Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 338 de 359

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Os Miseráveis

IV — Onde Mademoiselle Gillenormand achou que os embrulhos de Fauchelevent nada tinham de inconvenientes

— Meu pai!

— Que é?

— Porque não há-de ser hoje?

— Pois seja hoje. Não vou contra isso. Já hoje me chamaste três vezes «teu pai», e, portanto, estou pronto a fazer-te a vontade. Eu vou tratar disso. Fica descansado, que a hás-de ver. Eu já esperava por isso, como te disse. São coisas que já foram postas em

versos! E como no final do jovem Doente, de André Chénier, de André Chénier que foi estrangulado pelos celer... pelos gigantes de 93!

Gillenormand supôs descobrir um leve franzir de sobrancelhas em Mário, que na verdade, devemos dizê-lo, já não o escutava, enlevado, como se achava, numa espécie de êxtase e pensando mais em Cosette do que em 1793.

O ancião, amedrontado por ter tão desastradamente trazido a lume o nome de André Chénier, atalhou logo em seguida:

— Estrangulado não, não disse bem. É certo que os grandes génios revolucionários, cujo bondoso carácter ninguém pode Contestar nem a sua heroicidade, achavam que André Chénier os incomodava alguma coisa, e por isso tomaram a resolução de o guilho... quero dizer, esses grandes homens, a sete thermidor, no interesse da salvação pública, rogaram a André Chénier houvesse por bem deixar-se...

Chegado a esta frase, Gillenormand engasgou e não pôde con nuar; não podendo terminá-la nem retratá-la, enquanto sua filha compunha o travesseiro a Mário, abalado por tão profunda emoção, saiu o mais precipitadamente que lho permi a a idade pelo quarto fora, e vermelho, esbaforido, escumando, com olhar desvairado, esbarrou-se com o honrado Biscainho, que se achava na sala imediata, limpando umas botas, e agarrando-o pelo cachaço, gritou-lhe aos ouvidos com gesto furibundo:

— Com um milhão de diabos! Assassinaram-no, aqueles marotos!

— A quem, senhor?

-A André Chénier!,

— Sim, senhor! — disse Biscainho atrapalhado.

IV — Onde Mademoiselle Gillenormand achou que os embrulhos de Fauchelevent nada tinham de inconvenientes

Cosette e Mário tornaram a ver-se.

Renunciamos à descrição de semelhante entrevista. Há coisas que se não devem tentar pintar, como, por exemplo, o Sol.

Quando ela entrou, achava-se reunida no quarto de Mário toda a família, sem exceptuar Biscainho e Nicolette.

Ao vê-la assomar ao limiar, dir-se-ia que a circundava uma auréola.

Justamente nessa ocasião, o avô de Mário ia assoar-se, porém, ao dar com os olhos nela, estacou e pôs-se a contemplá-la com o nariz metido no lenço

— Não pode ser mais linda! — exclamou ele.

E, dizendo isto, assoou-se com estrondo.

Cose e estava embriagada, transportada, amedrontada, louca de prazer. O júbilo que experimentava quase a enchia de susto. Ora corava, ora empalidecia, desejosa de se lançar nos braços de Mário, mas não ousando fazê-lo, envergonhada de amar diante :de tanta gente.

Ninguém sabe ser compassivo com os amantes felizes; todos se deixam ficar ao pé deles, quando, o seu maior desejo seria acharem-se a sós, porque a nossa presença lhes é completamente desnecessária.

Logo atrás de Cose e, entrara um sujeito de cabelos brancos, grave, mas risonho. O

seu sorriso tinha um não sei quê de vago e doloroso.

Era o «senhor Fauchelevent»; era Jean Valjean.

Vinha «muito bem trajado», como dissera o porteiro, com o fato novo todo preto e gravata branca.

