Os Miseráveis
I — Onde se trata do modo de entrar no convento
Quanto a nós, que não cremos o que crêem essas mulheres, mas que, como elas, vivemos pela fé, nunca pudemos considerar sem uma espécie de terror religioso e terno, sem uma espécie de piedade cheia de inveja, essas criaturas dedicadas, trémulas e crentes, essas almas humildes e augustas que ousam viver mesmo à beira do mistério, esperando entre o mundo que se fechou e o céu que não se abre, voltadas para a claridade, que se não vê, só com a ventura de julgarem que sabem onde ela está, aspirando ao abismo e ao incógnito com os olhos fixos na escuridão imóvel, ajoelhadas, desvairadas, estupefactas, assustadas, soerguidas a certas horas pelos sopros profundos da eternidade.
LIVRO OITAVO — OS CEMITÉRIOS ACEITAM O QUE LHES DÃO
I — Onde se trata do modo de entrar no convento
Foi naquele convento que Jean Valjean, como dissera Fauchelevent, «caíra do céu».
Saltara pelo muro que formava o ângulo para a rua Polonceau. O hino de anjos que ouvira no meio do silêncio da noite eram as religiosas entoando ma nas; a sala que entre vira na escuridão era a capela; o fantasma que vira estendido no lajedo era a irmã
«fazendo a reparação»; o nir que tão estranhamente o surpreendera, era o guizo do jardineiro, o guizo que Fauchelevent trazia preso ao joelho.
Depois de Cose e deitada, nham Jean Valjean e Fauchelevent, como se viu, ceado um copo de vinho e um bocado de queijo, junto dum bom lume; em seguida, estando a única cama que havia na barraca ocupada por Cose e, nha-se deitado cada um num feixe de palha. Jean Valjean dissera antes de fechar os olhos:
— Agora preciso ficar aqui.
Estas palavras tinham-se agitado toda a noite no cérebro de Fauchelevent.
Para falar verdade, nem um nem outro dormiram.
Jean Valjean sen ndo-se descoberto e com Javert na pista, compreendeu logo que tanto ele como Cose e estavam perdidos, se tornassem a entrar em Paris. Uma vez que a nova rajada de vento que soprara sobre ele, o fizera encalhar naquele claustro, já não nha outro pensamento que não fosse o de ali ficar. Ora, para um desgraçado na sua posição, aquele convento era, ao mesmo tempo, o lugar mais perigoso e o mais seguro; mais perigoso, porque não podendo ali penetrar homem algum, a descoberta dele era um flagrante delito, e Jean Valjean não dava mais que um passo do convento para a cadeia; e mais seguro, porque conseguido que o aceitassem e deixassem lá permanecer, quem o iria buscar? Habitar num lugar em que fosse impossível estar, era a salvação.
Fauchelevent, pela sua parte, dava voltas ao miolo. Começara por declarar a si mesmo que não percebia nada. Como era que o senhor Madelaine ali se achava apesar daqueles muros? Muros de claustro não se saltam. Como se achava ali com uma criança? Não se escala um muro com uma criança nos braços. Quem era aquela criança? Donde nham vindo ambos? Desde que Fauchelevent entrara no convento, nunca mais ouvira falar em Montreuil-sur-mer, portanto não nha a mínima ideia do que ali se passara. O senhor Madelaine nha um aspecto que não animava a fazer perguntas; e depois Fauchelevent dizia consigo: «A um santo não se pergunta nada».
Madelaine conservara para ele todo o seu pres gio. Só por algumas palavras que escapavam a Jean Valjean, julgou o jardineiro dever concluir que o senhor Madelaine nha talvez quebrado em consequência dos tempos correrem maus, e que era perseguido pelos credores; ou que se comprometera em algum negócio polí co, e que por isso se ocultava, o que não desagradou a Fauchelevent, o qual, como muitos camponeses do norte da França, nha um grande fundo bonapar sta. Madelaine querendo esconder-se tomara o convento por asilo; era portanto simples que ali quisesse ficar. Mas o ponto inexplicável de que Fauchelevent se não esquecia e com que quebrava a cabeça, era que Madelaine ali estivesse, e de mais a mais com aquela criança.
