebido a bênção nupcial, chegaram pelo braço um do outro, admirados e invejados de todos, Mário ves do de preto, Cose e de branco, precedidos pelo agaloado porteiro, que com o coto da sua alabarda, fazia ressoar as lajes marmóreas do templo, por entre duas alas de maravilhados espectadores, ao pór co da igreja, aberto de par em par, e se meteram de novo na carruagem que os conduzira, por se achar concluída a cerimónia, a jovem não podia capacitar-se da realidade do que via. Fitava Mário, fitava a mul dão; fitava o céu; parecia que temia despertar daquele sonho. O seu ar de espanto e receio.
Contribuía para tornar ainda mais encantadora a expressão do seu meigo rosto. No regresso para casa, mudaram-se os lugares.
Mário entrou para a primeira carruagem, onde se sentou ao lado de Cose e. Nos assentos da frente iam, o senhor Gillenormand e Jean Valjean.
A filha de Gillenormand recuara um plano e ia na segunda carruagem,
— Meus filhos — dizia para os felizes noivos o transportado ancião a contar de hoje por diante, sois o senhor barão e a senhora baronesa, com trinta mil francos de renda!
E Cose e, inclinando-se para Mário, segredou-lhe ao ouvido estas angélicas expressões:
— Agora é que é verdade, chamo-me Mário. Sou a senhora Tua.
Aquelas duas meigas criaturas resplandeciam. Achavam-se no irrevogável e único instante, no deslumbrante ponto de intersecção de toda a juventude e alegria. Eram a realização dos versos de Jean Prouvaire; a idade de ambos reunida não perfazia quarenta anos. Era o casamento sublimado. Pareciam dois lírios. Não se olhavam, contemplavam-se. Cose e via Mário como que cingido de uma auréola; a Mário afigurava-se-lhe ver Cose e como que sobre um altar. E, por cima do altar, e no meio da auréola, indefinível, as duas apoteoses, ao fundo, de um modo indefinível, oculta por uma nuvem aos olhos de Cose e, cercada de um resplendor aos olhos de Mário, havia a causa ideal, a causa real, a entrevista do beijo e do sonho e do leito nupcial.
Todos os tormentos que eles haviam suportado, se lhes conver am agora em embriaguez. Afigurava-se-lhes que os pesares, as insónias, as lágrimas, as angús as, os temores, as aflições, transformados em esplendores e carícias, tornavam ainda mais aprazível o inefável instante que perto vinha, e ;que as tristezas eram como que outras tantas servas que se ocupavam em adornar a alegria. Que bela coisa o ter sofrido! Ter sofrido para depois vermos a nossa desdita servindo de auréola à nossa ventura, para vermos a demorada agonia do nosso amor coroado por uma ascensão!
Ambas aquelas almas juvenis se sen am igualmente arroubadas, arroubamento com que, em Mário, se entremisturava uma espécie de celeste voluptuosidade e de pudor em Cosette.
Diziam com um ar de mistério um para o outro:
— Havemos de voltar ao nosso jardinzinho da rua de Plumet!
Mário ia quase oculto pela ampla roda do vestido de Cosette.
Um dia destes é uma inefável mistura de cogitação e certeza, de posse e suposição, que nos deixa ainda tempo para adivinhar. Nesse dia temos ocasião de avaliar o que é pensar na meia-noite ao meio-dia. Aqueles dois corações extravasavam sobre a mul dão que passava o prazer do seu delicioso anseio.
Na rua de Santo António, logo ao sair de S. Paulo, os transeuntes paravam e punham-se a contemplar, admirados, a deslumbrante noiva, sobre a cabeça da qual o rodar da sege fazia tremer as flores de laranjeira que formavam a grinalda.
