Os Miseráveis
IV — Fendas nos alicerces
O que tem ele contra si? Esse trono. Tirai de Luís Filipe o rei. Fica o homem. E o homem é bom. Por vezes é bom a ponto de ser admirável. Muitas vezes, no meio dos mais graves cuidados, depois de um dia de luta contra toda a diplomacia de con nente, recolhia-se à noite ao seu gabinete, e ali, exausto de fadiga, comba do pelo sono, o que fazia? Pegava num volumoso caderno e passava a noite a rever um processo criminal, julgando que era de certo uma grande coisa resis r à Europa, mas que era maior assunto ainda arrancar um homem ao carrasco. Obs nava-se contra o seu chanceler; disputava palmo a palmo o terreno da guilho na aos procuradores gerais, aos tagarelas da lei, como ele lhes chamava. A sua mesa estava por vezes coberta de processos, que todos examinava; era para ele uma aflição, abandonar aquelas miseráveis cabeças condenadas.
Uma vez, dizia ele (a mesma testemunha que há pouco indicámos) esta noite ganhei sete. Durante os primeiros anos do seu reinado, a pena de morte foi como que abolida e o cadafalso não tornou a erguer-se senão por uma violência feita ao rei. Como a Greve desaparecera com o ramo mais velho, foi ins tuída uma Greve burguesa sob o nome de Barreira de S. Tiago; porque os «homens prá cos» sen ram a necessidade de uma guilho na quase legí ma; foi esta uma das vitórias de Casimiro Périer, que representava
os ins ntos acanhados da burguesia, sob Luís Filipe que representava os ins ntos liberais, Luís Filipe nha notado Beccaria pela sua mão Depois da máquina Fieschi, costumava ele exclamar: Que pena não ter eu sido ferido, pois teria ocasião de perdoar!
De outra vez, aludindo às resistências dos seus ministros, escrevia acerca de um condenado polí co, que é um dos mais generosos vultos do nosso tempo: O seu perdão está concedido, só me resta obtê-lo. Luís Filipe era afável como Luís IX, e bom como Henrique IV.
Ora para nós, na história, onde a bondade é a pérola rara, quem foi bom quase excede quem foi grande.
Luís Filipe, tendo sido apreciado severamente por uns, duramente talvezpor outros, é coisa simples que um homem, também fantasma hoje, que conheceu aquele rei, venha depor a seu favor perante a história; este depoimento, qualquer que seja, é evidentemente e antes de tudo, desinteressado; um epitáfio escrito por um morto é sincero; uma sombra pode consolar outra sombra, a par lha das mesmas trevas dá o direito de louvor; e é pouco para recear que jamais digam de dois túmulos no deserto: Este adulou o outro.
IV — Fendas nos alicerces
No momento em que o drama que narramos vai entrar na espessura de uma das nuvens trágicas, que cobrem os princípios do reinado de Luís Filipe, era preciso que não houvesse equívocos; era necessário que este livro se explicasse sobre aquele rei.
Luís Filipe nha entrado na autoridade real, sem violência, sem acção directa da sua parte, por efeito de uma transformação revolucionária, evidentemente muito dis nto do fim real da revolução, mas no qual ele, duque de Orleãs, não vera a mínima inicia va pessoal. Nascera príncipe e julgava-se eleito rei. Esse mandato, porém, nem ele o tomou por sua feição nem o arrancou, servindo-se da força; ofereceram-lho e ele aceitou, convencido, falsa convicção conforme os nossos princípios, mas, enfim, convencido de que o oferecimento era conforme ao direito e a sua recusa contrária ao dever. Daí uma posse de boa fé por parte do rei, que conscientemente o dizemos junta à boa fé do seu ataque por parte da democracia, dá em resultado que o entorpecimento causado pelas lutas sociais nem pode ser lançado a cargo do rei nem exprobrado à democracia. Um choque de princípios assemelha-se a um embate de elementos. O oceano defende a água, a tempestade defende o ar, o rei defende a realeza, a democracia defende o povo; o rela vo que é monarquia, resiste ao absoluto, que é república; a sociedade sangra neste conflito, mas o que hoje lhe causa sofrimento, será mais tarde a sua salvação. E, em todo o caso, não há que censurar os que lutam, um dos dois par dos engana-se evidentemente; o direito não está, qual colosso de Rodes, sobre as duas margens ao mesmo tempo, com um pé na república e outro na realeza; o direito é indivisível e está todo de um lado, mas os que se enganam, enganam-se sinceramente; um cego é tanto um culpado como um vendeano é um salteador. Não imputemos, pois, senão à fatalidade das coisas estas terríveis colisões. Quaisquer que sejam tais tempestades, anda-lhes sempre aliada a irresponsabilidade humana.
