Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 354 de 359

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Os Miseráveis

I — Compaixão para os desgraçados, mas indulgência para os felizes

I — Compaixão para os desgraçados, mas indulgência para os felizes Terrível coisa a felicidade! Nada mais nos lembra, tudo para nós consiste no gozo dela! Apenas alcançado o falso fim da vida — a ventura — logo nos esquece o verdadeiro — o dever!

Injustos seríamos, porém, se acusássemos Mário.

Mário, já o explicámos, antes do seu casamento não nha dirigido perguntas ao senhor Fauchelevent, e depois dele, receava fazê-las a Jean Valjean. Contudo, arrependera-se de ter deixado escapar a promessa que lhe fizera, exprobrando-se amargamente de ter feito semelhante concessão ao desespero, no que andara mal.

Limitara-se a afastar Jean Valjean, pouco a pouco, de sua casa e a tornar cada vez menos sensível a sua imagem no espírito de Cose e. Interpusera-se sempre, para assim dizer, entre Cose e e Jean Valjean, convencido de que, por este meio, chegaria a tornar-lho indiferente e até a fazer-lho esquecer.

Era mais do que esquecimento, era eclipse.

Mário julgava necessário e justo o que fazia. Parecia-lhe que nha para afastar Jean Valjean, sem dureza, mas também sem fraqueza, razões Sérias, que já se apreciaram e ainda outras que mais tarde se apreciarão. Tendo-lhe o acaso, proporcionado ensejo de tratar com um an go caixeiro da casa Laffite, por causa de uma questão de que fora advogado, veio a obter, sem os procurar, misteriosos esclarecimentos, que não pudera, todavia, esmiuçar, já para não trair o segredo que, sob palavra de o não revelar, lhe fora confiado, já para não comprometer a arriscada posição de Jean Valjean. Naquela ocasião, era sua convicção que nha a cumprir um grande dever: a res tuição dos seiscentos mil francos do dote de Cose e a alguém, que procurava descobrir, procedendo nesse empenho com a maior circunspecção que o caso demandava.

Quanto a Cose e, a inocente jovem não sabia de nenhum destes segredos, mas também seria injustiça condená-la.