Chegado à rua das Mulheres do Calvário, subiu Mário a par de Cose e, com ar triunfante e radiante de alegria, aquela mesma escada por onde, algum tempo antes, nha sido conduzido moribundo, ambos cobertos pelas bênçãos dos pobres, que, aglomerados à porta, repar am entre si o dinheiro que dos ditosos noivos nham recebido. Não se viam por toda a parte senão flores. A casa não estava menos perfumada do que a igreja; após o incenso, as rosas. No meio do seu enlevo, afigurava-se aos dois jovens ouvir um coro de vozes no infinito; nham Deus no coração; parecia-lhes o des no um firmamento, afigurava-se-lhes ver por cima de si os clarões de uma aurora.
De súbito, ouviram-se horas num relógio. Mário olhou para o gen l braço nu de Cose e e para a rosada super cie que se lhe entrevia vagamente através das rendas do ves do, e Cosette, ao dar pelo olhar de Mário, corou até às meninas dos olhos.
De entre o grande número de an gos amigos da família Gillenormand que haviam sido convidados, nem um só parecia querer desamparar o seu posto ao lado de Cose e.
Todos a rodeavam, todos à porfia queriam ter o prazer de chamar-lhe senhora baronesa.
De Chartres, onde se achava destacado naquela ocasião, viera assis r ao casamento de seu primo Pontmercy, o oficial Teodulo Gillenormand, actualmente Capitão. Cose e não o reconheceu.
Pelo que diz respeito ao garboso lanceiro, habituado a ser objecto dos olhares e requebros de muitas mulheres, a ideia de umas conquistas fazia-lhe perder a lembrança das outras, e por conseguinte também não reconheceu a jovem.
— Bem me parecia a mim que a tal história do lanceiro não nha pés nem cabeça! —
dizia o velho Gillenormand com os seus botões, ao ver que os dois jovens não davam a menor mostra de se conhecerem ou terem visto.
Nunca a filha de Fan ne se mostrara tão afável para com Jean Valjean. Cose e e Gillenormand pareciam ser os mais sa sfeitos de toda a família. Ao mesmo tempo que o ancião deixava extravasar a sua alegria em máximas e aforismos, exalava ela o seu amor e bondade à semelhança de um perfume. A ventura gosta de ver toda a gente venturosa.
Na sua conversação com Jean Valjean, a formosa noiva achava meio de empregar todas as inflexões de voz que se servia, quando era pequenina, e acariciá-lo, sorrindo-selhe.
No regresso do templo, depois de concluída a cerimónia, foi servido um banquete aos convidados em casa de Gillenormand.
Uma iluminação brilhante é sempre o acompanhamento forçado de um grande júbilo.
Os felizes não gostam de trevas. Não se querem ver cobertos de véu escuro. Noite sim, trevas não. Se não têm Sol, arranjam-no. A sala de jantar, pois, em que foi servido o banquete aos convidados no dia das núpcias de Cose e era um facho de coisas alegres.
Do centro do tecto, por cima da alva e cin lante mesa, pendia um lustre de Veneza, por entre cujas luzes fulgurava, um sem número de pássaros de cores variegadas, verdes, roxos, azuis, vermelhos, empoleirados nas hastes dos lustres; em volta destas placas, pelas paredes, serpen nas de três e cinco lumes; espelhos, cristais, vidros, porcelana, loiça de barro, objectos de prata e ouro, tudo resplandecente e espargindo alegria. Os espaços entre os candelabros estavam preenchidos por vistosos ramalhetes, de modo
que onde não havia luz, havia flores.
Na sala imediata três rabecas e uma flauta tocavam, em surdina, quartetos de Haydn.
Jean Valjean sentara-se no salão junto da porta, de modo que o batente desta quase o encobria.
Momentos antes de irem para a mesa, Cose e aproximou-se dele e fez-lhe travessamente uma grande mesura, levantando com as mãos a ampla roda do seu ves do de noiva, e perguntou-lhe, acompanhando as suas palavras com um volver de olhos graciosamente travesso:
— Então, meu pai, está satisfeito?
— Estou! — respondeu Jean Valjean.
— Então ria-se!
Jean Valjean pôs-se a rir.
