Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 254 de 359

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Os Miseráveis

V — Coisas da noite

Ma jambe bien faite

Et le temps perdu.

Tinha a face encostada à mão e o cotovelo fincado no joelho, balançando o pé com ar de indiferença. Pelos buracos do ves do viam-se as magras clavículas. O lampião próximo iluminava-lhe o vulto. Não se poderia imaginar a tude mais resoluta nem mais surpreendente.

Os seis escarpas, interditos e confusos, vendo-se assim ludibriados por uma rapariga, afastaram-se para o lado onde não dava a luz do lampião e formaram conselho, erguendo os ombros, humilhados e ferozes.

A rapariga entretanto olhava para eles com ar sereno e severo.

— Ela tem alguma coisa — disse Babet. — Tem por força uma razão... Estará

enamorada do cão? É uma pena que isto falhe. Duas mulheres e um velho que dorme no quarto do pá o traseiro! O velho deve ser mesmo um guinai (Um Judeu). A empresa parece-me de truz.

— Pois então entrem vocês — disse Montparnasse — façam a coisa, que eu ficarei com a rapariga; e se ela chiar...

E fez luzir com o reflexo do lampião a navalha que tinha na mão, oculta na manga.

Thenardier não dizia coisa nenhuma; parecia estar por tudo.

Brujon, que passava por entendido e que nha sido o autor daquela tenta va de assalto, ainda não nha falado e parecia pensa vo. Era do entre os bandidos por homem destemido, a ponto de, por mera bazófia, se abalançar uma vez a roubar um posto da guarda. Além disto fazia versos e canções, o que lhe dava grande autoridade.

— Não dizes nada, Brujon? — perguntou-lhe Babet.

Brujon conservou-se ainda um instante silencioso, depois meneou a cabeça de modos variados, e decidiu-se enfim a erguer a voz:

— Olhem: esta manhã vi dois pardais à briga; agora esbarro com uma mulher a gritar.

Isto é mau. Vamo-nos embora.

E afastaram-se.

Montparnasse murmurou:

— É a mesma coisa: mas se quisessem, daria eu a unhada.

Babet não respondeu:

— Eu não; não toco numa dama.

A esquina da rua pararam e trocaram, em voz surda este diálogo enigmático:

— Onde devemos de ir ficar esta noite?

— Debaixo de Pantin . 51

— Tens a chave da grade, Thenardier?

— Tenho.

Eponina, que não os perdia de vista, viu-os seguir pelo caminho por onde nham vindo. Levantou-se e foi-se arrastando de gatas atrás deles, sempre encostada aos muros e casas. Seguiu-os assim até ao boulevard. Ali viu os seis homens separarem-se e internarem-se na escuridão, com a qual pareciam confundir-se.

V — Coisas da noite

Depois dos ladrões se afastarem, a rua Plumet voltou ao seu tranquilo aspecto nocturno.