Terminemos esta exposição.
O governo de 1830 teve logo um começo rude. Nascido ontem, teve de combater hoje.
Apenas estabelecido sen u vagos movimentos de tracção no aparelho de Julho, ainda tão recentemente assentado, e tão pouco sólido.
A resistência nasceu no dia seguinte; talvez mesmo estivesse nascida de véspera.
De mês em mês aumentava a hostilidade, e de surda tornou-se patente.
A revolução de Julho, mal aceita fora da França pelos reis, como dissemos, fora em França diversamente interpretada.
Deus patenteia aos homens as suas vontades visíveis nos acontecimentos, texto obscuro escrito numa língua misteriosa. Os homens fazem-lhe imediatamente traduções; traduções acanhadas, incorrectas, cheias de erros, de lacunas e de contra-sensos. Poucos espíritos compreendem a língua divina. Os mais sagazes, os mais tranquilos, os mais profundos, decifram vagarosamente, e quando chegam com o seu texto, já o trabalho está feito há muito tempo; há já vinte traduções na praça pública. De cada tradução nasce um par do, de cada contra-senso uma facção; cada par do julga possuir o verdadeiro texto, e cada facção acredita ter em si a luz.
Muitas vezes o próprio poder é uma facção.
Nas revoluções os par dos da ideia velha são como os que tentam nadar contra a maré.
Para os par dos velhos que se ligam à hereditariedade pela graça de Deus, saindo as revoluções do direito de revolta, há o direito de revolta contra eles. É um erro. Porque nas revoluções, o revoltado não é o povo, mas sim o rei. Revolução é precisamente o contrário da revolta. Sendo toda a revolução uma comoção normal, contém em si a sua legi midade, que falsos revolucionários desonram algumas vezes, mas que persiste, mesmo manchada, que sobrevive mesmo ensanguentada. As revoluções saem, não de um acidente, mas da necessidade. Uma revolução é um regresso do fic cio ao real. A revolução é-o, porque é necessário que o seja.
Os velhos par dos legi mistas nem por isso assaltavam menos a revolução de 1830
com todas as violências do falso raciocínio. Os erros são excelentes projécteis. Feriam-na com mestria onde ela era vulnerável, na falha da couraça, na sua falta de lógica; atacavam a revolução na sua realeza. Gritavam-lhe: Revolução, porque tens esse rei? As facções são cegos, cujas pontarias são certeiras.
Os republicanos soltavam igualmente esse grito. Mas, par ndo deles era lógico. O que era cegueira nos legi mistas era perspicácia nos democratas. 1830 fizera bancarrota ao povo. A democracia indignada exprobrava-lho.
O estabelecimento de Julho deba a-se entre o ataque do passado e o ataque do futuro. Representava um minuto, arcando de um lado com os séculos monárquicos, do outro com o direito eterno.
Além disto, no exterior, não sendo já a revolução e tornando-se monarquia, estava 1830 obrigado a tomar o passo à Europa. Guardar a paz, aumento de complicação. Uma harmonia exigida como que fora de propósito é muitas vezes mais onerosa do que uma guerra. Deste surdo conflito, sempre açaimado mas sempre rugindo, nasceu a paz armada, o ruinoso expediente da civilização suspeitosa de si mesma. A realeza de Julho
empinava-se, mesmo apesar de ter nas parelhas que a ravam gabinetes europeus.
Me ernich ter-se-ia posto de boa vontade o travão. Impelida em França pelo progresso, impelia na Europa as monarquias, sempre ronceiras. Rebocada, rebocava.
Entretanto, no interior, pauperismo, proletariado, salário, educação, penalidade, pros tuição, sorte da mulher, riqueza, miséria, produção, consumo, repar ção, permutação, moeda, crédito, direito do capital, direito do trabalho, outras tantas questões que se multiplicavam acima da sociedade; pendor terrível.
Fora dos par dos polí cos propriamente ditos, manifestava-se outro movimento. A fermentação democrá ca respondia à fermentação filosófica. A sociedade escolhida sentia-se sobressaltada como a multidão; de diverso modo, mas tanto como ela.
