Os Miseráveis
II — Alegrias preliminares
Não obstante, Courfeyrac e os seus amigos con nuaram a frequentar o estabelecimento
— por caridade — dizia Bossuet.
A a Hucheloup era esbaforida e disforme com recordações campestres. Tirava-lhes a insipidez com a pronúncia. Tinha um modo par cular de dizer as coisas, que temperava as suas reminiscências aldeãs.
A sala do primeiro andar do «restaurante» era uma casa grande e comprida atulhada de bancos, de cadeiras, de mochos, de mesas e de um bilhar velho e coxo. Subia-se para ali pela escada em espiral que terminava a um canto da sala, numa abertura quadrada, semelhante à escotilha de um navio.
Esta casa, que além da luz de um candeeiro aceso de dia e de noite, só recebia a claridade que lhe entrava por uma janela, nha o ar de um sótão. Os móveis de quatro pés comportavam-se todos como se vessem três. As paredes, caiadas, não nham por ornato senão este quarteto, em honra da tia Hucheloup, escrito a carvão numa delas: A dez passos espanta, a dois assusta,
Tal é de seu nariz o bom tamanho.
Não será maravilha se algum dia
Outro dilúvio houver, porém de ranho.
A a Hucheloup, muito bem descrita pelo quarteto, passava desde manhã até à noite por diante dele com a mais perfeita tranquilidade. Duas criadas chamadas Matelote e Gibelo e, às quais nunca se conhecera outros nomes, ajudavam a a Hucheloup a pôr sobre as mesas os canjirões de vinho e as variadas chanfanas que eram servidas aos famintos em gelas de barro. Matelote, grossa, roliça, ruiva e berradora, an ga sultana favorita do defunto Hucheloup, era mais feia do que qualquer monstro mitológico; contudo, como é bem que a criada se conserve sempre atrás da ama, era menos feia do que a a Hucheloup. Gibelo e, alta, delicada, clara, mas de uma alvura linfá ca, os olhos quase fechados, as pálpebras descidas, sempre exausta e acabrunhada, padecendo do que se poderia chamar cansaço crónico, sendo a primeira que se levantava e a úl ma que se deitava, servia toda a gente, incluindo a outra criada, silenciosa e com agrado, sorrindo sob a fadiga com uma espécie de vago sorriso adormecido.
Antes de Se entrar na sala do «restaurante» lia-se por cima da porta este verso, escrito a giz por Courfeyrac:
Regala-te, se podes; come, se tens ânimo.
II — Alegrias preliminares
Laigle de Meaux, como é sabido, preferia a habitação de Joly a qualquer outra residência. Laigle de Meaux era como os pássaros, aos quais qualquer ramo de árvore serve de morada. Os dois amigos, pois, viviam juntos, comiam juntos, dormiam juntos; tudo entre ambos era comum, mesmo Musicheta, até certo ponto. Eram o que os frades capuchinhos denominam bini. Na manhã do dia 5 de Junho foram almoçar ambos a Corinto. Joly nha o nariz entupido, porquanto nha sido acome do de um forte defluxo, que Laigle de Meaux principiava a par lhar. Laigle trajava um casaco desbotado; Joly, porém, ia apuradamente vestido.
Eram quase nove horas da manhã, quando os dois amigos transpuseram o limiar da porta do célebre restaurante e subiram ao primeiro andar, onde foram recebidos por Matelote e Gibelotte.
— Fiambre, queijo e ostras — disse Laigle, e procuraram assento junto a uma das
mesas.
A sala estava completamente deserta. Eram os dois amigos os únicos convivas do estabelecimento.
Gibelotte, reconhecendo Joly e Laigle, pôs logo na mesa uma garrafa de vinho.
Quando estavam saboreando as primeiras ostras, viram aparecer uma cabeça na escotilha da escada e ouviram uma voz, dizendo:
— Ia passando, mas fui atacado na rua por um cheiro de queijo de Brie tão delicioso, que não pude resistir à tentação.
Era Grantaire, que logo pegou num mocho e se chegou para a mesa.
Gibelotte, vendo Grantaire, trouxe mais duas garrafas de vinho.
Ficaram sendo três.
— Fazes então tenção de despejar essas duas garrafas? — perguntou Laigle a Grantaire.
Grantaire respondeu:
— Engenhosos são todos, mas ingénuo és só tu. Duas garrafas de vinho nunca causaram espanto a homem nenhum.
Os outros nham começado por comer, Grantaire começou por beber. Meia garrafa foi rapidamente despejada.
— Tens algum buraco no estômago? — tornou Laigle.
— Também tu tens um, mas é no cotovelo — disse Grantaire.