Longe e bem longe estava o porteiro de reconhecer neste asseado burguês, que parecia um tabelião, o medonho condutor de cadáveres, que lhe surgira à porta, na noite do dia 7 de Junho, roto, cheio de lama, hediondo, medonho, com o rosto coberto de lodo e sangue, amparando Mário desfalecido; contudo, o seu faro de porteiro despertou.

Quando Fauchelevent entrou com Cosette, não pôde deixar de dizer a sua mulher com ar confidencial:

— Não sei que cisma é a minha de que já vi esta cara!

Chegado ao quarto de Mário, Fauchelevent deixou-se ficar no limiar da porta. Trazia debaixo do braço um pacote semelhante a um volume em oitavo, embrulhado num papel, cuja cor esverdeada o fazia parecer manchado de bolor.

— Este homem anda sempre com livros debaixo do braço! — disse em voz baixa para Nicolette a filha de Gillenormand, que não gostava de livros.

— E então que tem isso? — acudiu ao mesmo tom Gillenormand, que nha ouvido o que ela dissera à criada. — É porque é um sábio. Porventura tem ele culpa disso?

Boulard, que eu conheci muito bem, nunca saía de casa sem um livro, e também andava sempre com um alfarrábio unido ao coração.

E acrescentou em voz alta, fazendo uma cortesia:

— Senhor Tranchelevent...

Gillenormand não o fez de propósito, porém é certo que a falta de cuidado com os nomes próprios era nele uma maneira aristocrática.

— Senhor Tranchelevent, tenho a honra de pedir-lhe a mão de sua filha para meu neto, o senhor barão Mário Pontmercy.

«O senhor Tranchelevent» inclinou-se.

— Está dito! — acudiu ele.

E, voltando-se para Mário e Cose e, com os braços levantados, como quem abençoa, exclamou:

— Podem adorar-se!

Os jovens não esperaram que lho dissessem outra vez. Era para ver como eles se apressaram a aproveitar-se daquela permissão, principiando a falar em voz baixa. Mário debruçado na sua cadeira de braços Cosette em pé junto dele.

— Ora, meu Deus! — murmurava Cose e. — Pois é possível?! Tornar a ver-te! Ires meter-te em semelhante perigo! Mas porquê? É horrível! Tenho passado os quatro meses mais cruéis da minha vida! Oh, que mal te nha feito para te ires arriscar nessa batalha, sem piedade nenhuma para comigo! Perdoo-vos, com a condição de que não tornareis a fazer outra. Há um bocado, quando nos mandaram recado para virmos, cuidei ainda de morrer, mas era com alegria! Eu andava tão triste! Devo estar horrenda, porque nem quis demorar-me um instante a ves r-me. Muito se hão-de rir os teus parentes, vendo-me este colarinho todo amarrotado! Então não dizes nada? Queres que só eu fale? Nós ainda estamos na rua do Homem Armado. E como estás do ombro?

Disseram-me que lhe cabia uma mão dentro. E que te cortavam a carne à tesoura! Oh, faz-me estremecer só a lembrança do que tu passaste! Eu não fazia senão chorar! Não sei como veste ânimo para sofrer tanto! Teu avô é que parece uma bela criatura. Deixa-te estar, mas não te debruces assim, olha que te podes magoar! Como sou feliz!

Acabaram-se as desgraças! Parece que ando doida! Trazia na ideia um horror de coisas para dizer-te e esqueceu-me tudo. Ainda me amas? Olha, moramos na rua do Homem Armado. A casa nem tem jardim. Sabes em que eu passava o tempo? A fazer fios! Vê, meu senhor? Por sua causa enchi os dedos de calos!

— Anjo! — dizia Mário.

«Anjo» é a única palavra que jamais envelhece. Nenhuma outra resis ria ao repe do uso que dela fazem os amantes.

Em seguida, repararam que não estavam sós e calaram-se, limitando-se apenas a apertarem-se mutuamente as mãos.

Gillenormand voltou-se para os circunstantes e exclamou:

— Falem alto, senhores! Façam bulha nos bas dores! Diabo! Haja troça, senão estes pequenos não podem tagarelar à vontade!

