Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 341 de 359

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Os Miseráveis

VII — Efeitos de sonho no meio da ventura

A a Gillenormand contemplava tudo isto com a sua imperturbável placidez ordinária.

Havia cinco ou seis meses que ela passava por sucessivos abalos; a volta de Mário, o estado em que ele chegara, o perigo que correra, a sua convalescença, a sua reconciliação com o avô, querendo casar com uma pobre, casando depois com uma milionária, tudo isto a deixara profundamente impressionada. A sua úl ma surpresa foram os seiscentos mil francos. Depois disto, voltara à sua primi va indiferença. Ia regularmente à missa, rezava as suas contas, lia o seu eucológio, sentava-se a um canto a murmurar Ave-Marias, enquanto Mário e Cose e, que ela entrevia vagamente como duas sombras, murmuravam um ao outro os seus I love you. Ela, porém, é que era a sombra.

Há um certo estado de asce smo inerte, em que a alma, neutralizada pelo torpor, estranha a tudo o que diz respeito à vida, não sente, à excepção dos tremores de terra e das catástrofes, nenhuma das impressões humanas, seja aprazível ou desagradável.

— Esta devoção — dizia Gillenormand a sua filha — é um como defluxo moral. Para não tem cheiro a vida, nem bom nem mau!

Os seiscentos mil francos, porém, nham posto termo às suas indecisões. Seu pai fazia já por costume tão pouco caso dela, que não a consultara nem lhe pedira o seu

consentimento para o casamento de Mário.

Déspota transformado em escravo, obedecera logo, segundo o seu costume, ao primeiro movimento sa sfazer Mário. Quanto à a, nem sequer lhe lembrara que ela exis a e que devia ser consultada, procedimento que ela, apesar dos seus hábitos, não pôde levar a bem.

Realmente agastada no seu foro ín mo, mas exteriormente impassível, dissera consigo:

— Meu pai resolveu a questão do casamento sem me consultar; eu resolverei a questão da herança sem o consultar a ele!

Ela era rica, efec vamente, e seu pai não o era. Por conseguinte, reservara a sua decisão a este respeito.

Se o casamento fosse pobre, pobre o deixaria, provavelmente.

— Mal do senhor meu sobrinho! Casou com uma pobretona, seja pobretão!

O meio milhão de Cose e, porém, agradou à a e mudou a situação interior com relação aos noivos.

Seiscentos mil francos é uma soma digna de respeito, e era evidente que o seu dever era deixar a sua fortuna àqueles jovens, visto que não precisavam dela.

Combinou-se que o jovem par ficaria em casa do avô. O senhor Gillenormand quis absolutamente ceder-lhe o seu quarto, que era de todos o melhor.

— Remoçarei com isso! — declarava ele. — É um projecto an go! Sempre ve tenção de fazer do meu quarto uma câmara nupcial.

Em vista desta resolução, mandou mobilar o quarto com um sem número de galantes an qualhas e forrá-lo de uma fazenda que ele nha em peça, e que julgava ser veludo de Utrecht.

— Era desta fazenda — dizia ele — o cor nado da cama da duquesa de Anville em Roche-Guyon.

Sobre a pedra do fogão pôs uma figura de Saxe, coberta apenas por um cendal.

A biblioteca de Gillenormand foi arvorada em gabinete de advogado, de que Mário carecia, visto que os estatutos exigiam que todo o advogado tivesse o seu gabinete.

VII — Efeitos de sonho no meio da ventura

Desde esse dia em diante, Cosette e Mário continuaram a ver-se todos os dias.

— Ora vejam como as coisas andam direitas! — dizia a filha de Gillenormand. — A noiva é que vem a casa do noivo fazer-lhe a corte!

A convalescença de Mário, porém, assim o tornara necessário, e o que a princípio fora necessidade, convertera-se, por fim, em hábito. Mário e Fauchelevent viam-se, mas não trocavam entre si a menor palavra, como se assim o vessem convencionado. Cose e não podia vir sem ser acompanhada por Fauchelevent. Para Mário, Fauchelevent era a condição de Cose e, e por isso resignava-se. Às vezes discu am sobre matérias polí cas, debaixo do ponto de vista do melhoramento geral da sorte de todos, porém nessas discussões pouco mais chegavam a dizer-se do que «sim» ou «não».

Uma ocasião, falando-se do ensino, que Mário queria gratuito e obrigatório, mul plicado sob todas as formas, prodigalizado a todos, como o sol e o ar, numa

palavra, respirável ao povo todo, acharam-se de acordo e quase conversaram.

Por essa ocasião, notou Mário que Fauchelevent se exprimia bem e até com certa elevação de linguagem. Contudo, faltava-lhe o quer que fosse. Fauchelevent nha mais e menos alguma coisa do que um homem de boa sociedade.

Interiormente e no fundo do seu pensamento, Mário fazia a si próprio mil perguntas acerca daquele senhor Fauchelevent, que para com ele era simplesmente benévolo e frio. Às vezes como que duvidava das suas próprias reminiscências. Tinha na memória uma cova, um ponto negro, um abismo cavado por quatro meses de agonia; abismo em que se havia sumido uma infinidade de coisas, chegando a perguntar a si mesmo se, realmente, nha visto na barricada Fauchelevent, aquele homem de aspecto tão grave e sereno.

Não era este, porém, o único torpor que as aparições e as desaparições do passado lhe nham causado no espírito. Não se julgue que Mário se achava livre de todas essas importunações da memória que nos forçam, mesmo felizes, mesmo sa sfeitos, a olhar melancolicamente para trás. A cabeça que se não volta para os horizontes sumidos não contém pensamento nem amor.

Às vezes, Mário apoiava a cabeça nas mãos e o passado atravessava-lhe tumultuoso o crepúsculo que ele nha no cérebro. Via cair Mabeuf, ouvia cantar Gavroche, sen a nos lábios a gelidez da fronte de Eponina; via surgir e depois sumir-se Enjolras, Courfeyrac, Jean Prouvaire, Combeferre, Bossuet, Grantaire, todos os seus amigos.

Todos estes entes queridos, dolorosos, valentes, formosos ou trágicos, seriam sonhos ou teriam, com efeito, existido?

O fumo da revolta arrastara tudo consigo. Os sonhos destas febres são grandes como elas.

Interrogava-se, apalpava-se; acome a-o a ver gem de todas estas realidades desvanecidas.

Mas então onde estavam eles todos?

Realmente haviam morrido? Pois todos se nham sumido nas trevas, só ele não? Pois todos tinham desaparecido como por trás de um pano de teatro?

Sim.