Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 136 de 359

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Os Miseráveis

II — Fauchelevent na presença da dificuldade

Não ser escutado não é mo vo para qualquer se calar. O honrado jardineiro continuava, pois, sossegadamente a sua ladainha.

— O lugar onde as enterram é no cemitério de Vaugirard. Dizem que vão suprimir o tal cemitério de Vaugirard. É um cemitério an go, fora dos regulamentos e sem uniforme, que vai ser aposentado. É pena, porque era cómodo. O coveiro de lá, o senhor Mes enne, é um amigo meu. Cá as freiras têm o privilégio de serem levadas para o tal cemitério ao fechar da noite. Há uma ordem expressa da prefeitura que lhes concede isso. Mas que infinidade de coisas acontecidas desde ontem para cá! A madre Crucificação morta, o senhor Madelaine...

— Enterrado! — atalhou Jean Valjean tristemente.

Fauchelevent mudou o sentido a estas palavras:

— Ora essa! Se es vesse aqui de todo, então, sim, então podia dizer que estava

enterrado.

Soou novo toque. Fauchelevent rou rapidamente do prego a joelheira do chocalho e atou-a ao joelho.

— Agora é por mim. É a madre prioresa que quer falar comigo. Mau, que me piquei nos dentes da fivela! Senhor Madelaine, espere aqui por mim, mas não se mexa.

Nós temos novidade. Se tiver vontade de comer, acolá está o vinho, o pão e o queijo.

E saiu da casinhola gritando:

— Eu lá vou, eu lá vou!

Jean Valjean viu-o deitar a correr pelo jardim com a maior rapidez que a sua perna coxa lhe permi a e lançando de passagem um olhar para o seu meloal. Daí a menos de dez minutos, o senhor Fauchelevent, cujo chocalho afugentava as religiosas por onde ele passava, ba a ao de leve a uma porta e uma voz agradável respondia: Para sempre, Para sempre, o que queria dizer: Pode entrar.

A porta a que ele ba a era a do locutório reservado ao jardineiro para as necessidades do serviço. Este locutório ficava con guo à sala do capítulo. Sentada na única cadeira que havia no locutório, estava a prioresa à sua espera.

II — Fauchelevent na presença da dificuldade

É próprio de certos caracteres e de certas profissões, principalmente dos padres e dos religiosos, ter um ar agitado e grave nas circunstâncias crí cas. Na ocasião em que Fauchelevent entrou, via-se esta dupla forma da preocupação no rosto da prioresa, que era a agradável e instruída Mademoiselle de Blemeur, madre Inocência, de ordinário tão jovial.

O jardineiro fez uma saudação receosa e ficou no limiar da cela. A prioresa, que estava passando uma a uma as contas do seu rosário, ao dar por ele, ergueu a cabeça e disse:

— Ah! É você, senhor Fauvent.

No convento tinha sido adoptada esta abreviatura.

Fauchelevent fez nova saudação.

— Eu mandei-o chamar, senhor Fauvent...

— Aqui estou, reverenda Madre.

— Porque tenho que lhe dizer.

— E eu — disse Fauchelevent com uma audácia de que ele interiormente nha medo

— também tenho uma coisa para dizer a vossa reverendíssima.