Os pensadores meditavam, enquanto o solo, isto é, o povo atravessado pelas correntes revolucionárias, tremia por baixo deles com indefiníveis e vagas convulsões epilép cas. Entes pensadores, uns isolados, outros reunidos em família e quase em comunhões, revolviam os problemas sociais, pacífica mas profundamente: mineiros impassíveis, que abriam tranquilamente as suas galerias até às profundidades de um vulcão, apenas incomodados pelas comoções surdas e pelo fogo entrevisto.
Esta tranquilidade não era o espectáculo menos belo daquela época agitada.
Aqueles homens deixavam aos par dos polí cos, a questão dos direitos e ocupavam-se da felicidade.
O bem-estar do homem era o que eles queriam extrair da sociedade.
Elevavam as questões materiais, as questões da agricultura, de indústria e de comércio, quase à dignidade de uma religião. Na civilização, tal como ela se opera, um pouco por Deus, muito pelo homem, combinam-se os interesses, agregam-se e amalgamam-se, de modo que formam verdadeira rocha dura, segundo uma lei dinâmica pacientemente estudada pelos economistas, que são os geólogos da política.
Os homens que se agrupavam sob diferentes denominações, mas que se podem designar todos pelo tulo genérico de socialistas, tratavam de defender a rocha dura e de fazer brotar delas as águas vivas da felicidade humana.
Os seus trabalhos abraçavam tudo, desde a questão do cadafalso até à questão da guerra. Ao direito do homem, proclamado pela revolução francesa, juntavam eles o direito da mulher e da criança.
Não causará decerto admiração, que por motivos diversos, não tratemos aqui a fundo, pelo lado teórico, as questões que o socialismo suscitou. Limitamo-nos a indicá-las.
Todos os problemas estabelecidos pelos socialistas, as visões cosmogónicas, a meditação e o misticismo separados, podem ser reduzidos a dois problemas principais.
Primeiro problema: Produzir a riqueza.
Segundo problema: Reparti-la.
O primeiro problema contém a questão do trabalho.
O segundo a do salário.
No primeiro problema trata-se do emprego das forças.
No segundo a distribuição dos gozos.
Do bom emprego das forças resulta o poder público.
Da boa distribuição dos gozos resulta a felicidade individual.
Por boa distribuição, é necessário entender-se, não a distribuição igual, mas a distribuição equitativa. A primeira igualdade é a equidade.
Das duas coisas: poder público no exterior, felicidade individual no interior, resulta a prosperidade social.
Prosperidade social, quer dizer, homem feliz, o cidadão livre, a naçãogrande.
A Inglaterra resolve o primeiro destes dois problemas. Cria admiravelmente a riqueza; mas reparte-a mal. Esta solução completa só de um lado, condu-la aos dois extremos: opulência monstruosa, miséria monstruosa. Todos os gozos para uns, todas as privações para outros, isto é, para o povo; o privilégio, a excepção, o monopólio, o feudalismo nascendo do próprio trabalho. Situação falsa e perigosa, que assenta o poder público na miséria par cular, e que enraíza a grandeza do estado nos sofrimentos do indivíduo.
Grandeza mal composta, onde se combinam todos os elementos materiais, e na qual não entra nenhum elemento moral.
O comunismo e a lei agrária julgam resolver o segundo problema. Enganam-se. A sua repar ção mata a produção. A par lha igual abole a emulação e por consequência o trabalho. É uma repar ção feita pelo magarefe, que mata e que divide. É impossível atender a estas pretendidas soluções. Matar a riqueza não é dividi-la.
Os dois problemas necessitam ser resolvidos juntos para serem bem resolvidos. As duas soluções querem ser combinadas e não fazerem mais do que uma.
Resolvei apenas o primeiro destes problemas e sereis Veneza, sereis Inglaterra. Tereis, como Veneza, um poder ar ficial, ou como a Inglaterra um poder material; sereis o mau rico. Perecereis por uma via de facto, como pereceu Veneza, ou por uma bancarrota, como perecerá a Inglaterra. E o mundo deixar-vos-á morrer e cair, porque o mundo deixa morrer e cair tudo o que não é senão egoísmo, tudo o que não representa para o género humano uma virtude ou uma ideia.
Deve entender-se aqui pelas palavras Veneza e Inglaterra, a designação, não de povos, mas de construções sociais; as oligarquias sobrepostas às nações e não as nações em si mesmas.
As nações têm sempre o nosso respeito e a nossa simpa a. Veneza, povo, renascerá; a Inglaterra, aristocracia, cairá; mas a Inglaterra, nação, é imortal. Dito isto, prossigamos.