E depois de ter despejado o copo, acrescentou:
— Laigle das orações fúnebres, tens uma casaca muito velha!
— É por isso que me dou muito bem com ela. Acomoda-se a todas as minhas rugas, não me incomoda em coisa nenhuma, ajeita-se às minhas disformidades, é condescendente com todos os meus movimentos; não a sinto senão porque me aquece.
O fato velho é como os velhos amigos.
— Isso é que não tem dúvida! — exclamou Joly, intervindo no diálogo. — Um casaco velho é um abrigo velho.
— Especialmente na boca dum homem que tenha o nariz entupido! — respondeu Grantaire.
— Vens do boulevard, Grantaire? — perguntou Laigle.
— Não.
— Eu e o Joly vimos há pouco passar a frente do cortejo.
— É um espectáculo baravilhoso! — disse Joly, trocando os mm em bb, por causa do seu defluxo.
— Que tranquila é esta rua! — exclamou Laigle. — Quem suspeitaria aqui do tumulto que vai por Paris? Como se conhece ter sido isto por aqui cheio de conventos noutro tempo! Du Breuil e Sauval dão a lista deles, assim como o abade Leboeuf. Não havia outra coisa em todo este sí o; frades calçados, descalços, tonsurados, barbadinhos, pardos, pretos, brancos, franciscanos, mínimos, capuchos, carmelitas, agos nhos maiores, agostinhos menores, velhos agostinhos... enfim, era um nunca acabar!
— Não falemos em frades — disse Grantaire — é uma coisa que faz comichão.
E em seguida exclamou:
— Puf! Engoli agora uma ostra que não prestava para nada! Aí está a hipocondria outra vez de volta comigo. As ostras estão podres e as criadas feias como não sei que diga! Meus amigos, eu odeio a espécie humana! Passei agora pela rua Richelieu e olhei com náusea para a enorme livraria pública. Aquele monte de cascas de ostras chamado biblioteca ra-me mesmo a vontade de pensar. O que ali vai de papel, de nta, de garatujas! Escreveu-se tudo aquilo! E, não obstante isto, qual foi o maroto que disse que o homem era um bípede sem penas? Ainda para mais, encontro-me com uma linda rapariga do meu conhecimento, bela como a Primavera, digna de se chamar Floreai, extasiada, transportada, jubilosa, alegre, louca de prazer, a miserável, porque um torpe banqueiro, com a cara cheia de buracos de bexigas, se dignou ontem fazer-lhe fosquinhas! A mulher é assim. Tanto ameiga o merceeiro como o narciso perfumado! São como as gatas, que tanto caçam ratos como pássaros! Ainda não há dois meses que ela vivia honestamente, numa água-furtada, de pregar ilhoses em espar lhos; vocês sabem como isto se chama? Vivia da costura, que é o caso; dormia numa barra de pinho, trabalhava sempre com um vaso de flores ao pé de si, vivia sa sfeita. Agora aí a têm banqueira! Operou-se esta noite essa transformação e hoje pela manhã encontrei a ví ma muito alegre da sua vida! O que é pouca vergonha é que a brejeira tão bonita era ontem como hoje. Não se lhe conhecia o tratante do banqueiro na cara! As rosas têm de mais ou de menos que as mulheres conhecer-se-lhe o rasto das lagartas. Santo Deus! A moral é coisa que neste mundo não existe! Senão, sirva de prova o mirto, símbolo de amor, o loureiro, símbolo da guerra, a oliveira, essa coisa tão estúpida, símbolo da paz, a macieira, que por um triz não esganava Adão com a pevide, e a figueira, a avó das saias.
Quanto ao direito, querem vocês saber o que é o direito? Os Gauleses cobiçam Clusa, Roma protege-a e pergunta-lhes que mal lhes fez Clusa. Brenno responde: «O mesmo que vos fez Alba, o mesmo que vos fez Fidena, que vos fizeram os Equos, os Volscos e os Sabinos. Eram vossos vizinhos. Os Clusenses estão para nós na mesma razão.
Entendemos a vizinhança como vós. Vós roubastes Alba, nós tomamos Clusa». Roma disse: «Pois não haveis de tomar Clusa». Mas foi Brenno e tomou Roma. E depois gritou:
«Vae victis». Aqui tendes. O direito é isto. Ah, o que por esse mundo não vai de aves de rapina! Quase tudo são águias! Tantas, que tenho medo delas!
