Os Miseráveis
III — A quatro e quatro
O seu nome deu-lho a bel-prazer o primeiro transeunte que a encontrou na rua, muito pequenina e de pé descalço. Recebeu um nome, como na fronte recebia a água das nuvens, quando chovia. Chamavam-lhe Fan ne e era quanto bastava. Esta criatura humana viera assim ao mundo. Aos dez anos, Fan ne deixou a cidade e foi servir para casa de uns rendeiros dos arrabaldes. Aos quinze anos foi para Paris, em busca de fortuna. Fan ne era formosa e conservou-se pura o maior espaço de tempo que lhe foi possível. Era uma linda rapariga loira e com bonitos dentes. Oiro e pérolas eram o seu dote, mas o oiro tinha-o na cabeça e as pérolas na boca.
Trabalhou para viver; depois, ainda para viver, porque o coração também necessita de alimento, amou.
Amou Tholomyés.
Para ele era apenas um passatempo, para ela era uma paixão. As ruas do bairro La no, em que formigam con nuamente estudantes e costureiras, presenciaram o princípio deste sonho.
Fan ne, nesses dédalos da colina do Panteon, onde começam e desfazem tantas aventuras, esquivara-se por muito tempo a Tholomyés, porém de modo a encontrar-se sempre com ele. Há um modo de fugir que se assemelha a procurar. A écloga realizou-se.
Blachevelle, Listolier e Fameuil formavam uma espécie de corpo de que Tholomyés era a cabeça. Quem tinha o espírito era ele.
Tholomyés era an go estudante veterano; era rico, possuía quatro mil francos de rendimento, o que na montanha de Santa Genoveva era um esplêndido escândalo. Era um pândego de trinta anos, mal conservado. Tinha a pele encarquilhada, faltavam-lhe dentes e começava já a aparecer-lhe uma calva, de que ele próprio dizia sem tristeza:
«Calva aos trinta, gota aos quarenta». Digeria mal e sofria de uma inflamação na vista.
Porém, à medida que a juventude se lhe apagava, reanimava-se-lhe a jovialidade; subs tuía os dentes por gestos cómicos, os cabelos pela alegria, a saúde pela ironia e o olho que chorava ria de con nuo. Estava estropeado, mas cheio de viço. A sua mocidade, fechando a bagagem muito antes da idade própria, re rava-se em boa ordem, rindo sempre e fazendo fogo. Era autor de uma peça que foi rejeitada no teatro do Vaudeville e, de tempos a tempos, também compunha versos. Além de tudo isto duvidava superiormente de todas as coisas, o que denotava grande força de espírito aos olhos dos fracos. Por isso, sendo irónico e calvo, era o chefe.
Iron é uma palavra inglesa que quer dizer ferro. Será dessa palavra que provém ironia?
Um dia, Tholomyés chamou os amigos de parte, fez um gesto de oráculo e disse-lhes:
— Há quase um ano que Fan ne, Dália, Zefina e Favorita nos pedem que lhes façamos uma surpresa e nós prometemos-lha solenemente. Todos os dias nos falam nela, principalmente a mim. Do mesmo modo que as velhas em Nápoles gritam a S. Januário: Faceia gialluta, fa o miracolo, «face amarela, faz o milagre», assim as nossas belas me dizem sem cessar: «Tholomyés, quando darás à luz a tua surpresa?» Ao mesmo tempo, os nossos pais escrevem-nos, estamos apertados por dois lados. Portanto, é chegado o momento. Conversemos.
Dito isto, Tholomyés principiou a falar em voz baixa e disse o que quer que fosse de engraçado, que uma grande e entusiás ca gargalhada saiu das quatro bocas ao mesmo tempo e Blachevelle exclamou:
— Que grande ideia!
Nisto, chegaram à porta de um botequim cheio de fumo, entraram e o resto da sua conferência perdeu-se nas trevas.
O resultado dessa conferência foi uma esplêndida passeata, para que foram convidadas as quatro raparigas e que se efectuou no domingo seguinte.
III — A quatro e quatro
Hoje mal se pode fazerideia do que era, há quarenta e cinco anos, um passeio ao campo entre estudantes e costureiras. Paris já não tem os mesmos arredores. Aquilo a que se podia chamar vida circumparisiense mudou completamente há meio século a esta
parte. Onde rodava a diligência, voa a locomo va; onde navegava a barca, corre o vapor; fala-se hoje de Fécamp, como então se falava de Saint-Cloud. O Paris de 1862 é uma cidade que tem a França por arrabaldes.
Os quatro pares pra caram conscienciosamente todas as loucuras campestres possíveis naquele tempo. Era em princípios de férias, por um quente e límpido dia de Verão. No dia anterior, Favorita, a única que sabia escrever, mandou em nome das quatro, o seguinte bilhete a Tholomyés: «Quanto mais cedo ver lugar a par da, melhor».