Fauchelevent via-os, tocava-lhes, falava-lhes e não o podia crer. O incompreensível
acabava de entrar na choupana do jardineiro. Fauchelevent andava às apalpadelas, mas não via senão isto.
O senhor Madelaine salvou-me a vida. Esta única certeza era-lhe bastante, e foi o que o resolveu. Disse consigo: «Toca-me agora a minha vez»; e acrescentou na consciência:
«O senhor Madelaine não levou tanto tempo a pensar, quando viu que era preciso meter-se debaixo da carroça para me livrar do seu peso». Decidiu portanto que salvaria o senhor Madelaine. Dirigiu pois a si mesmo diversas perguntas e deu diversas respostas:
«Depois do que fez por mim, se fosse um ladrão salvá-lo-ia? Do mesmo modo. Salvá-lo-ia se fosse um assassino? Não tem que ver. Salvá-lo-ei, sendo um santo como é? Custe o que custar.
Mas fazer com que ficasse no convento, que problema! Fauchelevent, na presença desta tenta va quase quimérica, não recuou; o pobre camponês picardo, sem outra escada além da sua dedicação, da sua boa vontade, e com alguma dessa pouca figura campesina, posta, desta vez, ao serviço de uma intenção generosa, empreendeu escalar as dificuldades do claustro e as rudes escarpas da ordem de S. Bento. O senhor Fauchelevent era um velho que toda a sua vida fora egoísta, e que no termo dos seus dias, coxo, doente, não tendo no mundo o menor interesse, achou doçura em ser reconhecido; e vendo que havia a pra car uma acção virtuosa, lançou-se a ela, como o homem que, próximo a deixar a vida, achasse ao alcance da mão um copo de bom vinho que nunca houvesse provado e o bebesse avidamente. Pode acrescentar-se que o ar que respirava havia anos, naquele convento, lhe destruíra a personalidade, acabando por lhe tornar necessária a prática de uma boa acção.
Tomou, pois, uma resolução: dedicar-se a Madelaine.
Acabamos de o qualificar de pobre camponês picardo. A qualificação é justa, mas incompleta. No ponto em que nos achamos desta história, tornam-se úteis alguns traços fisiológicos do senhor Fauchelevent. Era camponês, mas fora tabelião, o que lhe juntara à finura a chicana e a penetração à sinceridade. Tendo por causas diversas saído mal dos seus negócios de tabelião, caíra em carroceiro e trabalhador. Mas, a despeito das pragas e das chicotadas, necessárias aos cavalos, parece que conservara ainda o que quer que era de tabelião.
Tinha certo talento natural; não dizia eu temos nem eu sabemos; conversava, coisa rara na aldeia, e os outros camponeses diziam dele: fala suavemente como um senhor fidalgo. Fauchelevent pertenceu com efeito, à espécie que o imper nente e ligeiro vocabulário do século passado qualificava de: meio burguês meio rús co; a que as metáforas, caindo do palácio na choupana, apelidavam um pouco cidadão: sal e pimenta. Fauchelevent, ainda que muito experimentado e usado pela sorte, espécie de pobre velha alma já no fio, era todavia homem de primeiras impressões, e muito espontâneo; qualidade preciosa que sempre impede que se seja mau.
Os seus defeitos e vícios, que os nha do, não passaram da super cie; em suma, a sua fisionomia era das que são bem aceitas pelo observador. Aquele velho rosto não tinha nenhuma das desgraçadas rugas da testa que significam maldade ou estupidez.
Ao romper do dia, depois de haver sonhado extraordinariamente, Fauchelevent abriu
os olhos e viu Madelaine sentado no feixe de palha, contemplando Cose e adormecida.
Fauchelevent sentou-se também e disse:
— Agora que está aqui, como foi que entrou?
Estas palavras resumiram o facto e despertaram Jean Valjean da sua meditação.
Os dois homens celebraram conselho.
