Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 187 de 359

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Os Miseráveis

VI — Mário prisioneiro

Ao outro dia, que era o terceiro, foi mame Bougon fulminada com terceiro raio. Mário tornou a sair com o casaco novo.

— Três dias a fio! — exclamou ela.

Bem tentou segui-lo para o espreitar, porém, Mário andava depressa e nha o passo larguíssimo; era como um hipopótamo no encalço de uma cabra montês. Perdeu-o de vista, portanto, dentro de dois minutos, e recolheu-se a casa esbaforida, quase sufocada pela asma, furiosa.

— Trazer a roupa melhor a uso e dar estafas destas à gente! — rosnou ela. — Isto só de quem não tem juízo nenhum!

Mário caminhara em direcção ao Luxemburgo.

A jovem e o senhor Leblanc lá estavam. Mário aproximou-se-lhes o mais que lhe foi possível, fingindo ler num livro, mas ficou ainda muito longe, e foi depois sentar-se num

banco, onde se demorou quatro horas, a ver saltar de um para outro lado os pardais, que pareciam zombar dele.

Decorreram assim quinze dias. Mário ia ao Luxemburgo, não já para passear, mas para ir sentar-se no mesmo lugar, e sem saber porquê. Depois de ali chegar não se mexia.

Ves a em cada dia o fato novo, apesar de não se mostrar, e recomeçava no dia seguinte.

Ela era decididamente dotada de maravilhosa beleza.

A única observação que se poderia fazer semelhante a uma crí ca, era a contradição entre o olhar, que era triste, e o sorriso, que era alegre, lhe dava ao rosto um tanto ou quanto de desvairamento, o que era origem de que em certos momentos aquele meigo rosto se tornasse extraordinário, sem deixar de ser encantador.

VI — Mário prisioneiro Estava Mário, num dos úl mos dias da semana, como costumava, sentado no seu banco, com um livro aberto na mão, do qual havia duas horas não voltava uma única folha. De repente estremeceu. Passava-se o que quer que era no extremo em que estava o outro banco. O senhor Leblanc e sua filha acabavam de se levantar, a jovem dera o braço a seu pai e dirigiam-se ambos para o meio da álea onde estava Mário; este fechou o livro, tornou depois a abri-lo, e fez diligência para ler. Mário tremia. A auréola tomava a sua direcção. «Meu Deus!» pensava ele. «Nem terei tempo de tomar uma a tude».

Entretanto, o homem de cabelos brancos e a jovem con nuavam a avançar. Mário julgava que isto durava havia um século, quando não era mais do que um segundo. «O

que vêm eles fazer para este lado?» perguntou a si mesmo. «O quê! Pois ela vem passar por aqui Os seus pés vão pisar a areia desta álea a dois passos de mim!» Sen a-se transtornado, desejava ser belo, quisera ter ao peito uma condecoração. Ouvia aproximar-se o ruído suave e cadente de seus passos e imaginava que o senhor Leblanc lhe lançava olhos irritados. «Dar-se-á o caso que me venha falar?» pensava. Em seguida baixou a cabeça; quando a ergueu vi-os quase ao pé de si. A jovem passou e olhou para ele e fitou-o com uma doçura pensa va, que o fez estremecer desde os pés até a cabeça.

Pareceu-lhe que o repreendia de ter estado tanto tempo sem se lhe aproximar e que lhe dizia: Sou eu que me aproximo. Mário sen u-se deslumbrado na presença daquelas pupilas cheias de raios e de abismos, que lhe acendiam como que uma fogueira no cérebro. Vir ela ter com ele, que júbilo! E olhá-lo como ela o olhou! Mais bela do que nunca se lhe afigurou naquela hora! Bela de uma beleza a um tempo feminina e angélica, de uma beleza completa que faria cantar Petrarca e curvar o joelho a Dante.

Parecia-lhe que se sen a librado na amplidão do espaço, quando realmente o torturava a aflição de se ver com as botas cobertas de pó.

E Mário acreditava piamente que ela lhe tinha olhado também para as botas.

Seguiu-a com os olhos até a perder de vista e depois principiou a passear pelo Luxemburgo como um louco. É provável que por vezes se risse consigo só e falasse em voz alta. É certo que fitava com tal ternura as amas de meninos que por ali andavam também a passear, que cada qual o julgava enamorado de si.

Passado algum tempo saiu do Luxemburgo, na esperança de se tornar a encontrar com a donzela na rua.

Ao chegar às arcadas do Odeon, encontrou Courfeyrac e disse-lhe:

— Anda daí jantar comigo!

E lá foram ambos para o Rousseau, onde gastaram seis francos. Mário comeu como um lobo. Deu seis soldos ao criado que os serviu e à sobremesa disse para Courfeyrac:

— Já leste o jornal onde vem o belo discurso de Audry de Puyraveau?

O mancebo estava loucamente enamorado.

Depois de jantar disse para Courfeyrac:

— Anda daí ao teatro, que eu pago!

E foram a caminho da Porta de S. Mar nho ver o actor Frederico na Estalagem dos Adrefs. Mário divertiu-se a não poder mais.

Nem assim, porém, o abandonou o predomínio da sua natural intratabilidade. Na ocasião em que saiu do teatro voltou a cara para não ver as pernas a uma modista que ia a saltar uma enxurrada, e ao ouvir dizer a Courfeyrac: «Quem ma dera cá para a minha colecção!», estremeceu quase horrorizado.

Courfeyrac convidou-o para irem no dia seguinte almoçar ao café Voltaire. Mário foi e comeu ainda mais do que no dia antecedente. Estava pensa vo, mas muito alegre. Dir-se-ia que aproveitava todas as ocasiões de rir às gargalhadas. Apresentaram-lhe um provinciano que nunca na sua vida conhecera e ele abraçou-o com toda a cordialidade.

Havendo-se formado em volta da mesa um círculo de estudantes, que se entre nham a falar das tolices vomitadas do alto das cadeiras da Sorbonna, tolices que ficavam ao Estado por bom dinheiro, a conversa recaiu sobre as faltas e lacunas dos dicionários, e prosódias de Quicherat, e quando a discussão estava mais animada, Mário interrompeu-a para exclamar.

— Mas hão-de confessar que é uma agradável coisa o ser condecorado!

— Ora isto é que é uma ratice! — disse Courfeyrac em voz baixa a Jean Prouvaire.

— E eu digo que é uma coisa muito séria — respondeu Jean Prouvaire.

E era-o, efec vamente. Mário estava nessa primeira hora violenta e cheia de encantos que preludia as grandes paixões.

Tudo isto operara-o um olhar.

Quando se acha carregada a mina, quando estão aparelhados os materiais do incêndio, não há coisa mais simples. Um olhar é uma faísca.

Acabara tudo. Mário amava uma mulher. O seu des no principiava a envolver-se nas dobras do mistério.

O olhar das mulheres assemelhava-se a certas máquinas de numerosas rodas, na aparência tranquilas, na realidade medonhas. Todos os dias passamos por elas sossegados, alheados do pensamento de um perigo, impunes da nossa descuidosa serenidade. Uma ocasião chega em que até da sua existência nos mostramos olvidados.