Os Miseráveis

Victor Hugo · Capítulo 87 de 359

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Os Miseráveis

XVIII — Recrudescência do direito divino

Waterloo conduz pela mão o direito divino. É verdade que tendo o império sido despó co, devia a realeza, pela reacção das coisas, ser forçosamente liberal, e que Waterloo, ainda que contra a vontade e com grande pesar dos vencedores, saiu uma ordem de coisas cons tucional. É que a revolução não pode ser verdadeiramente vencida e que, sendo providencial e absolutamente fatal, reaparece sempre, antes de

Waterloo, em Bonaparte derribando os velhos tronos, depois de Waterloo, em Luís XVIII, outorgando e sofrendo a carta. Bonaparte põe um pos lhão sobre o trono de Nápoles e um sargento sobre o da Suécia, querendo provar a igualdade. Luís XVIII, em Saint Ouen, assina em contrário a declaração dos direitos do homem. Quereis explicar-vos o que é a revolução, chamai-lhe progresso; quereis saber o que é o progresso, chamai-lhe Amanhã.

Amanhã leva irresis velmente a cabo a obra começada hoje. É extraordinário, mas nunca deixa de chegar ao seu fim. Emprega Wellington em fazer de Foy, que não era mais do que um soldado, um orador Foy cai em Hougomout e ergue-se na tribuna. É

assim que procede o progresso. Para um tal operário não há ferramenta má. Adapta ao seu trabalho divino, sem se perturbar, o homem, que galgou os Alpes, e o bom velho e doente Eliseu. Serve-se tanto do gotoso como do conquistador; deste no exterior, do primeiro no interior.

Waterloo, obstando por uma vez a demolição dos tronos europeus pela espada, não teve por efeito senão con nuar o trabalho revolucionário por outro lado. Os acu ladores acabaram: chegou a vez aos pensadores. O século que Waterloo pretendia fazer parar, passou-lhe por cima e con nuou o seu caminho. Esta sinistra vitória foi vencida pela liberdade.

Em suma, e incontestavelmente, o que triunfava em Waterloo, o que se sorria por trás de Wellington, o que lhe dava todos os bastões de marechal da Europa, compreendendo, segundo dizem, o marechal de França, o que fazia rolar alegremente as carretas de terra cheias de ossadas para elevar o cabeço do leão, o que triunfantemente escrevia sobre o pedestal a data: 18 de Junho de 1815, o que animava Blucher a acu lar a derrota, o que do alto da planície de Mont-Saint-Jean se debruçava sobre a França como sobre uma presa, era a contra-revolução.

Era a contra-revolução que murmurava a infame palavra: desmoronamento.

Chegada a Paris viu a cratera de perto, sen u que a cinza lhe queimava os pés e modificou-se. Segurou-se, balbuciando uma Carta.

Não vejamos em Waterloo senão o que ele foi. De liberdade intencional, nada. A contra-revolução era involuntariamente liberal, do mesmo modo que, por um fenómeno correspondente, Napoleão era revolucionário. O dia 18 de Junho de 1815 apeou Robespierre do cavalo em que montava.

XVIII — Recrudescência do direito divino

Terminando a ditadura, desmoronou-se um sistema completo da Europa.

O império ocultou-se numa sombra que se assemelhou à do mundo romano agonizante. Tornou a ver-se o abismo como no tempo dos bárbaros Somente a barbárie de 1815, a que é necessário nomear pelo seu nome próprio, contra-revolução, nha pouco fôlego, cansou depressa e parou repen namente. O império foi, confessemo-lo, chorado por olhos heróicos. Se a glória reside na espada feita ceptro, o império fora a própria glória. Derramara sobre a terra toda a luz que a tirania pode dar, luz sombria.

Digamos mais; luz escura. Comparada com a do dia, é trevas. Esta desaparição da noite produziu o efeito de um eclipse.

Luís XVIII voltou a Paris. As danças de 8 de Julho apagaram os entusiasmos de 20 de Março. O corso tornou-se a an tese do bearnês. Nas Tulherias flutuou a bandeira branca. O desterro entronizou-se. A mesa de abeto de Hartwel tomou lugar diante da poltrona ornada de flores de lis de Luís XVIII Falou-se de Bouvines e de Fontenoy, como casos da véspera, porque Austerlitz envelhecera O altar e o trono fraternizaram majestosamente. Uma das formas mais incontestáveis da salvação da sociedade no século XIX, estabeleceu-se na França e no continente A Europa adoptou o laço branco.

Trestaillon tornou-se célebre. A divisa non pluribus impar reapareceu nos raios da pedra que figuravam um sol na fachada do quartel do cais do Orsay, Onde nha havido uma guarda imperial passou a haver uma casa vermelha. O arco do Carrousel, todo carregado de vitórias mal conduzidas, não se reconheceu no meio de tantas novidades: e um pouco envergonhado, talvez, de Marengo e de Arcole, rou-se do aperto com a estátua do duque de Angoulême. O cemitério da Madalena, temível vala comum de 93, cobriu-se de mármore e de jaspe, porque se encontravam nele os ossos de Luís XVI e de Maria Antonieta. No fosso de Vincennes surgiu da terra um cipreste sepulcral, recordando que o duque de Enghien fora morto no mesmo dia em que Napoleão fora coroado. Pio VII, que fizera esta sagração tão próxima daquela morte, abençoou tranquilamente a queda como abençoara a elevação. Houve em Schoenbrunn uma pequena sombra, de quatro anos de idade, a quem se tornou sedicioso chamar rei de Roma. E todas estas coisas se fizeram, os reis voltaram aos seus tronos e o senhor da Europa foi me do numa gaiola, o an go regime tornou-se novo, e toda a sombra e toda a luz da terra mudou de lugar, porque na tarde de um dia de Verão houve um pastor que, num bosque, disse a um prussiano: «Vá por aqui e não por ali»

Aquele 1815 foi uma espécie de tristonho Abril. As velhas realidades mórbidas e venenosas revestiram-se de aparências novas A mentira desposou 1789 e o direito divino mascarou-se com uma Carta, as ficções tornaram-se cons tucionais, os preconceitos, as supers ções e as traições, com o art.º 14.º no coração, envernizaram-se de liberalismo.