Daí a um instante, Biscainho veio anunciar que o jantar estava na mesa.
Os convidados levantaram-se e dirigiram-se, precedidos por Gillenormand, que dava o braço a Cose e, para a sala de jantar, onde cada qual se sentou à mesa no lugar que lhe foi designado.
À direita e à esquerda da noiva, viam-se duas amplas poltronas: a primeira era destinada a Gillenormand, a segunda a Jean Valjean.
Gillenormand sentou-se,
A outra poltrona ficou por ocupar.
Todos procuravam com a vista «o senhor Fauchelevent».
Não estava na sala.
— Sabes onde está o senhor Fauchelevent? — disse Gillenormand, dirigindo-se a Biscainho.
— Sei, sim, senhor! — respondeu Biscainho. — O senhor Fauchelevent recomendou-me que dissesse a V. S.ª que, como se achava incomodado da mão, não podia assis r ao jantar, pelo que pedia desculpa ao senhor barão, e à senhora baronesa. Acaba de sair agora mesmo, dizendo que amanhã pela manhã voltaria.
O vácuo causado por aquela poltrona fez por um instante esfriar o prazer do banquete nupcial. Se, porém, faltava Fauchelevent, achava-se presente Gillenormand, cuja alegria o fazia valer por dois. Declarou ele que, visto achar-se incomodado, acertadamente andara o senhor Fauchelevent em querer recolher-se «cedo, porém que, no seu entender, aquilo não passava de «uma arranhadura», que não merecia importância. Foi suficiente esta declaração para que todos recuperassem o primi vo humor jovial. E, ainda quando não fora ela, que sensação pode causar um ponto escuro no meio de semelhante resplendor de alegria? Cose e e Mário achavam-se num desses abençoados momentos de egoísmo em que as nossas faculdades só se tornam aptas para apreciar a ventura. A isto acresceu ainda outra circunstância, uma lembrança de Gillenormand tendente a disfarçar, senão totalmente preencher, o vácuo causado pela ausência de Jean Valjean.
— Isto não tem jeito! Esta poltrona não há-de ficar vazia. Vem tu para aqui, Mário. O
teu lugar era ao pé de tua a, mas ela dá licença que venhas ocupar este. Aqui tens esta
cadeira de braços. É uma coisa não só legal, mas até bonita. Fortunate, ao lado de Fortunata!
As palavras do ancião foram saudadas com aplausos gerais por todos os convidados.
Mário foi ocupar ao lado de Cose e o lugar de Jean Valjean; e as coisas acomodaram-se de tal modo, que Cose e, em princípio triste pela ausência de Jean Valjean, acabou por estimá-la.
Desde que Mário era o subs tuto., não teria Cose e saudades, nem mesmo de Deus.
Apenas Mário se sentou, pôs-lhe Cose e sobre o pé o seu pezinho calçado de ce m branco.
Ocupada a poltrona, foi esquecido o senhor Fauchelevent, e não se sen u falta de coisa nenhuma. Cinco minutos depois era geral o riso em toda a mesa, de um a outro extremo, com todo o desenfado do esquecimento.
À sobremesa, o senhor Gillenormand, em pé, tendo na mão uma taça de champanhe, só meia, para que a tremura dos seus noventa e dois anos lha não fizesse entornar, fez o brinde aos noivos.
— Não hão-de escapar a dois sermões! — exclamou ele. — De manhã veram o do cura, vão ter de tarde o do avô. Oiçam o conselho que lhes dou: Adorem-se. Eu não faço montões de palavras; vou direito ao fim sem rodeios; saibam: ser felizes. Além das tolinhas não há outros sábios na criação:. Moderai os vossos prazeres, dizem os filósofos; largai-lhes as rédeas, digo eu. Apaixonem-se endiabradamente, danadamente.