— Em primeiro lugar — disse Fauchelevent o senhor há-de começar por não pôr o pé fora desta barraca, nem tão-pouco a pequenita. Um passo na cerca pode deitar tudo a perder.
— É justo.
— Senhor Madelaine — tornou Fauchelevent — o senhor chegou em muito boa ocasião, quero dizer muito má: uma destas senhoras está gravemente doente, o que fará com que olhem pouco cá para o nosso lado. Parece que não escapa, porque estão fazendo as preces das quarenta horas. Anda toda a comunidade no ar. Isto dá-lhe que fazer. A que está próxima a deixar-nos é uma santa. A falar verdade, nós aqui todos somos santos; a diferença entre elas e eu, é que elas dizem: a nossa cela, e eu digo: a minha choupana; haverá a oração dos agonizantes, e depois a oração pelos mortos. Por hoje estaremos tranquilos aqui; mas pelo meio-dia de amanhã não respondo.
— Contudo — observou Jean Valjean — esta barraca está oculta pelas ruínas e pelas árvores; não se vê do convento.
— E eu acrescento que as religiosas nunca se lhe aproximam.
— E então? — disse Jean Valjean.
O ponto de interrogação que acentuava este então, significava: Parece-me que se pode estar aqui oculto. Foi no ponto de interrogação que Fauchelevent respondeu.
— Mas há as pequenas.
— Quais pequenas? — tornou Jean Valjean.
Quando Fauchelevent abrira a boca para responder, explicando as suas palavras, ouviu-se o toque duma sineta.
— Morreu a religiosa — disse ele. — Aí estão dobrando.
E fez sinal a Jean Valjean para que escutasse.
A sineta deu segunda badalada.
— É o dobre, senhor Madelaine. A sineta con nuará por vinte e quatro horas dando aquelas badaladas, de minuto a minuto, até que o corpo saia da igreja. Mas o senhor bem sabe, as crianças nunca param quietas. Nas horas de recreio vêm brincar para a cerca e basta que se desencaminhe alguma pela para que elas, apesar das proibições, venham para este lado procurá-las e comecem por aí a sarilhar por uma banda e por outra, revistando e mexendo em tudo. São uns diabos aqueles querubins.
— Quem? — perguntou Jean Valjean.
— As pequenas. Era um instante enquanto aqui vinham dar consigo e logo gritariam: Olhem um homem! Mas hoje não há perigo. Não haverá recreio. O dia irá todo em orações. Ouve a sineta? É o que eu lhe disse, uma badalada cada minuto. É o dobre.
E Jean Valjean disse consigo: «E teria achado a educação de Cosette».
Fauchelevent exclamou:
— Com a fortuna! Um bando de pequeninas, que fariam grande gritaria à roda do senhor e que em seguida fugiriam todas! Ser homem neste lugar é o mesmo que estar empestado. Bem vê que me atam um guizo a uma perna, como se eu fosse um animal bravio.
Jean Valjean cada vez meditava mais profundamente. «Este convento salvar-nos-ia», murmurou ele.
Depois, levantando a voz:
— A grande dificuldade está em poder ficar.
— Nada — disse Fauchelevent — a grande dificuldade está em poder sair.
Jean Valjean sentiu o sangue refluir-lhe ao coração.
— Sair!
— Sim, senhor Madelaine; para tornar a entrar é preciso que tenha saído.
E depois de deixar passar o ruído duma badalada do dobre, Fauchelevent prosseguiu:
— Não é possível que o encontrem aqui deste modo. De onde veio o senhor? Cá para mim caiu do céu, porque o conheço; mas para as religiosas é preciso que entre pela porta.
De repente, ouviu-se o dobre acrescentado com o som doutra sineta.
— Aí está! — disse Fauchelevent — tocam as madres vocais. Vão para o capítulo quando alguma morre. Esta morreu ao amanhecer; é quase sempre ao amanhecer que se morre. Mas o senhor não poderia sair por onde entrou? Ora vejamos, isto é curiosidade, por onde foi que entrou?
