Os Miseráveis
VI — Capítulo consagrado ao amor
gente perigosa. Enfim, é canalha inofensiva».
Os prefeitos da polícia não julgam possível que um gato se transforme em leão; todavia, é este o milagre do povo de Paris. Além disso, o gato, tão desprezado pelo conde de Anglès, nha a es ma das repúblicas an gas; incarnava a seus olhos a liberdade, e, como para servir de confronto com a Minerva sem braços do Pireu, havia na praça pública de Corinto o colosso de bronze de um gato.
A ingénua polícia da Restauração encarava o povo de Paris por um lado muito favorável. Não é tão inofensiva canalha como parece. O parisiense é para o francês o que o ateniense é para o grego; ninguém dorme melhor; ninguém é mais francamente frívolo e preguiçoso; ninguém melhor do que ele dá mostras de ser esquecido; porém, não se fiem nas aparências. É propenso a toda a espécie de indolência, mas quando daí pode resultar glória, é incrível como ele se entrega a toda a qualidade de furor. Dai-lhe um chuço e vereis o 10 de Agosto; dai-lhe uma espingarda, tereis Austerlitz. O povo de Paris é o ponto de apoio de Napoleão e o recurso de Danton. Tratando-se da pátria, alista-se; tratando-se da liberdade, levanta barricadas. Cuidado! Os seus cabelos irados tornam-se épicos; a sua blusa transforma-se em clâmide. Acautelai-vos. Da primeira rua Grenetat que vir, fará forcas caudinas. Em soando a hora, o habitante dos arrabaldes cresce, o homem pequeno levanta-se e o seu olhar será terrível, o seu hálito torna-se tempestade, e daquele débil peito saem rajadas capazes de derrubar as eminências dos Alpes. É
ajudada por esses habitantes dos arrabaldes de Paris que a revolução conquista a Europa. Esses homens cantam; é a sua alegria. Proporcionai-lhe a canção à sua natureza e vereis! Quando só têm por estribilho a Carmagnole, derrubam Luís XVI; fazei-o cantar a Marselhesa e libertarão o mundo!