Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 42 de 359

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Os Miseráveis

IV — O senhor Madelaine de luto

Só o que custa é colher a semente, porque vai caindo, consoante vai amadurecendo; e eis tudo. com mais algum trabalho, a ur ga tornar-se-ia ú l; desprezam-na, por isso se torna nociva e então destroem-na. Quantos homens há que se assemelham às ur gas! E

depois de uma pausa, acrescentou: Meus amigos, tomai bem sen do nisto: não há ervas más, nem maus homens, o que há são maus cultivadores.

As crianças também o amavam, porque ele fazia-lhes bonitas coisas de palha e casca de coco.

Quando via a porta duma igreja armada de preto, entrava; este homem procurava um enterro, como outros procuram um bap zado. Atraía-o o espectáculo da viuvez e da desventura alheia, por efeito da grande doçura do seu carácter; misturava-se com os amigos em luto, com as famílias ves das de preto, com os sacerdotes, gemendo em volta de um féretro. Parecia dar voluntariamente por texto aos seus pensamentos os salmos fúnebres, em que transparecia a visão de um outro mundo.

Escutava com os olhos voltados para o céu e uma espécie de aspiração para todos osmistérios do infinito, aquelas vozes tristes que cantam à beira do escuro abismo da morte.

Pra cava uma infinidade de boas acções, ocultando-se delas, como outros se ocultam para pra car as más. De noite, introduzia-se fur vamente nalgumas casas, subindo

cautelosamente as escadas, como um ratoneiro nocturno que procura, a coberto da noite, lançar a mão criminosa.

De modo que, um pobre homem, ao recolher-se para o seu miserável tugúrio, encontrava às vezes a porta aberta, ou até com indícios de lha terem forçado, durante a sua ausência e exclamava: «Andaram aqui os ladrões!» Porém, ao entrar, a primeira coisa que via era uma moeda de oiro em cima de algum móvel. O «malfeitor» que andara por ali, era o senhor Madelaine.

Era um homem afável e triste, o que fazia o povo dizer: «Ali está um rico que não tem ar de soberba, como muitos. É um homem feliz, com cara de quem não vive sa sfeito.»

Pretendiam alguns que era um personagem misterioso e afirmavam não entrar ninguém no seu quarto, o qual era uma verdadeira cela de anacoreta, mobilada de ampulhetas com asas e adornada com caveiras e bias dispostas em cruz. Dizia-se isto com tanta certeza, que algumas jovens e elegantes senhoras de Montreuil-sur-mer, foram um dia asua casa e disseram-lhe:

— Senhor maire, deixe-nos ver o seu quarto, todos dizem que parece uma gruta.

O maire sorriu e conduziu-as imediatamente à sua «gruta». Foram punidas pela sua curiosidade, porque viram simplesmente um quarto guarnecido de móveis, de acaju, feios como todos os móveis deste género e com as paredes forradas de papel de doze soldos. O que ali viram de mais notável foram dois cas çais de fei o muito an go, dispostos sobre a pedra do fogão e que pareciam ser de prata, porque nham a marca de contraste. Mas isto não obstou, todavia, a que se con nuasse a dizer que no quarto dele não entrava ninguém, porque era uma caverna de eremita, uma toca, um túmulo.

Segredava-se também que nha somas «enormes» depositadas na casa Laffite, com a par cularidade de que estava sempre à sua imediata disposição; de tal modo, acrescentavam, que o senhor Madelaine podia chegar num dia a casa daquele banqueiro, assinar um recibo e trazer consigo dois ou três milhões. A verdade era que aqueles dois ou três milhões, como já dissemos, reduzia-se a seiscentos e trinta ou a seiscentos e quarenta mil francos.

IV — O senhor Madelaine de luto Em princípios do ano de 1821, os jornais deram a no cia da morte de Monsenhor Myriel, bispo de Digne, apelidado de Monsenhor Bemvindo, oqual falecera com oitenta e dois anos, com reputação de san dade. O bispo de Digne, para acrescentar aqui um pormenor que os periódicos omi ram, quando morreu, havia muitos anos que estava cego, mas vivendo satisfeito com a sua cegueira, por ter a irmã junto de si.