O rapaz estendeu o copo a Joly, que lho encheu, e prosseguiu, depois de o despejar, quase sem se interromper com este copo de vinho, de que ninguém deu fé, nem ele mesmo:
— Brenno, tomando Roma, é uma águia; o banqueiro, tomando a costureira, é uma águia. Tanta vergonha se dá num como noutro. Portanto, não acreditemos em nada. A única realidade é — beber. Seja qual for a vossa opinião, ou sejais pelo galo gaulês como o cantão de Uri ou pelo galo godo como o cantão de Claris, isso pouco importa, o caso é beber! É verdade, vocês falaram-me há bocado no boulevard, no prés to, etc. Com que então temos mais outra revolução? Realmente, é para espantar esta indigência de meios da parte de Deus. Não sei que diabo é isto, que é preciso que ele esteja a todo o instante a untar os eixos dos acontecimentos! Porque isto não anda; porque as
dobradiças estão perras... Já, já uma revolução! Deus já há-de andar com as mãos pretas de estar sempre a lubrificar a máquina! Eu, no lugar dele, não estava lá com meias medidas nem me punha com vagares a concertar o casco para a humanidade fazer a sua viagem; levava o género humano de um encontrão só, urdia os acontecimentos malha por malha, sem quebrar o fio, e não me punha com composturas, com expedientes provisórios, nem admi a repertório extraordinário. Isso que vocês chamam progresso é tocado por dois motores, os homens e os acontecimentos. Porém, triste coisa! De tempos a tempos, torna-se necessário o excepcional. Nem os homens nem os acontecimentos se dão às vezes por sa sfeitos com a companhia ordinária, e então é necessário que entre os homens apareçam génios, e entre os acontecimentos se dêem revoluções. São de lei os grandes desastres, e tanto que nem a ordem social os pode dispensar. Para bem dizer, à vista das aparições dos cometas, quase estou em acreditar que até mesmo o céu tem necessidade de actores para as suas representações. No momento em que a gente menos o espera, zás! pega Deus num meteoro, espeta-me com ele na parede do firmamento, e ali aparece uma estrela esquisita, sublinhada por uma enorme cauda, que faz morrer César. Bruto dá-lhe uma punhalada, Deus uma cometada.
Não lhes digo nada; anda a gente muito descansada da sua vida, zás!, uma aurora boreal, uma revolução, um grande homem; 93 em grandes letras, Napoleão de sen nela, o cometa de 1811 no cimo do cartaz. Ai, meu belo cartaz azul, todo marchetado de inesperados fulgores! Bum! Bum!, espectáculo extraordinário. Levantai a cabeça, papalvos. É tudo desgrenhado, tanto o astro como o drama. Deus das alturas, é de mais, e não é bastante. Estes recursos, rados da excepção, parecem magnificência e são pobreza. Meus amigos, a Providência acha-se reduzido a lançar mão de expedientes.
Uma revolução! Isso que prova? Que Deus se vê em apuros. Dá um golpe de Estado, por que há solução de con nuidade entre o presente e o futuro, e porque ele apesar de ser Deus, não pode chegar a unir as duas pontas. Na verdade, esta circunstância acaba de me confirmar nas minhas conjecturas sobre a situação de fortuna de Jeová, e a julgar por tantas pobrezas que já vão lá em cima e cá em baixo, à vista de tanta mesquinhez e penúria, de tanta inópia e falta de meios, assim na terra como no céu, desde a ave que não tem um grão de painço até eu que não tenho cem mil libras de renda, à vista do des no humano, que está bastante roçado, e até do des no real, que mostra o fio haja vista ao príncipe de Conde enforcado à face do Inverno, que não é mais do que um rasgão no zénite por onde sopra o vento, a julgar pelo sem-número de remendos que se vêem em tudo, mesmo na púrpura toda nova da manhã no alto das colinas, a julgar pelas gotas do orvalho, que são outras tantas pérolas falsas, a julgar pela geada, que é um diamante fingido, a julgar pela humanidade descosida e pelos acontecimentos já ba dos, à vista de tantas manchas no Sol, de tantos buracos na Lua, à vista de tanta miséria em tudo, desconfio que Deus não está lá muito rico. Há aparência, é verdade, mas conhece-se a pobreza que se esconde. Ele dá uma revolução, como o negociante, cujo cofre se acha vazio, dá um baile. Ninguém julgue dos deuses pelas aparências.
Entrevejo por baixo das douraduras do céu um universo pobre. A criação ressente-se de bancarrota. É por isso que não estou sa sfeito. Ora vejam vocês; estamos a 5 de Junho e
é quase noite escura; desde pela manhã que estou à espera do dia, e ele não acaba de chegar nem, estou capaz de apostar, chegará hoje. É uma falta de pontualidade, própria de caixeiro que não anda bem pago. É como lhes digo. Anda tudo fora do eixo, não há uma só coisa que diga com outra, acha-se tudo empenado. Sabem vocês que mais?