Os filósofos desvairam; desejava obrigá-los a engolir a sua filosofia. Podem porventura ser demasiados neste mundo os perfumes e os botões de rosa abertos, demasiados os rouxinóis cantando, demasiadas as folhas verdes, demasiada a aurora na vida? Pode alguém amar de mais? Podem duas criaturas agradar de mais uma à outra? Acautela-te, Estela, és demasiadamente linda! Acautela-te, Nemorin, repara que tens beleza de mais!
Não está má estupidez! Pode alguém encantar-se de mais estar vivo e ser feliz em demasia? Moderai os vossos prazeres! Esperem por essa! Abaixo os filósofos! A sabedoria é o regozijo. Regozijemo-nos. Nós somos felizes porque somos bons, ou somos bons porque somos felizes? O Sancy chama-se Sancy por ter pertencido a Harlay de Sancy, ou porque pesa cento e seis quilates? Isso é que eu não: sei; a vida está cheia destes problemas; o que é importante é ter o Sancy ,e a felicidade. Sejamos felizes sem chicanar. Obedeçamos cegamente ao Sol. O que é o Sol? É o amor. Quem diz amor, diz mulher. Ah, a mulher, sim, que é uma omnipotência! Perguntem a este demagogo Mário se não é escravo desta ranazinha Cose e; e por sua vontade cobarde! A mulher! Não há Robespierre que resista ao império da mulher; a mulher reina, e eu não sou realista senão desta realeza. O que é Adão? É O reino da Eva. Para ela não há 89. Houve o ceptro real sobrepujado por uma flor de lis, houve o ceptro de Carlos Magno, que era de ferro, havia o de Luís o Grande, que era de oiro; a revolução torceu-as entre os dedos, como se fossem palhinhas; acabou-se, par ram-se, estão por terra, já não há ceptros; mas se são capazes, façam revoluções contra esse lencinho bordado reacendendo patchouli!
Desejava vê-los nessa empresa. E porque é sólido o tal lencinho? Por ser um bocado de pano. Ah, os senhores são o século dezanove? Pois sim, senhores e daí? Nós éramos o
século dezoito, e tão pedaços de asno éramos nós como sois vós! Estes meus senhores de agora cuidam: que, por terem mudado o nome a meia dúzia de coisas, causaram uma revolução total no Universo. Desenganem-se do que eu lhes digo: as mulheres hão-de sempre ser amadas! Dêem-lhes as voltas que quiserem, tanto faz andar como não andar, daqui não há que sair, não há que livrar-se a gente de semelhantes diabretes, que são as nossas delícias, os nossos anjos! Repito, o amor, a mulher, o beijo; deste círculo não há que livrar-se ninguém, e, cá pela parte que me pertence, tornara-me eu pilhar dentro dele outra vez! Já viram despontar no horizonte, dominando tudo o que se estende por baixo dela, mirando-se no espelho das ondas, como uma mulher, a estrela Vénus, a grande namoradeira do abismo, a Celimene do Oceano, esse «ide Alceste? Pois aí têm; tanto faz ele mugir como não mugir; em assomando Vénus, não tem remédio senão mostrar-se risonho, quer queira, quer não queira. E o monstro submete-se! Assim somos todos nós também. Ira, tempestade, raios, escuma pelo ar; entra em cena uma mulher, desponta uma estrela; acabou tudo, não se ouve mais tugir nem mugir! Há seis meses andava Mário jogando a tapona com a tropa; hoje casa. Fez o que devia. Sim, Mário, sim, Cose e; tendes razão. Amai-vos, adorai-vos, consagrai todos os momentos da vossa existência ao amor, fazei-nos comer de inveja por não podermos fazer o mesmo; idolatrai-vos! Deitai os biquinhos a todos os fragmentos de felicidade que há pelo mundo e formai com eles o vosso ninho de prazeres. Ora então! Grande maravilha amar a gente e ser amada, quando é nova! Não vades cuidar vós que fostes os inventores disto! Aqui estou eu que também já sonhei, já cismei, já suspirei; que também já ve uma alma-luar. O amor é uma criança de seis mil anos, que por isso pode usar de compridas barbas brancas. Matusalém ao pé de Cupido é um fedelho. Há sessenta séculos que o homem e a mulher vencem todos os obstáculos, amando-se mutuamente.
