Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 261 de 359

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Os Miseráveis

II — O âmago da questão

«No fim de tudo, entre os combatentes não havia senão a diferença da idade; é a mesma raça; são os mesmos homens estóicos que morrem aos vinte anos pelas suas ideias, e aos quarenta pelas suas famílias. O exército, sempre triste nas guerras civis, opunha a prudência à audácia. As revoltas, ao passo que manifestaram a intrepidez popular, educaram a coragem burguesa

«Muito bem Mas vale tudo isto o sangue derramado? E ao sangue derramado juntai o futuro sombreado, o progresso comprome do, a inquietação entre os melhores, os liberais honestos e desesperados, o absolu smo estrangeiro sa sfeito por ver a revolução ferida por si mesma, os vencidos de 1830 triunfando e dizendo: Bem o nhamos dito! Juntai Paris, talvez engrandecido, mas a França inques onavelmente deprimida. Juntai, porque é necessário dizer tudo, as carnificinas que desonravam, muitas vezes a vitória da ordem tornada feroz sobre a liberdade enlouquecida.

Em conclusão as revoltas foram funestas».

Assim fala esta quase sabedoria com que a burguesia, esse quase povo, se contenta de tão boa vontade.

Quanto a nós repelimos a palavra revoltas demasiadamente elás ca, e por consequência demasiadamente cómoda. Entre os movimentos populares fazemos dis nção. Não queremos saber se uma revolta custa tanto como uma batalha? Em primeiro lugar, porque razão uma batalha? Aqui surge a questão A guerra é porventura menos flagelo do que a revolta calamidade? E depois, as revoltas são todas calamidades?

E quando mesmo o 14 de Julho custasse cento e vinte milhões? A colocação de Filipe V

em Espanha custou à França dois mil milhões. Mesmo por igual preço preferíamos o 14

de Julho. Demais, repelimos estes algarismos, que parecem razões e que não passam de palavras Dada uma revolta examinamo-la em si mesma. Em tudo o que diz a objecção doutrinária que acabámos de expor, não se trata senão do efeito; nós procuramos a causa.

Resumamos.

II — O âmago da questão

Há revolta e há insurreição; são duas cóleras: uma contêm o agravo, a outra o direito.

Nos estados democrá cos, únicos baseados na jus ça, sucede algumas vezes a fracção usurpar; então ergue-se o todo, e a necessária reivindicação do seu direito pode levá-lo até pegar em armas. Em todas as questões que dimanam da soberania colec va, a guerra do todo contra a fracção é insurreição; segundo as Tulherias contêm o rei ou a Convenção, assim elas são justas ou injustamente atacadas. A mesma boca de fogo assestada contra a mul dão é um erro em 10 de Agosto, e deixa de o ser em 14

vendémaire. Aparência semelhante, fundo diferente: os suíços defendem o que é falso, Bonaparte o que é verdadeiro. O que foi feito pelo sufrágio universal, em sua liberdade e soberania, não pode ser desfeito pela rua. Do mesmo modo as coisas de pura civilização: o ins nto das massas, ontem perspicaz, pode estar turvo amanhã. A mesma fúria é legí ma contra Terray e absurda contra Turgot. A destruição de máquinas, o roubo de armazéns, as rupturas de carris, a demolição de docas, os falsos caminhos seguidos pelas mul dões, as recusas de jus ça do povo ao progresso. Ramus assassinado pelos estudantes, Rousseau expulso da Suíça às pedradas, é a revolta. Israel contra Moisés, Atenas contra Phocion, Roma contra Scipião, é a revolta; Paris contra a Bas lha, é a insurreição.

Os soldados contra Alexandre, os marinheiros contra Cristóvão Colombo, é a mesma revolta; revolta ímpia; porquê? Porque Alexandre fez para a Ásia com a espada, o que Cristóvão Colombo fez para a América com a bússola; Alexandre, como Colombo, acha um mundo. Estes presentes de mundos à civilização são tais argumentos de luz, que toda a resistência que se lhe oponha é culpada. Algumas vezes o povo falta à fidelidade a si mesmo. A mul dão é traidora ao povo. Há, por exemplo, nada mais estranho do que o longo e extravagante protesto de falsos Saulniers, legí ma revolta crónica, que, no momento decisivo, no dia da salvação, quando soa a hora da vitória popular, desposa o trono, transforma-se em chouanneie, e de insurreição contra, se faz revolta a favor!