Passo-me para a oposição. Anda tudo como Deus é servido; está um universo bom para dar cabo da paciência à gente. É como com os filhos; os que os desejam, não os têm, os que os não desejam, vêem-se cobertos deles. Em suma: tenho a paciência ralada, que é o que vos sei dizer. Ainda para maior zanga, aqui está Laigle de Meaux que nem ele sabe o ferro que me mete com a sua calva. Humilha-me só a lembrança de que sou da mesma idade que este joelho, porque tu hás-de saber, meu caro Laigle das elegias sagradas, a tua calva, e a calva de todos os calvos, parece um joelho. Contudo, seja dito em abono da verdade, eu cri co, mas não insulto. O universo é aquilo que é. Se falo, é sem má intenção e só para descargo da minha consciência. Recebei, Padre Eterno, os protestos da minha dis nta consideração. Oh, por todos os santos do Olimpo e por todos os deuses do Paraíso, eu não nasci para parisiense, quero dizer, para andar sempre, como um volante entre duas baquetas, do grupo dos tafues para o grupo dos trocistas! Eu nasci para turco, para estar um dia inteiro a ver executar por sílfides orientais as delicadas danças egípcias, lúbricas como os sonhos de um homem casto; eu nasci para camponês beaucense, ou para fidalgo veneziano, rodeado de damas gen s, ou principezinho alemão, contribuindo com metade de um soldado para a confederação germânica, e ocupando as minhas horas de ócio a enxugar os coturnos na minha sebe, isto é, na minha fronteira! Eis os des nos para que eu nasci! Turco, disse eu, e não me desdigo. Não sei porque razão quase sempre se toma a palavra turco em mau sen do; Maomé tem coisas boas; respeito ao inventor dos serralhos de houris e dos paraísos de odaliscas! Não insultemos o maome smo, a única religião que tem por ornamento um galinheiro. A vista disto beberei mais. A terra é uma tolice chapada. E, segundo parece, esses patetas vão bater-se uns contra os outros, esmurrarem as ventas, fazerem-se em postas, no pino do Verão, no mês de Junho, quando, em lugar disso, podiam ir com uma ninfa a reboque pelo braço, aspirar ao campo a imensa chávena de chá dos trigos ceifados. Realmente, ninguém vê senão tolices! Vi há bocado em casa de um adeleiro uma lanterna velha e quebrada, que me sugere uma reflexão. Julgo que já é tempo de esclarecer o género humano. Mas aí vem outra vez a tristeza tomar posse de mim! Vejam o que faz engolir a gente uma ostra e uma revolução à sobreposse! Aí estou eu lúgubre!
Oh, velho mundo, velho mundo! És o vaso torpe da desmoralização, da privação, da prostituição, da ambição, da inaptidão!
E Grantaire, após este ímpeto de eloquência, teve um ímpeto de tosse, merecido!
— A propósito de revolução — disse Joly — creio que sempre é certo o Mário estar enamorado.
— Sabe-se por quem? — perguntou Laigle.
— Não.
— Não?!
— Já te disse que não.
— Os amores de Mário! — exclamou Grantaire. — Estou a vê-los daqui. Mário é um nevoeiro que achou talvez uma nebulosa. Mário é de raça poé ca. Quem diz poeta, diz doido. «Thymbroeus Apollo». Mário e a sua Maria, ou a sua Marie e, ou a sua Marion; não devem ser feios os tais amores. Eu percebo bem a coisa: são tudo êxtases em que o beijo é completamente esquecido. São castos na terra, mas desposam-se no infinito. São duas almas que têm sentidos. Dormem juntas no meio das estrelas.
Grantaire ia a encetar a sua segunda garrafa e talvez a sua segunda arenga, quando surgiu da abertura quadrada da escada um novo ente. Era um rapazito de menos de dez anos, esfarrapado, amarelo, com a boca em forma de focinho, olho vivo, cabelos muito crescidos, todo encharcado pela chuva, e com ar satisfeito.
O rapazito, escolhendo sem hesitar entre os três, conquanto não conhecesse evidentemente nenhum, dirigiu-se a Laigle de Meaux.
— O senhor é que é o senhor Bossuet? — perguntou ele.
— Sou — respondeu Laigle — que me queres?
— Eu lhe digo. No boulevard, um sujeito loiro disse-me: Conheces a a Hucheloup?
Conheço, disse eu, na rua da Chanvrerie, a viúva do velho. Ele então con nuou: Vai lá, procura o senhor Bossuet e diz-lhe da minha parte A. B. C. Isto é troça, não é verdade?