O diabo, que é fino, entrou a odiar o homem, porém o homem, que ainda é mais fino entrou a amar a mulher. Deste modo o homem tem conseguido obter maior soma de bens do que a dos males que o diabo lhe tem causado! Este ardil data desde o tempo do paraíso terrestre. A invenção é velha, meus amigos, porém O que tem é que está sempre no mesmo ser. É aproveitar dela. Sede Daphne e Chloé, enquanto não sois Philemon e Baucis. Havei-vos de modo que, quando es verdes um ao lado do outro, não vos falte nada; que Cose e seja o Sol para Mário e Mário o Universo para Cose e. Seja, Cose e, o sorriso de vosso marido o bom tempo; sejam, Mário, as lágrimas de vossa mulher a chuva. E oxalá nunca em vossa casa chova! Saiu-vos a sorte grande na lotaria, o amor no casamento; agora guardem-na bem, Ponham-na a bom recato, não a gastem mal gasta; adorem-se e o mais não lhes dê cuidado! Acreditem o que lhes eu digo. Falo-vos pela boca do bom-senso, e o bom-senso não mente. Sede um para o outro uma religião. Cada qual tem o seu modo de adorar a Deus, mas com a breca! O melhor modo de um homem amar a Deus é adorar sua mulher! Amo-te! O meu catecismo é este. Quem ama é ortodoxo. A praga de Henrique IV põe a san dade entre a comezaina e bebedice: Ventre-saint-gris. Eu não sou da religião desta praga, porque se não faz nela menção da mulher!
Segundo me dizem, estou velho, mas não imaginam como eu me sinto com forças para ser novo! O meu regalo era ir pelos bosques ouvir as sanfoninhas dos pastores!
Embriaga-me a vista destas duas formosas crianças, hoje tão sa sfeitas! Se achasse com quem, afianço-lhes que também me casava! É impossível de acreditar que Deus nos criasse, senão para isto; idolatrarmo-nos, arrulharmos, requebrarmo-nos, sermos pombos, sermos galos, passar o tempo desde pela manhã até à noite a beijocarmos o nosso amor, mirarmo-nos nele, orgulharmo-nos, passar o tempo alegre e regaladamente; aqui está o que deve ser a vida. Aqui está, com vossa licença, o nosso modo de pensar, quando éramos novos! Oh, tempo, tempo! Então é que havia mocetonas de encher o olho e de fazer andar a gente com a cabeça à roda! Porem algumas acharam-se enganadas comigo. Esperavam: vencer-me e ficaram vencidas! Por -consequência, amem-se. Se não fosse o amor, não sei, realmente, para que servia a Primavera! Eu, pela minha parte, pedia a Deus que pegasse outra vez em todas essas belezas e que as guardasse; que pegasse nas flores, nos passarinhos, nas raparigas bonitas e que as tornasse a meter no caixão de onde as tirou. Meus filhos, recebei a bênção do pobre velho!
A noite passou-se divertida, alegre e deleitosa.
A jovialidade sem igual do loquaz ancião foi como que o lamiré pelo qual todos trataram de afinar a sua alegria, correspondendo assim dignamente à cordialidade do octogenário. Dançou-se alguma coisa, riu-se muito; foi uma boda patusca, a que podia assis r o pobre velho; doutro tempo, se é que ele se não achava representado na pessoa de Gillenormand.
Ao tumulto seguiu-se o silêncio.
Os noivos desapareceram, e, mal soou a meia-noite, a casa de Gillenormand transformou-se num templo.
Não prossigamos. No limiar de uma noite de núpcias vê-se sempre um anjo de pé, risonho e com um dedo poisado nos lábios.
Perante o Santuário onde tem lugar a celebração do amor, a alma pára e contempla.