Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 337 de 359

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Os Miseráveis

III — Mário ataca

Além disto, à medida que se ia restabelecendo, reapareciam as an gas ofensas, reabriam-se as cicatrizadas úlceras da sua memória, ocorria-lhe de novo a lembrança do passado, colocava-se outra vez entre ele e Gillenormand o coronel Pontmercy, era para ele firme convicção que nenhuma bondade sincera nha a esperar de quem fora tão cruelmente injusto para com seu pai. E com a saúde voltava-lhe uma espécie de rispidez contra seu avô, que o pobre ancião pacientemente sofria.

Gillenormand, embora o não declarasse, reparava que Mário, desde que voltara a si, não tornara mais a tratá-lo por pai. Verdade é que não dizia «senhor», mas achava meio de se não expressar de um modo nem de outro, dando às frases diferente disposição.

Segundo todas as probabilidades, pois, aproximava-se uma crise.

Como quase sempre sucede, Mário antes de dar batalha campal, tentou uma simples escaramuça.

Chama-se a isto reconhecer o terreno.

Um dia, Gillenormand, a propósito de um jornal de que casualmente lançara mão, fez

algumas alusões à Convenção e soltou um epifonema realista contra Danton, Saint-Just e Robespierre.

— Os homens de 93 eram gigantes! — disse Mário com severidade.

O velho calou-se e não tornou a pronunciar palavra sobre tal assunto em todo aquele dia.

Mário, que nha sempre presente no espírito a inflexibilidade de seu avô nos seus primeiros anos, viu neste silêncio uma profunda concentração de cólera, de que agourou uma luta porfiada, e aumentou no recôndito do seu pensamento os prepara vos para o combate.

Resolveu que, no caso de uma recusa, arrancaria os aparelhos das feridas, deslocaria a clavícula, poria em carne viva as chagas que ainda lhe restavam e recusaria tomar qualquer alimento.

As suas feridas eram as suas munições. Ter Cosette ou morrer.

Firme nesta resolução, aguardou o ensejo oportuno com a dissimulada paciência dos doentes.

O ensejo não se fez esperar.

III — Mário ataca

Um dia, Gillenormand, andando sua filha ocupada a arrumar os frascos e garrafas que jaziam sobre a cómoda, inclinou-se para Mário e disse-lhe com a maior afabilidade:

— Olha, meu Mariozinho, eu, no teu lugar, comeria agora carne, em vez de peixe. Um linguado frito é uma excelente coisa no princípio de uma convalescença, mas para fazer arribar um doente não há como uma costeleta!

Mário, que já se achava quase de posse do seu primi vo vigor, fez um esforço para se sentar na cama, pousou os punhos trémulos na dobra do lençol, fitou seu avô com gesto terrível e disse:

— Faz-me isso lembrar que tenho uma coisa para lhe dizer!

— Que é?

— Quero casar!

— Disso já eu estava à espera! — exclamou o ancião, soltando uma gargalhada.

— Como, estava à espera?

— Disso estava eu à espera, repito! Descansa, que terás a tua rapariga!

Mário sentiu um estremecimento de pasmo por todo o corpo.

Gillenormand continuou:

— Afianço-te que terás a tua bela pequena, que, por sinal, vem aí todos os dias perguntar por , sob a forma de um velho.. Desde que estás doente, a pobre rapariga passa o tempo a chorar e a fazer fios! Procedi a algumas averiguações e soube que ela morava rua do Homem Armado, número 7. Com que então queres a moça? Pois sim, sim, tê-la-ás! É para que vejas. Tinhas lá delineado o teu plano e dito com os teus botões:

«Não quero saber de meias medidas. Vou dizer desempenadamente as coisas àquele pai velho, àquela múmia da Regência e do Directório, àquele taful das guerras velhas, que também tem culpas no cartório, e por isso há-de lembrar-se do tempo em que arrastava a asa às Cose es do seu conhecimento! Vamos a ver. Batalha! Nada de papas na

língua!» Muito bem. Ofereço-te uma costeleta e tu respondes-me: «A propósito, quero casar-me!» Não pode haver transição mais natural! Ora esta! Cuidavas talvez que me punha a fazer fino con go? Não sabes que sou um fracalhão? Que dizes a isto? Faço-te ir às do cabo, hem? Não contavas achar teu avô ainda mais tolo do que tu?! Agora lá se vai a diatribe que me nhas preparado, senhor advogado! É de fazer dar por paus e por pedras, não é? O mesmo, ira-te para aí à tua vontade. Faço o que tu queres, estou por tudo, pateta! Atende-me. Tenho andado a informar-me; não cuides que só tu tens lume no olho; a pequena é bonita, bem comportada; aquilo do lanceiro é peta, fez rumas de fios, é uma jóia, adora-te; se tu morresses, morríamos todos: três; o caixão dela iria logo atrás do meu! Quando te vi melhorar lembrei-me pespegaste com ela à cabeceira da cama, mas só nos romances é que se vêem, as raparigas velando os bonitos feridos que lhes deram no goto. Não era coisa que se fizesse. Que diria tua a? A maior parte do tempo passava-lo tu, meu toleirão, no estado em que vieste ao mundo! Pergunta a Nicole e, que te não desamparava um instante, se era possível estar uma mulher ao pé de ! E o médico? Que não havia de dizer o médico? Uma pequena bonita não cura a febre! Enfim, o que lá vai, lá vai; não falemos mais nisso, está dito, resolvido e assentado, casa! Aqui tens como eu sou feroz! Queres saber tudo? Como via que não gostavas de mim, disse comigo: «Que diabo hei-de eu fazer para este pedaço de asno gostar de mim?» Lembrei-me então de Cose e e disse: «Vou dar-lha. Deste modo ou há-de ganhar-me amizade ou há-de dizer as razões porque embirra comigo». E que tal?

Cuidavas que me ia pôr a vociferar, a fazer espalhafato, a ameaçar com a bengala toda esta aurora? Enganaste-te redondamente! Cose e? Pois sim. Amor? Porque não? Estou por tudo! Tenha a bondade de se casar. Sê feliz, meu querido filho!

Dito isto, o ancião desatou a soluçar.

E, tomando a cabeça de Mário entre as mãos, apertou-a contra o peito e puseram-se ambos a chorar.

É esta uma das formas da suprema ventura.

— Meu pai! — exclamou Mário.

— Oh! Visto isso, és meu amigo? — disse o velho.

Seguiu-se um momento inefável, durante o qual nem um nem outro podiam falar, sufocados pelo prazer.

Por fim, o ancião balbuciou:

— Ora até que, afinal, desembuchou, dizendo-me: «Meu pai!»

Mário desenvencilhou-se dos braços de Gillenormand e disse-lhe com brandura:

— Uma vez que eu agora já estou bom, parece-me que a poderia ver!

— Disso estava eu também à espera! Hás-de vê-la amanhã