E deu-me dez soldos.
— Joly, empresta cá dez soldos — disse Laigle, e voltando-se para Grantaire, acrescentou: — Grantaire, empresta-me dez soldos.
E, juntando os vinte soldos, deu-os ao rapazito.
— Muito obrigado — disse ele.
— Como te chamas? — perguntou-lhe Laigle.
— Chamo-me Navet, sou amigo de Gavroche.
— Fica connosco — disse Laigle.
— Almoça com a gente — acrescentou Grantaire.
— Não posso — retorquiu o pequeno — sou do cortejo; eu é que grito abaixo Polignac.
E, recuando muito um dos pés, que é o mais respeitoso dos cumprimentos possíveis, foi-se embora.
Depois do rapaz sair, Grantaire tomou a palavra.
— Aquilo é o gaiato puro. Há muitas variedades no género. O gaiato escrivão chama-se salta-pocinhas, o gaiato cozinheiro chama-se bicho, o gaiato padeiro chama-se moço, o gaiato lacaio chama-se groom, o gaiato marinheiro chama-se pirralho, o gaiato soldado chama-se dançante, o gaiato negociante chama-se paquete, o gaiato cortesão chama-se moço fidalgo, o gaiato rei chama-se delfim e o gaiato deus chama-se menino.
Entretanto, Laigle, que estava meditando, disse a meia voz:
— A. B. C., quer dizer: Enterro de Lamarque.
— O sujeito loiro — observou Grantaire — foi o Enjolras, que te mandou avisar.
— Vamos? — disse Bossuet.
— Está a chover — disse Joly. — Eu jurei ir ao fogo e não à água. Não quero cons parme.
— Eu fico aqui — retorquiu Grantaire. — Prefiro um almoço a um coche de enterro.
— Em conclusão — tornou Laigle — não vamos. Mas, toca a beber. E depois, pode-se faltar ao enterro sem faltar à revolta.
— A revolta não! — exclamou Joly.
Laigle esfregou as mãos:
-Vai ser retocada a revolução de 1830. Precisa-o bem; está apertada nas cavas, prende os movimentos do povo.
— Para mim é quase indiferente a sua revolução — disse Grantaire. — Não aborreço este governo. É a coroa equilibrada pelo barrete de algodão. É um ceptro terminado em chapéu de chuva. Com efeito, hoje não me nha lembrado disto — com este tempo poderá Luís Filipe tirar proveito dos dois extremos da sua realeza, estender o extremo do ceptro contra o povo e abrir o extremo chapéu de chuva contra o céu.
A casa escurecera; a claridade acabava de ser suprimida por espessas nuvens. Não estava uma só pessoa na taberna nem na rua; toda a gente nha ido «ver os acontecimentos».
— É meio-dia ou meia-noite? — gritou Bossuet. — Não se vê nada, Gibelotte, luz!
Grantaire, triste, bebia.
— Enjolras despreza-me — murmurou ele. — Enjolras disse consigo. — Joly está doente e Grantaire bêbado, e, portanto, mandou o recado a Bossuet. Se ele viesse buscar-me, segui-lo-ia. O mal é para ele! Não vou ao enterro.
Adoptada esta resolução, Bossuet, Joly e Grantaire, não se moveram da taberna. Às duas horas da tarde estava a mesa a que se nham sentado coberta de garrafas vazias.
Estavam também ali duas velas acesas, uma me da numa palmatória de latão perfeitamente verde, a outra no gargalo de uma garrafa rachada. Grantaire arrastara Joly e Bossuet para o vinho, Bossuet e Joly tinham reconduzido Grantaire para a alegria.
Quanto a Grantaire, depois do meio-dia ultrapassara o vinho, medíocre fonte de sonhos. O vinho, para os bêbados sérios, não tem senão um êxito de es ma. Na ebriedade há a magia preta e a magia branca. Grantaire era um aventuroso bebedor de sonhos. A negrura dá uma embriaguez temível, entreaberta diante dele, em vez de o fazer parar, atraía-o. Deixara de parte as garrafas e lançara mão da caneca. A medida é o abismo. Não tendo ali à mão ópio, nem haxixe, e querendo preencher o cérebro de crepúsculo, recorrera à medonha mistura de aguardente, de cerveja e de absinto, que produz tão terríveis letargos. É dos três vapores, cerveja, aguardente, absinto, que se compõe o chumbo da alma. São três trevas; a borboleta celeste afoga-se nelas; e formam-se ali, num fumo membranoso vagamente condensado em asa de morcego, três fúrias mudas; o Pesadelo, a Noite, a Morte, esvoaçando por sobre psiché adormecida.