Sombrias obras-primas de ignorância! O falso Saulnier escapa às forcas reais, e, com. um resto de corda ao pescoço, arvora o laço branco. Morto nas Gabelas dá à luz. Viva o rei.

Matadores de S. Bartolomeu, degoladores de Setembro, carniceiros de Avinhão, assassinos de Coligny, assassinos da senhora de Lamballe, assassinos de Bruno, Miquelets, Verdets, Cadene es, companheiros de Jehu, cavaleiros do Brassard, eis o que é a revolta. A Vendeia é uma grande revolta católica. O ruído do direito em movimento reconhece-se e nem sempre sai da agitação das massas perturbadas; há nele raivas loucas, há sinos rachados; os toques de rebate não têm todos o som de bronze.

A agitação das paixões é diferente da sacudidela do progresso. Erguei-vos, mas para vos tornardes grandes. Mostrai-me para que lado ides. Não há insurreição senão para a frente. Qualquer outro levantamento é mau, todo o passo dado violentamente para traz é revolta; recuar, é uma via de facto contar a humanidade. A insurreição é o acesso de furor da verdade; as pedras de calçada que a insurreição revolve lançam a faísca do direito. Essas ruas não deixam à revolta senão a sua lama Danton contra Luís XVI, é a insurreição; Hebert contra Danton é a revolta.

Procede daqui a insurreição, em dados casos, pode ser, como disse Lafaye e, o mais santo dos deveres, a revolta pode ser o mais fatal dos atentados.

Há nisto também alguma diferença na intensidade do calórico; a insurreição é muitas vezes vulcão, a revolta fogo de palha.

A revolta, já o dissemos, reside por vezes no poder.

Polignac é um revoltoso; Camilo Desmoulins é um governante.

A insurreição é, por vezes, a ressurreição.

Sendo a solução de tudo pelo sufrágio universal um facto absolutamente moderno, e sendo toda a história anterior a este facto, há quatro mil anos, preenchida com o direito violado e com o sofrimento dos povos, cada uma das suas épocas traz consigo o protesto que lhe é possível Sob o domínio dos Césares não havia insurreição, mas havia Juvenal.

O facit indignatto substitui os Grachos.

Sob os Césares há o desterrado de Syene, mas há também o homem dos Annaes.

Não falamos do imenso desterrado de Patmos, que também abate o mundo real com um protesto em nome do mundo ideal, faz da visão uma sá ra enorme, e lança sobre Roma-Nínive, sobre Roma-Babilónia, sobre Roma-Sodoma, a flamejante reverberação do Apocalipse.

Jean sobre o seu rochedo é a esfinge sobre o seu pedestal, pode não ser compreendida; é um judeu; a sua fala é hebraica; mas o homem que escreve os Annaes é

um latino; digamos melhor, é um romano.

Como os Neros reinam de uma maneira escura, devem ser pintados pelo mesmo modo. O trabalho do buril só por si, seria frouxo; é necessário vazar nos entalhes uma prosa concentrada que morda.

Os déspotas produzem de certo modo os pensadores. Palavra encadeada, é palavra terrível.

O escritor duplica e triplica o seu es lo, quando o silêncio é prescrito por um senhor ao povo. Deste silêncio sai uma certa plenitude misteriosa, que filtra e se coalha em bronze no pensamento. A compressão na história produz a concisão no historiador. A solidez graní ca de tal ou tal prosa não é mais do que um amontoamento feito pelo tirano.

A rania constrange o escritor a restrições de diâmetro, que são aumentos de força. O

período ciceroniano, apenas suficiente sobre Verrès, embotar-se-ia sobre Calígula.

Quanto menor é a amplidão da frase, maior é a intensidade do golpe. Tácito pensa com toda a força

A honestidade de um grande coração, condensada em justiça e em verdade, fulmina.