Digamo-lo de passagem, ser cego e ser amado, é com efeito, neste mundo, onde nada é completo, uma das formas mais estranhamente esquisitas da felicidade. Ter de con nuo ao pé de si uma mulher, uma filha, uma irmã, um ser encantador, que está ali porque lhe é preciso, porque não pode passar sem ele, saber que é indispensável ao ente que lhe é necessário, poder incessantemente medir a sua afeição pelas horas que o tem na sua presença e dizer consigo: «Uma vez que me consagra todo o seu tempo é porque possuo todo o seu coração». Ver-lhe o pensamento, à falta de lhe poder ver o rosto, ter a certezada fidelidade de uma criatura no eclipse de um mundo, pressen r o

roçagar de um ves do, como se fosse um ruído de asas, ouvi-la falar, cantar, andar de um lado para outro e pensar que é o centro daquelas falas, daquele cantar, daqueles passos; manifestar a todos os instantes a sua própria atracção, sen r-se tanto mais poderoso quanto mais fraco é, e torna-se na escuridão e pela escuridão, o astro em torno do qual gravita aquele anjo; poucas felicidades há no mundo iguais a esta.

A suprema felicidade da vida é a convicção de que somos amados, mas amados por nós mesmos, ou antes, a despeito de nós mesmos; esta convicção tem-na o cego. No meio da sua desdita, ser servido é ser acariciado. Falta-lhe alguma coisa? Não. Quando se conserva o amor não se perde a luz. E que amor! Um amor inteiramente formado de virtudes. Não há cegueira onde exista certeza. A alma procura às apalpadelas a alma e encontra-a. E esta alma, que tem já passado por todas as provas, é uma mulher. Quando um cego sente a mão do seu guia, é a sua; os lábios que lhe tocam a fronte, sãos os seus lábios; a respiração que sente junto de si, pertence-lhe.

Receber dela tudo, desde o culto à compaixão, não ser nunca esquecido, ter sempre o socorro da sua doce fraqueza, apoiar-se num vime inabalável, tocar com as próprias mãos a Providência e poder tomá-la nos braços! Deus palpável! Que encanto! O coração, essa celeste flor obscura, entra então em misteriosa expansão. Ninguém trocaria uma tal sombra por toda a claridade! A alma anjo está sempre ali; se acaso se afasta é para voltar de novo; desvanece-se como o sonho e reaparece como a realidade.

É certa a sua presença, quando se sente a aproximação de um calor benéfico. O

coração transborda de serenidade, de alegria e de êxtase; e o cego torna-se um esplendor no meio da noite. E depois, mil cuidadozinhos, mil desvelos. Nadas que são enormes num tal vácuo como a cegueira.

Os mais inefáveis sons da voz feminina empregam-se em embalar o cego e suprem para ele o Universo desaparecido. O cego é acariciado pela alma. Não vê, mas sente-se adorado. A cegueira é um paraíso de sombras. Fora deste paraíso que Monsenhor Bemvindo passara para o outro.

No dia seguinte ao da no cia em que a sua morte foi reproduzida pelo jornal da localidade, o senhor Madelaine apresentou-se vestido de preto e com fumo no chapéu.

Aquele luto tornou-se reparado na cidade, rando daí cada um o tema para mais ou menos acertadas conjecturas.

— Este facto parecia vir deitar um raio de luz nas sombras em que se escondia a origem do senhor Madelaine. Concluiu-se daí que nha algumas relações de parentesco com o venerável bispo. «Anda de luto pelo bispo de Digne», dizia-se nos salões. Este facto realçou muito o senhor Madelaine, dando-lhe subitamente certa consideração entre a nobreza de Montreuil-sur-mer O microscópico bairro Saint-Germain da localidade, lembrou-se então de pôr fim à quarentena do senhor Madelaine, tornado parente provável dum bispo.