Jean Valjean empalideceu; só a ideia de tornar a encontrar-se na temível rua o fazia estremecer. Saí de uma floresta infestada de gres, e uma vez fora, imaginai um amigo aconselhando-vos para que torneis a entrar nela. Jean Valjean supunha ainda toda a polícia acumulada no bairro, parecia-lhe ver os agentes em observação, sen nelas por todos os cantos, medonhos punhos pretendendo agarrá-lo pelo pescoço, e talvez Javert à esquina da rua.
— É impossível! — disse ele. — Senhor Fauchelevent, diga que caí do céu.
— Eu cá por mim acredito — retorquiu Fauchelevent — não precisa dizer-me. Deus pegou-lhe talvez pela mão para o ver de mais perto, e deixou-o em seguida cair. Mas enganou-se; o que Ele queria decerto era deixá-lo cair num convento de homens. Olhe, ainda outro toque. Este é para dizer ao porteiro que vá prevenir a municipalidade para que mande avisar o médico dos mortos., o qual deve vir cer ficar-se de que morreu aqui uma pessoa. Tudo isto são as cerimónias da morte. As pobres freiras nem por isso gostam desta visita, porque, enfim, um médico é um homem que não acredita em nada.
Elevem, levanta o véu, às vezes levanta também outra coisa. Mas como desta vez mandaram avisar o médico depressa! Que demónio haverá lá? A sua pequena ainda dorme? Como se chama ela?
— Cosette.
— É sua filha, quero dizer, é sua neta?
— É.
— Lá para ela sair daqui, isso é fácil. A porta por onde eu entro e saio, deita para o
pá o. Chego, bato, o porteiro abre e eu saio com o meu cesto às costas e a pequena dentro. Não tem nada; é o senhor Fauchelevent que sai com o seu cesto. Mas o senhor há-de dizer à pequena para ela estar muito quieta. Deste modo e com a tampa por cima, ninguém é capaz de adivinhar o que lá vai dentro. Depois levo-a para casa de uma fruteira minha amiga, que mora na rua do Caminho Verde. É velha e surda, mas muito boa mulher. Lá fica a pequena bem, porque ela tem uma caminha muito arranjada. Para ela não desconfiar, grito-lhe aos ouvidos que é uma sobrinha minha e que, portanto, ma guarde até ao outro dia. Depois a pequena há-de entrar consigo, pois eu hei-de fazê-lo entrar, isso é que não tem remédio. Mas para sair, para sair, como há-de o senhor arranjar?
Jean Valjean abanou a cabeça.
— Senhor Fauchelevent, o ponto está em que ninguém me veja. Veja se arranja a que eu saia também, como Cosette, dentro de um cesto com uma tampa por cima.
Fauchelevent, porém, em vez de responder, coçava a ponta da orelha com o dedo médio da mão esquerda, sinal de sério embaraço, a que um terceiro toque veio fazer diversão.
— Lá se vai embora o médico dos defuntos — disse Fauchelevent. — O médico chega, olha e depois diz: «Está bom; está morta». Depois que o médico visa o passaporte para o outro mundo, o armador manda um caixão. Se é alguma madre, são as madres que a metem dentro; se é soror, são as sorores. Depois quem prega sou eu. Esta tarefa também faz parte cá da minha jardinagem. Um jardineiro também é meio coveiro. O
caixão leva-se para uma sala inferior da igreja que comunica para a rua e onde não pode entrar mais homem nenhum senão o médico dos defuntos. Eu por homens não me conto, a mim nem aos gatos-pingados. Nessa sala é onde eu prego o caixão. Depois vêm os gatos-pingados buscá-lo, e toca para diante, cocheiro! Como se vai para o céu assim.
Trazem um carro vazio, levam-no com alguma coisa dentro. Aqui está como é um enterro. De profundis.
Jean Valjean, sem dar atenção ao que Fauchelevent dizia, pusera-se outra vez a contemplar Cose e, que dormia ainda, com o rosto iluminado por um raio de sol horizontal e a boca vagamente entreaberta, semelhando um anjo a beber luz.