E, aproximando-se de Mário e de Cosette, disse-lhes em voz baixa:

— Nada de cerimónias. Tratem-se por tu!

A

a Gillenormand assis a pasmada a esta irrupção de luz no seu interior envelhecido. O seu assombro, porém, nada nha de agressivo; não era de modo nenhum o olhar escandalizado e invejoso de uma coruja contemplando dois pombos; era o olhar idiota de uma pobre inocente de cinquenta e sete anos; era a velhice contemplando o triunfo do amor!

— Eu bem te dizia, minha filha, que te havia de vir a acontecer isto! — dizia-lhe seu pai.

E, após um momento de silêncio, acrescentou:

— Contempla a ventura dos outros!

Depois voltou-se para Cosette e continuou:

— Que linda é! Que linda é! Parece um quadro de Greuze! Anda tu, meu brejeiro, que, se eu fosse mais novo, havíamos de ver com as espadas em punho a quem ela havia de pertencer! A menina não imagina como eu lhe quero! Também: não admira; a minha obrigação é essa. Oh, que linda boda aqui vai haver! A nossa freguesia é S. Diniz do Santíssimo Sacramento, mas eu hei-de arranjar licença para o casamento ser em S. Paulo.

Sempre é outra qualidade de igreja, mais bonita e airosa do que a outra. Ou ela não fora edificada pelos jesuítas! Fica defronte do chafariz do cardeal Birague. Em Namur é que se encontra a obra-prima de arquitectura jesuíta. Depois de recebidos, devem lá ir, que não perdem o tempo. Olhe, menina, eu sou da sua opinião, quero que as raparigas casem, não nasceram para outra coisa. Há uma tal Santa Catarina que eu gostaria de ver sempre destoucada. Ficar solteira é bonito, mas é frio. A Bíblia diz: «Mul plicai-vos». Para salvar o povo é bom que, haja uma Joana d’Arc, mas para fazer povo a mãe Gigogne. Por

consequência, casem, meninas. Se querem que lhes diga a verdade, eu não sei porque uma menina há-de ficar solteira. Bem sei que essas tais têm uma capela separada na igreja, e, além disto, a confraria da Virgem; ora adeus! Mas isto vale, porventura, um marido, rapaz bonito, e, ao cabo de um ano, um pequerrucho louro mamando sofregamente, com grandes refegos de gordura nas coxas e que está sempre a meter no seio da mãe as mãozinhas da cor da aurora?! Oh, isto sempre é melhor do que assis r a umas vésperas de círio na mão e cantar: Turns ebúrnea!

Gillenormand fez uma pirueta sobre os seus calcanhares de noventa anos e con nuou a falar, como uma mola que novamente se solta.

Com que então, bela Alcippe, sempre é certo

que o dia da tua boda já vem perto?

— É verdade!

— Que é, meu pai?

— Tu não tinhas um amigo íntimo?

— Sim, senhor. Courfeyrac.

— Que é feito dele?

— Morreu!

— Isso foi bom.

Dizendo isto, sentou-se ao pé dos dois jovens, obrigou Cose e a fazer o mesmo e continuou, tomando entre as suas enrugadas mãos as dos dois jovens:

— Esta fei ceira Cose e é uma obra-prima! Tem ar de criança e de grande fidalga!

Nasceu marquesa e vai ser só baronesa! Olhem que pestanas! Meus filhos, tomem bem sen do no que lhes diz este velhote. Vocês estão no Verdadeiro caminho. Amem-se até mais não poderem, até endoidecer! O amor é a tolice dos homens e o espírito: de Deus.

Adorem-se! Mas — acrescentou ele, de súbito, com expressão de tristeza — agora me lembro! Mais de metade dos meus haveres são em rendas vitalícias; enquanto eu for vivo, não tem dúvida, mas depois da minha morte, daqui a vinte anos, ah, meus pobres filhos, nada tereis! Que será das suas mãozinhas brancas, senhora baronesa?