Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 110 de 359

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Os Miseráveis

III — Veja-se a planta de Paris em 1827

Entre duas estâncias de madeira, cercadas por uma parede, abria-se uma ruazinha, a rua do Caminho Verde de Santo António, estreita, escura e como que feita de propósito para ele. Antes, porém, de se meter por ela, olhou para trás.

Do sítio em que estava via a ponte de Austerlitz em toda a sua extensão.

Acabavam de entrar na ponte quatro sombras, que voltavam as costas ao Jardim das Plantas e se dirigiam para a margem direita.

Estas quatro sombras eram os quatro homens.

Jean Valjean sentiu o estremecimento do animal que é apanhado de novo.

Restava-lhe, porém, uma esperança: era que talvez aqueles homens não vessem ainda entrado na ponte, nem o vessem avistado na ocasião em que, com Cose e pela mão, atravessara o grande espaço iluminado.

Nesse caso, metendo-se pela ruazinha que nha à sua frente, se conseguisse chegar às estâncias de madeira, aos pântanos, aos campos, aos sítios sem casas, podia escapar.

Pareceu-lhe digna de confiança aquela ruazinha silenciosa e meteu-se por ela.

III — Veja-se a planta de Paris em 1827

Ao cabo de trezentos passos, chegou a um lugar em que a rua se bifurcava, dividindo-se em duas, uma que ladeava à esquerda, outra à direita. Jean Valjean nha diante de si como que as duas hastes de um Y. Qual delas escolher?

Tomou pela direita sem hesitações.

Porquê?

Porque a ramificação esquerda conduzia para o arrabalde, isto é, para os lugares habitados, e a direita para o campo, para os lugares desertos.

A este tempo, porém, já não caminhavam com tanta rapidez. O passo de Cose e fazia afrouxar o de Jean Valjean, o que o obrigou a pegar nela ao colo outra vez.

Cosette apoiava a cabeça no ombro do velho, sem dizer palavra.

De tempos a tempos, ele voltava-se e olhava, tendo sempre o cuidado de se conservar do lado escuro da rua. Até ao ponto em que ele se achava, a rua não fazia curvas. Das duas ou três primeiras vezes que se voltou não viu nada, era profundo o silêncio, e por isso con nuou o seu caminho um tanto mais tranquilizado. De repente, em certa ocasião em que se voltou, pareceu-lhe ver ao longe, na parte da rua por onde acabava de passar, uma coisa a mover-se no meio da escuridão.

Jean Valjean não andou, precipitou-se para a frente, esperando encontrar algum beco transversal para onde se evadisse e que lhe perdessem o rasto mais uma vez.

Foi dar ao pé de um muro.

Este muro, contudo, não impedia que se passasse além: orlava um beco transversal no qual terminava a rua por onde tomara Jean Valjean.

Ainda aqui foi-lhe necessária uma resolução: tomar pela esquerda ou pela direita.

Olhou para a direita. O beco prolongava-se tortuoso por entre casas, que eram cocheiras ou celeiros, mas não tinha saída. Via-se distintamente a parede que o fechava.

Olhou para a esquerda. O beco deste lado era aberto e ao cabo de uns duzentos passos desembocava numa rua de que era afluente. Era deste lado que estava a salvação.

No momento em que Jean Valjean se decidiu a voltar para a esquerda, para alcançar a rua que entrevia no extremo do beco, avistou na esquina que ele formava para aquela rua, uma espécie de estátua negra e imóvel.

Era um homem que evidentemente acabava de ali ser postado e que estava à espera, impedindo a passagem.

Jean Valjean recuou.

O ponto de Paris em que Jean Valjean se achava, situado entre o arrabalde de Santo António e a Rapée, é do número dos que os trabalhos recentes transformaram completamente, afeando-os, segundo uns, segundo outros transfigurando-os. Os campos, as estâncias de madeira, as casas velhas, desapareceram para dar lugar a grandes ruas novas, a arenas, circos e hipódromos, a estações de caminhos de ferro, a uma prisão, Mazas; finalmente, como se vê, ao progresso com o seu correctivo.

Há meio século, nessa linguagem popular, toda formada de tradições, que teima em chamar ao Ins tuto as Quatro Nações e Faydeau à Ópera-Cómica, o sí o a que Jean Valjean chegara chamava-se o Pe t-Picpus. Porta de S. Tiago, porta de Paris, barreira dos sargentos, Porcherons, Galeota, Celes nos, Capuchinhos, Mail, Bourbe, a Árvore de Cracóvia, Pequena Polónia, Pe t-Picpus, são os nomes, do velho Paris sobrenadando no novo. A memória do povo flutua sobre estes fragmentos do passado.

O Pe t-Picpus, que mal exis u, pois nunca passou do esboço de um bairro, nha quase o aspecto monacal de uma cidade espanhola. Os caminhos eram mal nivelados, as ruas mal calçadas. Exceptuando as três ruas de que vamos falar, tudo o mais eram paredes e solidão. Nem uma loja, nem uma carruagem; apenas alguma luz a uma janela ou outra, porém tudo apagado passadas as dez horas. Jardins, conventos, estâncias de madeira, pântanos; raras casas baixas e grandes paredes da altura das casas.