É para notar, seja dito de passagem, que Tácito não está historicamente sobreposto a César. Os Tibérios são-lhe reservados César e Tácito são dois fenómenos sucessivos, cujo encontro parece misteriosamente evitado por aquele que, na disposição da cena dos séculos, regula as entradas e as saídas. São grandes César e Tácito; Deus poupa estas duas grandezas, não as fazendo embater uma na outra. O jus ceiro, ferindo César, podia ferir demasiadamente e ser injusto. Deus não o quer. As grandes guerras de África e de Espanha, a destruição dos piratas da Sicília, a civilização introduzida na Gália, na Bretanha, na Germania, é tudo glória que cobre o Rubicon. Há uma certa delicadeza da jus ça divina, hesitando em largar ao usurpador ilustre o historiador formidável, perdoando Tácito a César e concedendo as circunstâncias atenuantes ao génio.

Inques onavelmente o despo smo fica despo smo, mesmo sob o déspota de génio.

Há nele corrupção sob o domínio dos ranos ilustres, mas a perda moral é mais hedionda ainda sob os ranos infames. Em tais reinados nada vela a vergonha e os que produzem exemplos, seja Tácito como Juvenal, esbofeteiam com mais u lidade, em presença do género humano, esta ignomínia sem réplica.

Rama cheira pior sobre Vitellio do que sob Sylla; sob Cláudio e sob Domiciano há ali uma deformidade de baixeza correspondente à fealdade do tirano; a vilania dos escravos é um produto directo do déspota, daquelas consciências corrompidas em que se reflecte o senhor, exala-se um miasma; os poderes públicos são imundos; os corações são pequenos, as consciências são chatas, as almas são percevejos; assim é sob o domínio de Caracalla, de Commodo e de Heliogabalo; enquanto que do senado romano, no tempo de César, não sai senão o cheiro de esterco, próprio do ninho da águia.

Daqui a vinda, em aparência tardia, dos Tácitos e dos Juvenais; é no momento da evidência que aparece o demonstrador.

Mas Juvenal e Tácito, do mesmo modo que Isaías nos tempos Bíblicos, do mesmo modo que Dante na Idade-Média, são o homem; a revolta e a insurreição são a multidão,

que ora labora no erro, ora. tem razão.

Nos casos mais gerais, a revolta sai dum facto material; a insurreição é sempre um fenómeno moral.

A revolta é Mazaniello; a insurreição é Spartacus.

A insurreição confina com o espírito, a revolta com o estômago; Gaster irrita-se; mas Gaster, decerto, nem sempre está em erro. Nas questões de fome, a revolta, Buzançais, por exemplo, tem um ponto de par da verdadeiro, paté co e justo Todavia fica sempre revolta. Porquê? Porque tendo razão no fundo andou errada na forma. Feroz, como quando tendo direito, violenta, conquanto forte, feriu ao acaso; caminhou como o ofegante cego, esmagando tudo; deixou atrás de si os cadáveres dos velhos, das mulheres e das crianças; derramou, sem saber porquê, o sangue dos inofensivos e dos inocentes Nutrir o povo é um excelente fim, assassiná-lo é um péssimo meio.

Todos os protestos armados, ainda os mais legí mos, ainda o 10 de Agosto, ainda o 14 de Julho, começam com a mesma perturbação. Antes que o direito se desembarace há o tumulto e escuma. No princípio a insurreição é revolta, do mesmo modo que o rio é torrente Ordinariamente termina no oceano a Revolução. Todavia, a insurreição, algumas vezes, vinda das altas montanhas que dominam o horizonte moral, a jus ça, a sabedoria, a razão, o direito, formada da mais pura neve do ideal, depois de aturada queda de rocha em rocha, depois de ter reflec do o céu em sua transparência, depois de ter engrossado com cem afluentes na majestosa marcha do triunfo, perde-se de repente em qualquer barranco burguês, como o Reno num charco.

Tudo isto é do passado; o futuro é diferente. O sufrágio universal tem isto de admirável; dissolve a revolta em seu princípio e desarma a insurreição dando-lhe o voto.

O desaparecimento das guerras, da guerra das ruas como da guerra das fronteiras, tal é o inevitável progresso. Seja hoje o que for, a paz é Amanhã.

No fim de tudo, a insurreição ou revolta, o burguês propriamente dito, conhece pouco o que as diferença, não sabe em que a primeira difere da segunda. Para ele tudo é sedição, rebelião pura e simples, revolta do cão de fila contra seu dono, ensaio de mordedura, que é preciso punir com a corrente e a casinhola, uivo, la do, até ao dia em que a cabeça do cão, avolumada de repente, se esboça vagamente na sombra qual fronte de leão.

Então o burguês grita:

— Viva o povo!