Resolvei os dois problemas, animai o rico e protegei o pobre, suprimi a miséria, ponde um termo à exploração injusta do fraco pelo forte, ponde um freio à inveja iníqua do que ainda vai no caminho contra o que já chegou, ajustai matema camente e fraternalmente o salário ao trabalho e o ensino gratuito e obrigatório ao crescimento da infância e fazei da ciência a base da virilidade, desenvolvei as inteligências, ocupando ao mesmo tempo os braços, sede simultaneamente um povo poderoso e uma família de homens felizes, democra zai a propriedade, não abolindo-a mas universalizando-a, de modo que todo o cidadão, sem excepção, seja proprietário, coisa mais fácil do que se julga; em duas palavras, sabei produzir a riqueza e repar -la, e tereis ao mesmo tempo a grandezamaterial e a grandeza moral, e sereis dignos de vos chamardes França.
Eis o que dizia o socialismo, discordante e superior a algumas seitas que se transviavam do recto caminho, eis o que ele procurava nos factos e o que esboçava nos espíritos.
Esforços admiráveis! Sagradas tentativas!
Estas doutrinas, estas teorias, estas resistências, a necessidade inesperada para o homem de Estado de contar com os filósofos, confusas evidências, uma polí ca nova a criar, de acordo com o velho mundo, sem demasiado desacordo com o ideal revolucionário, uma situação na qual era necessário cansar Lafaye e a defender Polignac, a intuição do progresso transparente sob a revolta, as câmaras e a rua, as competências a equilibrar em torno de si a sua fé na revolução, talvez não sei que resignação eventual nascida da vaga aceitação de um direito defini vo superior, a vontade de permanecer, própria da sua raça, o seu espírito de família, o seu sincero respeito pelo povo, a sua própria honradez, preocupavam Luís Filipe quase dolorosamente, e em certos momentos, apesar de forte e corajoso, acabrunhavam-no sob a dificuldade de ser rei. Sen a sob os pés uma desagregação temível, que não era contudo uma redução a pó, por isso que a França era mais França do que nunca.
O horizonte toldava-se de tenebrosas aglomerações, havia uma sombra estranha que avançava con nuamente, e se estendia a pouco e pouco sobre os homens, sobre as coisas, sobre as ideias; sombra que provinha das cóleras e dos sistemas. Tudo que fora prematuramente sufocado, se revolvia e fermentava. Por vezes a consciência do homem honrado recolhia a respiração, tal era a morbidez daquele ar em que os sofismas se aliavam às verdades. Os espíritos tremiam com a ansiedade social, como a folhagem à aproximação da tempestade.
A tensão eléctrica era tal, que em certos momentos o primeiro que aparecia, um desconhecido, iluminava. Depois tornava a dominar a obscuridade crepuscular. De vez em quando surdos e profundos rugidos podiam fazer avaliar a quan dade de raios con dos na nuvem. Tinham decorrido apenas vinte meses após a revolução de Julho; o ano de 1832 abrira-se com um aspecto de iminência e de ameaça. A penúria do povo, os trabalhadores sem pão, o úl mo príncipe de Conde desaparecido nas trevas, Bruxelas expulsando os Nassau como a França os Bourbons, a Bélgica oferecendo-se a um príncipe francês e dada a um príncipe inglês, o ódio russo de Nicolau, por trás de nós dois demónios do Meio-Dia: Fernando em Espanha, Miguel em Portugal, a terra tremendo na Itália, Me ernich estendendo a mão sobre Bolonha, a França ofendendo a Áustria em Ancona, ao norte não sei que sinistro ruído de marteladas tornando a fechar a Polónia no seu caixão mortuário, em toda a Europa vistas irritadas espreitando a França, a Inglaterra, aliada suspeita, pronta a impelir o que tombasse e a lançar-se sobre o que caísse, o pariato abrigando-se por trás de Beccaria para recusar à lei quatro cabeças, as flores de lis raspadas da carruagem do rei, a cruz arrancada da igreja de Nossa Senhora, Lafaye e decaído, Laffite arruinado, Benjamim Constant morto na indigência, Casimiro Périer morto no desalento do poder; a doença polí ca e a doença social declarando-se ao mesmo tempo nas duas capitais do reino, uma a cidade do pensamento, outra a cidade do trabalho; em Paris a guerra civil, em Lyon a guerra servil; em ambas as cidades o mesmo clarão de fornalha; uma púrpura de cratera na fronte do povo; o Meio-Dia