Foi, pois, em consequência deste bilhete que eles se levantaram às cinco horas da manhã e foram num carro para Saint-Cloud; ao verem a cascata seca, exclamaram: «Deve ser magnífica quando deitar água!» Almoçaram na Téte-Noir, que ainda entãonão pertencia a Castaing, jogaram as argolas no bosque do tanque grande, subiram ao mirante de Diógenes, jogaram a doces na roleta da ponte de Sèvres colheram flores em Puteaux, compraram pêssegos em Neuilly, comeram fruta em toda a parte, diver ram-se muito e todos se sen ram felizes. As raparigas corriam e chilreavam como tou negras em liberdade. Era um delírio. De vez em quando voltavam-se para os rapazes e ba am-lhe ligeiramente nas faces. Embriaguez matu na da vida! Adoráveis anos! Todas quatro estavam arrebatadamente lindas!
Um poeta clássico, então em voga, excelente velho que nha uma Leonor, o cavalheiro de Labouisse, andando nesse dia a passear no souto de Saint-Cloud, ao vê-las passar, seriam dez horas da manhã, exclamou: «Vai uma a mais!», referindo-se àsTrês Graças.
Favorita, a amante de Blachevelle, a que nha vinte e três anos e a quem apelidavam de velha, corria na frente por entre os grandes ramos verdes, atravessava os fossos e as moitas com a alegria e entusiasmo de uma jovem fauna. Zefina e Dália, que o acaso fizera belas, de modo que uma ao pé da outra sobressaíam mais e secompletavam, caminhavam sempre juntas, mais ainda por ins nto de garridice do que por amizade, e, encostadas uma àoutra, tomavam a tudes inglesas; acabavam de aparecer os primeiros Keapsakes, despontava a melancolia para as mulheres, do mesmo modo que mais tarde o byronianismo para os homens, e os cabelos do sexo amável principiavam a usar-se em cachos. Zefina e Dália traziam-nos em caracóis.
Listolier e Fameuil, embrenhados numa discussão sobre os seus professores, explicavam a Fan ne a diferença que havia entre os senhores Delvincourt e Blondeau.
Blachevelle pareciater nascido expressamente para levar no braço, aos domingos, o desbotado xaile de Favorita.
Tholomyés ia atrás, dominando o grupo. Folgazão como os outros, conhecia-se, todavia, que era ele quem governava; na sua jovialidade descobria-se ditadura. O seu principal ornamento consis a numas calças «pernas de elefante», com presilhas de trança de cobre; levava na mão uma potente bengala que lhe custara duzentos francos, e na boca uma coisa singular chamada charuto, porque, como fazia tudo quanto queria, até fumava
— Este Tholomyés é espantoso! — diziam os outros respeitosamente. — Que calças!
Que energia!
Quanto a Fan ne era a personificação da alegria. Os brilhantes dentes que possuía nham evidentemente recebido de Deus a missão do riso. Levava de melhor vontade na mão do que na cabeça o seu chapelinho de palha guarnecido de fitas brancas. Os abundantes cabelos loiros sempre prontos a flutuar, soltando-se a cada instante, o que a obrigava a segurá-los con nuamente, pareciam ter nascido para a fuga de Galateia por entre os salgueiros. Os lábios deliciosamente rosados brilhavam de modo encantador. Os cantos da boca voluptuosamente contraídos como nas carrancas de Erigone, como que estavam provocando a desejos; porém, as compridas e espessas sobrancelhas baixavam-se discretamente como que para abafar a provocação dos lábios. No vestuário havia um não sei quê de cantante e fulgurante. Trazia um ves do de barege cor de malva, sapa nhos abo nados, de um pardo duvidoso, cujas fitas se traçavam airosamente sobre finíssimas meias abertas e essa espécie de corpete de cassa, invenção marselhesa, cujo nome canezou, corrupção da frase quinze aôut, pronunciada na Canebière, significa bom tempo. As outras três, menos midas, trajavam ves dos decorados, o que de Verão, por baixo de chapéus cobertos de flores, é extremamente gracioso e provocador; mas ao lado destes atrevidos vestuários, o canezou da loira Fan ne, com as suas transparências, indiscrições e re cências, escondendo e mostrando ao mesmo tempo, parecia uma provocadora descoberta da decência, a que o notável tribunal do amor, presidido péla viscondessa de Ce e, de olhos verde-mar, talvezdesse o prémio da garridice àquele canezou queconcorria para a cas dade. O mais ingénuo é às vezes o mais acertado. Acontece disto.
Rosto resplandecente, perfil delicado, olhos azuis-escuros, pálpebras grandes, pés pequeníssimos, pulsos e tornozelos admiravelmente talhados, pele branca, mostrando aqui e além as ramificações azuladas das veias, faces pueris e frescas, o pescoço robusto das Junos eginenses, ombros como que modelados por Couston, tendo no centro uma voluptuosa cavidade, visível através da cassa, uma alegria melancólica, formas esculturais e delicadas, eis como era Fantine.